Polícia brasileira matou 6.602 pessoas no último ano, maior número da última década

Agência Lusa , JS
23 jul, 18:47
(Foto: Bruna Prado)
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Além disso, mais de 1,5 mil mulheres foram vítima de feminicídio, totalizando 18 mortes por dia

As polícias brasileiras mataram 6.602 pessoas em 2025, registando 18 óbitos diários e o maior número absoluto da série histórica, segundo o novo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Este volume de mortes decorrentes de intervenções policiais cresceu 5,4% em relação a 2024, e reflete uma realidade estrutural do quotidiano nacional, de acordo com o levantamento da organização não-governamental, que divulgou esta quinta-feira o 20.º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.

Numa década, ou seja, entre 2015 e 2025, 60.558 pessoas foram mortas em ações policiais no Brasil.

Enquanto os homicídios dolosos caíram, a letalidade policial seguiu tendência inversa, representando uma em cada seis mortes violentas intencionais.

O perfil das vítimas mantém um padrão de desigualdade, sendo que 99,3% dos mortos são homens e 82% são pessoas negras.

Entre os estados brasileiros, o Amapá, na região Norte, registou a maior taxa de letalidade policial, com 17,1 mortes, seguido pela Baía, no Nordeste, com 10,6.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a "Operação Contenção", em outubro de 2025, no Rio de Janeiro, simboliza esse cenário ao resultar em 122 mortes em dois dias, superando o Massacre do Carandiru, em 1992, que resultou na morte de 111 presos.

No anuário destaca-se que “o desafio atual deixou de ser apenas operacional e passou a envolver mecanismos de controle institucional, transparência, responsabilização e prevenção da captura das instituições públicas pelo crime organizado”.

A organização não-governamental destaca a necessidade de mecanismos como câmaras corporais nos agentes de segurança pública, para garantir que o uso da força por polícias seja a última alternativa.

“É facto que parte das mortes por intervenção policial podem se relacionar com o uso da força de modo legítimo. No entanto, a partir os dados obtidos, não é possível distinguir quais casos são legítimos ou não”, lê-se no relatório.

“Para todos os casos é necessária a atuação de monitoramento, como o uso ininterrupto das câmaras corporais, e fiscalização interna, por meio das corregedorias, bem como, externa, com a atuação do Ministério Público sobre as polícias brasileiras”, conclui.

1.571 mulheres foram vítima de feminicídio

No último ano o Brasil registou 1.571 vítimas de feminicídio - quatro mulheres mortas por dia -, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Os números agora divulgados representam quatro mulheres mortas por dia, o valor mais elevado desde a criação deste tipo penal, em 2015, conforme a série histórica contabilizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Este resultado marca ainda o quarto ano seguido de recordes nos assassinatos motivados por género, consolidando uma tendência de crescimento iniciada na última década em todo o território nacional.

Enquanto os homicídios gerais caíram 10%, a violência letal específica contra a mulher seguiu a tendência oposta, revelando que a redução da criminalidade não beneficia igualmente todos os grupos sociais, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No perfil das vítimas detalhado pelo relatório, as mulheres negras permanecem como o alvo principal, representando 65,1% das ocorrências de feminicídio confirmadas pelas autoridades policiais no último ano.

Quase dois terços dos assassinatos ocorreram no ambiente doméstico, sendo que 79,8% dos autores identificados eram parceiros ou ex-companheiros das vítimas, o que reforça o caráter relacional e privado dessa modalidade extrema de violência.

Além dos casos consumados, o Brasil registou 4.189 tentativas de feminicídio em 2025, um aumento de 5,9% em relação ao ano anterior.

“Em outras palavras, para cada feminicídio consumado registado no país houve quase três tentativas. (...) As mulheres que hoje figuram nessa estatística podem representar, amanhã, parte das vítimas de feminicídio consumado”, destaca, no relatório, a organização não-governamental.

O incumprimento de medidas protetoras também cresceu 16,7%, somando 132.025 registos que funcionam como sinais claros de alarme antes da morte, mas que muitas vezes não recebem o tratamento adequado das instituições do Estado brasileiro, acrescenta.

Segundo o estudo, o Amapá teve o maior crescimento, com um aumento de 347,7%, enquanto o Acre registou o índice mais elevado do país, com 3,2 mortes para cada grupo de 100 mil mulheres brasileiras.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública sustenta que apenas medidas repressivas são insuficientes, sendo urgente uma agenda baseada em prevenção, educação e transformação de normas sociais para interromper o ciclo de abusos contra as mulheres.

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