A autora de "O Dia dos Prodígios" e "Misericórdia" é a vencedora do prémio atribuido pelos governos do Brasil e Portugal e que distingue um autor de língua portuguesa
A escritora portuguesa Lídia Jorge é a vencedora do Prémio Camões 2026, o mais importante galardão para os autores em língua portuguesa, atribuído pelos ministérios da Cultura do Brasil e Portugal.
O júri, reunido esta tarde em formato online, deliberou por unanimidade, destacando "o diversificado conjunto da sua obra e o grande contributo para o
enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa", lê-se no comunicado do Ministério da Cultura.
“É o prémio que olha para a literatura portuguesa e para as letras portuguesas, como símbolo daquilo que é a nossa alma entornada pelo mundo, como Camões diz na Canção IX, pelo mundo e pela vida, pelo mundo em pedaços repartida”, reagiu a autora em declarações à agência Lusa.
Recusando qualquer impacto na escrita dos galardões que tem ganhado, a escritora afirmou: “Essa simbologia é tão forte, tão forte, que de facto eu, neste momento, sinto-me comovida e agradecida”. “Não altera nada. Quer dizer, uma coisa são os prémios que dizem que significa que o teu trabalho vale a pena. E isso é uma grande felicidade e ajuda muito e a pessoa fica confiante, naturalmente, mas o essencial é outra coisa, quer dizer, a escrita é uma jubilação interior, não é? É um trabalho interior, solitário no caso da literatura, solitário e, ao mesmo tempo, tão forte, tão grandioso, porque é uma luta com a língua, com a construção de uma história, com uma criação que é uma imitação de uma criação superior, isso não é alterado por nada que tenha a ver com os prémios”, declarou.
Autora de uma vasta obra, desde que em 1980 se estreou com "O Livro dos Prodígios", Lídia Jorge tem publicado romance, conto, ensaio, teatro, crónica e poesia. As suas narrativas foram adaptadas a teatro, televisão e cinema.
Entre os seus livros, destacam-se títulos como "O Cais das Merendas" (1982), "Notícia da Cidade Silvestre" (1884), "Os Memoráveis" (2004) e, mais recentemente, "Misericórdia" (2022), que lhe valeu vários prémios, incluindo o Médicis Étranger. A escritora de 80 anos venceu também no ano passado o Prémio Pessoa.
Na fundamentação da decisão, o júri destacou uma escrita "marcada por uma prosa poética densa", dedicada à exploração de temas como o passado ditatorial e a transição democrática em Portugal, a condição feminina, a emigração, os conflitos geracionais, as transformações sociais e o papel da memória coletiva na construção da identidade contemporânea.
Para a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, "o Prémio Camões 2026 reconhece uma das mais relevantes vozes da literatura portuguesa contemporânea. Ao longo de décadas, Lídia Jorge construiu uma obra de enorme exigência intelectual e literária, contribuindo para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, pensamento e diálogo entre culturas".
Instituído em 1988 pelos estados português e brasileiro, o Prémio Camões visa distinguir autores cuja obra contribua de forma relevante para a projeção e valorização da língua portuguesa. Tem um valor pecuniário de 100 mil euros, suportado em partes iguais por Portugal e pelo Brasil.
