Enfrentar tubarões e porta-contentores. Como foi ser o primeiro a atravessar a nado o Mar Vermelho

CNN , George Ramsay
12 nov, 13:00
Lewis Pugh

Tendo anteriormente nadado nas águas mais frias do mundo só em calções de banho, para o seu desafio mais recente Lewis Pugh procurou o extremo oposto.

Quando se tornou a primeira pessoa a atravessar a nado o Mar Vermelho, no mês passado – um feito que demorou 16 dias e o levou a enfrentar ondas agitadas, canais de navegação concorridos e vida marinha extraordinária –, Pugh teve de lutar contra o que era, de longe, o oceano mais quente que alguma vez experienciara.

Com o sol a queimar-lhe as costas e a temperatura da água a subir, por vezes, acima dos 30 graus Celsius, Pugh viu-se a lutar contra a exaustão e a desidratação – mesmo restringindo-se a nadar nas horas mais frescas do dia.

“É um desafio considerável”, confessa ele ao CNN Sport, “e o desafio instala-se, porque nos sentimos muito fracos e sem energia.”

Pugh, um nadador de resistência do Reino Unido, está acostumado a lidar com condições extremas em alguns dos oceanos mais remotos do mundo.

Mas a maratona de natação da Ilha de Tiran, na Arábia Saudita, até Hurghada, no Egito, colocou uma miríade de dificuldades, até porque envolvia serpentear por entre o tráfego marítimo no Golfo do Suez – a extensão de água que liga o Canal do Suez ao Mar Vermelho.

E se a negociação com um fluxo constante de petroleiros e porta-contentores não fosse já problemática o suficiente, Pugh foi ainda fustigado pela ondulação, lutando contra águas agitadas na grande maioria do trajeto.

Lewis Pugh teve de competir com grandes navios de carga, enquanto atravessava a nado o Mar Vermelho.
Crédito: The Lewis Pugh Foundation

No total, cobriu uma distância de aproximadamente 123 quilómetros, entre 11 e 26 de outubro, nadando entre 5,5 a 12 quilómetros por dia.

“O meu corpo está terrivelmente sovado”, diz Pugh, cerca de uma semana depois de terminar a prova. “A cada dia, aquelas ondas lançavam-se contra mim, torcendo o meu corpo para a frente e para trás, para a frente e para trás.”

O trajeto a nado também envolvia o risco sempre presente de encontrar um tubarão, de que há cerca de 40 espécies diferentes no Mar Vermelho, segundo Pugh; os mais perigosos são os tubarão-martelo, o tubarão-de-pontas-brancas e o tubarão-tigre.

Como proteção, o casco do barco de apoio de Pugh estava equipado com um dispositivo eletrónico capaz de repelir tubarões num raio de quatro metros, significando que os encontros foram escassos e muito espaçados.

Mas a vida marinha que Pugh pôde testemunhar de perto, deixou-o fascinado pela sua beleza.

“Quando nadamos por aqueles recifes de coral, é absolutamente incrível, porque as cores são extraordinariamente vibrantes – os amarelos, os púrpuras, os verdes, e depois toda a vida selvagem que aí habita”, diz ele.

Em certos trechos do percurso, Pugh foi acompanhado pela nadadora de águas abertas, Mariam Saleh Bin Laden – que se tornou a primeira árabe, primeira saudita e primeira mulher a nadar da Arábia Saudita ao Egito – e pelo nadador egípcio, Mostafa Zaki.

O objetivo da travessia foi chamar a atenção para os recifes de coral do mundo – local dos ecossistemas marinhos mais exuberantes da Terra – e a sua condição precária no contexto da crise climática.

Os cientistas estimam que cerca de 70 a 90% de todos os corais vivos desaparecerão nos próximos 20 anos, face à subida da temperatura das águas.

Segundo as conclusões de uma agência governamental australiana, publicadas no início deste ano, o aquecimento das águas já causou branqueamento de corais em 91% dos recifes pesquisados ao longo da Grande Barreira de Coral.

Pugh, uma figura de destaque na proteção marinha enquanto Patrono das Nações Unidas para os Oceanos, diz que o coral e a vida selvagem no Mar Vermelho se adaptaram às elevadas temperaturas da água ao longo de milhares de anos, que se tornou o lar de algum do coral mais resistente do mundo.

Mas outros lugares contam uma história diferente.

“Fiz uma travessia a nado, há alguns anos, ao longo das Maldivas – um grupo de ilhas no meio do Oceano Índico – e recordo-me de nadar por cima desses recifes de coral, que eram absolutamente incríveis”, diz Pugh.

“Voltei lá 10 anos mais tarde. O nível da água tinha subido; a temperatura da água subira ligeiramente; a vida animal tinha praticamente desaparecido; e o coral estava completamente branco, descolorado, morto.”

A travessia a nado de Pugh foi feita desde a Ilha de Tiran, na Arábia Saudita, até Hurghada, no Egito.
Crédito: The Lewis Pugh Foundation

Esta semana, Pugh viajou até à cimeira do clima, COP27, em Sharm El-Sheikh, no Egito – um local por onde passou na sua travessia a nado do Mar Vermelho.

Aí, ele planeia falar com líderes mundiais sobre a gravidade da crise climática e sobre o que significa para o futuro do planeta – tal como fez na COP26 do ano passado, em Glasgow, na Escócia, depois de atravessar a nado o fiorde Ilulissat Icefjord, na Gronelândia.

“Eu vejo as regiões polares e os recifes de coral do mundo, como os dois marcos zero da crise climática”, diz Pugh. “E digo-o, porque é demasiado evidente nessas partes do mundo que estamos a braços com uma crise mesmo muito séria.”

Parte da razão para as travessias de longa distância a nado de Pugh é persuadir os líderes mundiais a introduzirem áreas marinhas protegidas.

Em 2015, por exemplo, ele nadou ao longo do Mar de Ross, na Antártica, que contém hoje uma área protegida abrangendo 1,55 milhões de Km2 – a maior área protegida do seu género no mundo, aproximadamente do tamanho do Reino Unido, Alemanha, França e Itália combinados.

Mas Pugh quer também que as suas travessias contem histórias sobre partes do mundo muitas vezes esquecidas.

“Quando vemos os danos em terra, é por demais evidente”, diz ele. “Debaixo de água, é muito mais difícil. Com estas travessias, procurei levar as pessoas – o público, os média, os líderes mundiais – ao local do crime e mostrar-lhes o que está a acontecer e explicar porque é importante protegermos esses lugares.”

Ainda a recuperar da sua travessia do Mar Vermelho, Pugh ainda não sabe qual será o próximo oceano onde irá mergulhar, usando apenas uns calções de banho. Por agora, está focado na COP27 e nas promessas feitas pelos líderes mundiais, face à crise climática.

“Precisamos de assumir compromissos a muito mais curto prazo e muito mais incisivos”, diz Pugh. “E terão de ser bem mais ambiciosos do que foram até aqui.”

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