"Não é o vosso país." Presidente do Líbano lança críticas ao Hezbollah e ao Irão em entrevista exclusiva

CNN , Mostafa Salem
5 jun, 14:03
Joseph Aoun, presidente do Líbano (GettyImages)
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Joseph Aoun disse ter conversado com libaneses de diferentes religiões, incluindo xiitas, que lhe disseram estar "cansados" da guerra do Hezbollah contra Israel. 

O presidente libanês, Joseph Aoun, diz que o líder do Hezbollah, Naim Qassem, não representa o povo libanês, numa rara crítica pública ao líder militante xiita apoiado pelo Irão, um dia depois de este ter rejeitado um frágil acordo de cessar-fogo entre o Líbano e Israel.

Dirigindo-se diretamente a Qassem, disse, em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN: "O povo libanês não é o vosso povo".

Num comunicado divulgado na quinta-feira, Qassem criticou as negociações entre o Líbano e Israel, considerando-as uma "rendição", e afirmou que a trégua resultante foi rejeitada "na sua totalidade por amplos segmentos do povo libanês".

Aoun disse ter conversado com libaneses de diferentes religiões, incluindo xiitas, que lhe disseram estar "cansados" da guerra do Hezbollah contra Israel. “Não merecem ver as suas casas destruídas a cada cinco ou dez anos”, disse Aoun, acrescentando que o povo libanês conta com ele para pôr fim à guerra.

Enfraquecido por décadas de interferência estrangeira, conflitos sectários e guerras regionais, o Líbano sob o governo de Aoun prometeu enfrentar a árdua tarefa de desarmar o Hezbollah, num esforço para desmantelar a imensa influência do grupo no país e travar o avanço militar de Israel.

No entanto, Aoun e as Forças Armadas libanesas não conseguiram, até à data, desarmar o poderoso grupo apoiado por Teerão. O grupo foi formado na década de 1980 com o apoio e treino do Irão para combater a presença israelita no sul do Líbano, mas desde então transformou-se num formidável grupo armado com significativo poder político e apoio interno.

Aoun afirmou que famílias inteiras foram “dizimadas” pelos ataques israelitas, mostrando fotos de civis libaneses mortos durante a guerra.

“São libaneses. Não são o povo de Naim Qassem”, declarou.

"Este não é o vosso país, é o nosso país", diz o presidente do Líbano ao Irão

O presidente do Líbano fez uma dura crítica ao Irão, acusando-o de explorar a sua nação devastada pela guerra como moeda de troca no seu conflito com os Estados Unidos e Israel, e exigindo que Teerão deixe de interferir nos assuntos libaneses.

Numa rara e exclusiva entrevista no palácio presidencial em Beirute, o presidente Joseph Aoun disse à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, que o povo libanês está "farto" da guerra entre Israel e o Hezbollah, o poderoso grupo militante apoiado pelo Irão e força política vista como um Estado dentro do Estado libanês.

O presidente falou à CNN enquanto o cessar-fogo com Israel permanece incerto, com a sua pequena nação mais uma vez envolvida num dos conflitos regionais mais graves entre o Irão e Israel.

Dirigindo-se ao Irão, disse: "Vocês não estão a tentar ajudar-nos. O povo do Líbano está a pagar o preço em nome dos vossos próprios interesses", acrescentando: "Os nossos interesses não coincidem com os vossos".

Dirigiu ainda as suas críticas à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), a força militar de elite do Irão, dizendo: "Este não é o vosso país, é o nosso país".

Aoun rejeitou uma declaração da Guarda Revolucionária divulgada na quarta-feira, que exigia a retirada de Israel do Líbano como parte de um acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão. "Estão a usar o Líbano como moeda de troca nas suas negociações com os EUA", disse. "Isto é inaceitável."

Israel e Líbano chegaram a acordo na quarta-feira para implementar um cessar-fogo, mas este continua condicionado à completa cessação dos ataques do Hezbollah e à retirada total de todos os membros do grupo do sul do Líbano.

"Foi uma negociação difícil até conseguirmos um grande avanço", disse Aoun, acrescentando que o acordo pode ser um caminho para uma "paz justa e duradoura".

O Hezbollah, que não fazia parte do acordo, rejeitou-o na quarta-feira, afirmando que não garante a retirada israelita do sul do Líbano.

Soluções militares nunca trarão a paz ao norte de Israel, afirma 

As “soluções militares” nunca trarão segurança e tranquilidade aos israelitas que vivem no norte do país, afirmou também presidente libanês, Joseph Aoun, instando os israelitas a resolverem as disputas através de negociações.

Aoun questionou se os israelitas “querem mesmo viver” em “guerra perpétua”, acrescentando que o estado de hostilidade entre Israel e o Líbano deve terminar “para sempre”.

O Líbano e Israel estão tecnicamente em estado de guerra desde a criação de Israel, em 1948. O conflito mais recente começou depois de o Hezbollah ter lançado rockets contra cidades israelitas em retaliação por um ataque conjunto dos EUA e de Israel contra o Irão, que resultou na morte do Líder Supremo da República Islâmica, o ayatollah Ali Khamenei, e do seu alto comando militar.

Em apenas três meses, a operação militar israelita matou mais de 3.500 pessoas, desalojou um quinto da população do Líbano e estabeleceu uma zona tampão ao ocupar grandes áreas do sul do país, além de ter provocado a morte de 28 soldados israelitas.

“Estamos prontos, estamos dispostos, estamos empenhados (nas negociações para o fim da guerra)”, disse Aoun. “Se não estiverem, nunca viverão em paz, segurança e tranquilidade.”

Aoun não descartou a possibilidade de se reunir com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, naquele que seria o primeiro encontro entre os líderes dos dois países. Mas, sobre o possível encontro, acrescentou: “Não sem antes chegarmos a um acordo (para o fim da guerra)”.

O presidente afirmou anteriormente, na entrevista, que Netanyahu, juntamente com o Hezbollah, está a travar uma “guerra fútil” que nunca levará ao “resultado desejado”.

O antigo comandante militar disse que os povos libanês e israelita têm uma “grande oportunidade” de viver em segurança e tranquilidade.“Ambos estão fartos da guerra desde 1948”, disse. “Esta é uma grande oportunidade e ambos têm de escolher: a guerra ou a diplomacia.”

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