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Jornalista. Coordenadora das Redes Sociais

Licença do fogão

9 ago 2025, 11:30
Mãe e criança (Kaboompics/Pexels)
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Não se percebe bem em que curva do caminho o feminismo deu semelhante volta, mas espanta - e espanta muito - que durante uma semana a ouvir falar da licença de amamentação, depois das declarações da ministra do Trabalho, tão poucas vezes tenha ouvido no espaço público alguém dizer algo bastante óbvio: medidas dirigidas às mães, e apenas às mães, prejudicam as mulheres no mercado de trabalho. 

Não bastavam as tradwives do Tiktok, tarzans que acham que as mulheres não devem sair à noite e agora, fim da linha, reclamam-se políticas públicas cuja raiz ideológica está bordada num avental: “com três letrinhas apenas se escreve a palavra mãe, é das palavras pequenas, a maior que o mundo tem”. São um atentado à liberdade e à independência das mulheres. Já agora, parece fazer falta sublinhar o óbvio: pai também tem três letras. 

Estas são as palavras de Maria do Rosário Palma Ramalho que levantaram poeira: “Acho difícil de conceber que, depois dos dois anos, uma criança tenha que ser alimentada ao peito durante o horário de trabalho. Isso quer dizer que se calhar não come mais nada, o que é estranho. Ela deve comer sopa, deve comer outras coisas. Eu volto a dizer que o exercício adequado de um direito não deve confundir-se com o exercício abusivo desse mesmo direito. E, infelizmente, também temos conhecimento de muitas práticas em que, de facto, as crianças parece que continuam a ser amamentadas para dar à trabalhadora um horário reduzido, que é duas horas por dia que o empregador paga, até andarem na escola primária”. 

A ministra finge que as mães não precisam de tempo com as crianças. Os seus críticos fazem de conta que sem essas duas horas seria impossível amamentar para lá dos dois anos. Que farsa digna do teatro D. Maria! 

Palma Ramalho devia saber que as mães precisam desse tempo e que não são abusadoras. Usam a lei como qualquer fiscalista a fazer impostos: no limite. Não são elas que estão mal, é a lei que precisa de ser melhorada (e não é retirando essas duas horas).

Quando se fala de licença de amamentação, a primeira coisa a fazer era mudar-lhe o nome e chamá-la do que realmente é: licença do fogão. Não é uma permissão para as mães bucolicamente pegarem nos seus bebés e crianças e alimentarem-nos, mas uma justificação para ir buscar os filhos à creche, fazer máquinas de roupa, limpar e pôr-se ao fogão a cozinhar para a família inteira. Resumidamente, menos tempo no trabalho pago para se dedicar ao trabalho não remunerado. Porque na cabeça de muita gente ser mãe é ser cuidadora e ser cuidadora é ser uma fada do lar. Escrevi fada? Queria dizer escrava. Assim é que é.

O que a licença de amamentação diz sem dizer (a sonsa) é que as mulheres que usam a licença da amamentação ficarão a cuidar dos filhos mais tempo do que os pais e que uma série de tarefas domésticas vão recair sobre a mãe por hábito e defeito, oferecendo-lhe esse presente envenenado que é cuidar dos filhos - quem não quer mais tempo com os filhos?- e ficarem em desvantagem competitiva no mundo do trabalho. Não é que as mulheres não consigam. É que é simplesmente demasiado. 

Continua muito bem visto, aliás, que uma mulher se queira dedicar mais aos filhos do que ao trabalho, um dilema que nem devia ser dilema. Esta é uma perceção, mas também há dados. O trabalho da economista e historiadora Claudia Goldin, vencedora do equivalente ao prémio Nobel da Economia em 2017, veio demonstrar que é depois de serem mães que o fosso salarial para os homens se aprofunda. Progressivamente menos dedicadas ao trabalho, a prazo as mulheres afastam-se também dos melhores salários. Embalados numa doce cantiga coletiva sobre as maravilhas da maternidade e da amamentação, desperdiçamos talentos e qualificações. 

Fala-se muito da fuga de cérebros para o estrangeiro, mas triste mesmo é perdermos engenheiras, advogadas, médicas, professoras, juízas, contabilistas, gestoras, jornalistas, tradutoras, cientistas e __________ (escrever qualquer profissão) para o reino encantado do lar. Não há quem as tente resgatar deste mundo com um abate de 20% no IRS. É uma perda silenciosa. Admirada, muitas vezes. Glamourizada, até.  

Elas continuam engenheiras, advogadas, médicas, professoras, juízas, contabilistas, gestoras, jornalistas, tradutoras, cientistas e __________ (escrever qualquer profissão) mas, passados 17 anos de ter sido mãe pela primeira vez e vendo que os homens à minha volta estão muito mais disponíveis para cuidar dos filhos, quando é preciso abdicar de qualquer coisa pela família é a mãe que deixa para trás o trabalho. Simplesmente, o trabalho de uma mulher ainda não vale tanto como o de um homem. 

Claro que um pequeno ser humano que precisa de cuidados está em primeiro lugar, não se discute. E é claro que trabalhar menos duas horas é uma medida boa, importante e saudável. Para o pai e para a mãe. Para TODOS. Peguem, pois, este pedaço de girl math: dividam a licença por dois e as tarefas à volta de educar crianças serão mais leves para toda a gente. E bordem assim no avental: “Ser mãe é maravilhoso, ter uma profissão também”.

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