As pistas genéticas que podem estar escondidas nas obras de Leonardo da Vinci

CNN , Ashley Strickland
22 fev, 17:00
Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci deixou para trás uma grande quantidade de pinturas, desenhos e cartas, objetos em que ele teria tocado e que ainda hoje podem conter vestígios de material genético

Artista, inventor e anatomista, Leonardo da Vinci era a definição de um homem renascentista e os cientistas pretendem desvendar os segredos da sua genialidade do ponto de vista genético.

Mas há apenas um problema: mais de 500 anos após a sua morte, em 1519, o ADN de Leonardo da Vinci provou ser praticamente impossível de localizar.

Nunca teve filhos e o seu túmulo, na Capela de St. Florentin, em Amboise, França, foi destruído durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII. Há rumores de que ossos foram recuperados dos escombros e enterrados novamente, mas a sua identidade e autenticidade são contestadas.

Na ausência de restos mortais verificados, os cientistas que participam do Projeto Leonardo da Vinci adotaram uma abordagem criativa: recolher amostras de artefactos associados ao polímata italiano para análise de ADN.

Leonardo da Vinci deixou para trás uma grande quantidade de pinturas, desenhos e cartas, objetos em que ele teria tocado e que ainda hoje podem conter vestígios de material genético.

A equipa do projeto recolheu amostras de cartas escritas por um parente distante de Leonardo, bem como de um desenho chamado “Holy Child” (Santo Menino), que possivelmente foi criado pelo mestre artista. O falecido negociante de arte Fred Kline atribuiu a obra a Leonardo, apesar de outros conhecedores contestarem a sua autenticidade.

A equipa descobriu uma grande quantidade de ADN ambiental no desenho e numa das cartas, incluindo bactérias, plantas, animais e fungos e uma sequência correspondente de cromossomas Y de um homem. As descobertas foram divulgadas a 6 de janeiro, numa pré-impressão de um estudo que ainda não foi revisto por pares.

“Há muito material biológico proveniente do indivíduo que pode ser rastreado até num pedaço de papel ou numa tela que o absorve”, diz um dos autores do estudo, Norberto Gonzalez-Juarbe, professor assistente do departamento de biologia celular e genética molecular da Universidade de Maryland, College Park. “E se o cobrir com tinta, ele fica com uma camada protetora”.

O estudo não afirma que o ADN pertence a Leonardo, mas a equipa acredita ter estabelecido um método e uma estrutura que podem ser usados para investigar outros artefactos. Se a mesma sequência do cromossoma Y for encontrada consistentemente em todos os itens, isso poderia ser a chave para montar o genoma de Leonardoda Vinci, considera outro autor do estudo, Charles Lee, professor do Laboratório Jackson de Medicina Genómica em Farmington, Connecticut.

Rastrear o ADN do artista pode fornecer insights sobre as suas brilhantes capacidades. A equipa acredita que ele tinha uma acuidade visual invulgarmente elevada, ou a capacidade de ver as coisas de forma mais detalhada do que a média das pessoas, com base nas suas obras de arte.

Descobrir se Leonardo tinha uma vantagem biológica é um objetivo a longo prazo, adianta, Charles Lee. “Espero que este estudo seja um primeiro passo importante nesse sentido”.

 

À procura de ADN com séculos

A recolha de amostras de ADN pode ser um processo destrutivo. Os membros do projeto, cientes da natureza inestimável dos itens que queriam estudar, começaram por identificar uma técnica minimamente invasiva que pudesse extrair material genético proveniente de obras de arte e documentos.

Depois de testar furos, cotonetes molhados e secos, aspiração molhada e seca e ferramentas utilizadas na comunidade forense, a equipa de investigação determinou que a recolha com cotonetes secos poderia recolher ADN suficiente para uma amostra e não danificaria a obra de arte.

O material genético de “Holy Child” forneceu uma visão composta do ambiente em que a obra de arte foi criada e armazenada nos últimos 500 anos, adianta Norberto Gonzalez-Juarbe.

“Holy Child”, um desenho do século XV feito com giz vermelho, é considerado obra de Leonardo da Vinci, mas as suas origens são contestadas. (Norberto Gonzalez-Juarbe/J. Craig Venter Institute)

Depois de excluir potenciais contaminantes ambientais, como pó, a equipa identificou marcadores específicos de plantas, animais e organismos que sugeriam que a obra era originária da Itália.

Norberto Gonzalez-Juarbe e os colegas de projeto detetaram ADN de laranjeira na obra de arte do século XV, que acreditam ter vindo dos jardins da família Medici, famosa pelas suas árvores cítricas raras, na região da Toscana, na Itália.

A equipa também detectou ADN de javali. Pincéis feitos com cerdas do animal eram comuns durante o Renascimento. Rígidos e duráveis, eles criavam uma textura distinta para pinturas a óleo, de acordo com o que os investigadores puderam aprender com este processo.

“Temos 100% de certeza de que é daí que vem o ADN do javali, do pincel?”, pergunta Charles Lee. “Não, mas isso corresponde ao que sabemos sobre história da arte”.

Os investigadores envolvidos no Projeto Leonardo da Vinci convidaram o grupo de Charles Lee, do The Jackson Laboratory, para examinar mais de perto o lado humano da história. Charles Lee e a sua equipa reuniram 43 cromossomas Y humanos e cobriram 180 mil anos de evolução, num artigo de 2023 publicado na revista Nature.

“Quando alguém se aproxima de si e diz: ‘não estaria interessado em ajudar a descobrir qual é o ADN de Leonardo da Vinci?’, como é que se recusa?”, confessa o investigador.

 

Rastrear um cromossoma Y familiar

Charles Lee e a sua equipa tiveram acesso a todos os dados acumulados de várias amostras do “Holy Child”, bem como às cartas escritas por um primo do avô de Leonardo da Vinci e também às pinturas renascentistas de diferentes artistas.

Os cromossomas Y estão presentes apenas nos homens e servem como marcadores da linhagem masculina. Por isso, foram selecionadas mulheres para recolher amostras dos artefactos.

Charles Lee insistiu que tudo fosse feito de forma cega, para que ele e os seus colegas não soubessem quais sequências provinham de qual peça, e analisaram cada uma delas para obter o ADN do cromossoma Y humano. Também foram recolhidas amostras de controlo dos investigadores que recolheram as amostras dos artefactos.

O grupo de Lee realizou o perfil do cromossoma Y e descobriu que os marcadores de uma das cartas e do desenho estavam geneticamente relacionados. Os investigadores compararam esses marcadores com um painel de cerca de 90 mil marcadores conhecidos em todo o cromossoma Y, o que os ajudou a determinar que o ADN pertencia ao haplogrupo E1b1.

Os haplogrupos categorizam pessoas que partilham um antepassado comum, identificado por variações genéticas que podem ser rasteadas através das linhas paternas ou maternas. As linhas paternas são rasteadas pelo cromossoma Y e as linhas maternas através do ADN mitocondrial.

Nos dias de hoje, o haplogrupo E1b1 provavelmente representaria 2% a 14% de uma amostra aleatória de homens na Toscana, o que o torna bastante comum, sublinha Charles Lee.

O investigador acrescenta, no entanto, que os geneticistas usam o termo comum quando algo tem uma frequência de 1% ou mais.

O geneticista microbiano Norberto Gonzalez-Juarbe (à esquerda) e a bióloga forense Rhonda Roby (ao centro) recolhem amostras do desenho “Holy Child”, enquanto a colecionadora Angela Zimm observa. (Marguerite Mangin)

 

Na Toscana, o clado mais comum - ou grupo que partilha um antepassado comum - pertence ao haplogrupo R, que consiste em cerca de metade de todos os homens que vivem lá atualmente. Acredita-se que o E1b1 tenha origem em África. Acredita-se que, há cerca de 9 mil anos, um número considerável de homens com o cromossoma Y E1b1 migrou do Norte de África para a Europa, recorda Charles Lee.

O ADN do cromossoma Y é da região da Toscana, consistente com o local onde Leonardo da Vinci nasceu e viveu. Antes deste estudo, Da Vinci não estava associado a nenhum haplogrupo. Se as evidências do haplogrupo E1b1 permanecerem consistentes em estudos futuros de outros objetos, e talvez até mesmo em descendentes vivos do pai de Da Vinci, uma suposição básica sobre o haplogrupo deles pode ser estabelecida, considera Charles Lee.

“Esta não é uma prova definitiva”, diz o investigadorn. “Estas são observações iniciais. A partir deste ponto, está a base sobre a qual podemos agora recolher mais dados para provar ou refutar, confirmar ou refutar os dados que encontramos”.

 

Realizando um trabalho delicado

A identificação do mesmo cromossoma Y em outros objetos também poderia eventualmente ser usada para ajudar a determinar se “Holy Child” foi realmente desenhado por Leonardo da Vinci e resolver o debate sobre a autenticidade, sublinha Norberto Gonzalez-Juarbe.

Mas alguns especialistas questionam que materiais devem ser usados na procura do ADN de Leonardo da Vinci.

Os materiais primários selecionados pela equipa para a recolha e análise não eram os mais adequados para tentar reconstruir o ADN de Leonardo da Vinci, considera Francesca Fiorani, professora de história da arte da Universidade da Virgínia, que não participou na investigação.

Embora “Holy Child” seja atribuído a Da Vinci, essa atribuição não é amplamente aceite, sublinha Francesca Fiorani. A cientista também acredita que uma carta, documento ou contrato escrito pelo pai de Leonardo da Vinci, que era geneticamente muito mais próximo do artista, teria sido mais adequado para a análise do que um documento escrito por um parente distante.

“A investigação de ADN está a adicionar insights importantes ao nosso conhecimento sobre as pessoas e o mundo, mas ela baseia-se na recolha segura de dados de ADN”, ressalva Francesca Fiorani. “No caso de Leonardo da Vinci, não há uma maneira segura de obter o ADN, pois não existem restos mortais dele, embora muitas tentativas fantasiosas tenham sido realizadas nas últimas décadas para identificar o seu corpo”.

No entanto, a impressionante metodologia utilizada no estudo pode eventualmente levar à recuperação bem-sucedida do ADN de Leonardo da Vinci no futuro, considera S. Blair Hedges, professor de biologia na Universidade Laura H. Carnell e diretor do Centro de Biodiversidade da Temple University, em Filadélfia. Também ele não esteve envolvido no projeto.

A montagem do genoma de Leonardo da provavelmente exigirá o ADN de descendentes e, possivelmente, os seus próprios restos mortais, se forem autenticados, que poderiam então ser usados em comparação com fragmentos genéticos menores recolhidos nas suas obras de arte e artefatos, considera S. Blair Hedges.

“São precisas mais investigações feitas para desenvolver um ‘código de barras’ de ADN exclusivo para Leonardo da Vinci. Eles ainda não têm o ‘código de barras’ de da Vinci”, acrescentou.

Embora a recolha com cotonete seja considerada o padrão ouro na ciência forense, a escovagem pode ser um método rápido e não destrutivo que os autores podem considerar no futuro, acrescenta Kelly Meiklejohn, professora associada de ciência forense na Western Sydney University, na Austrália, que também não participou no novo estudo. Varrer suavemente com uma escova e usar as cerdas para recolher material genético de manuscritos já foi usado com sucesso no passado por Kelly Meiklejohn e os colegas.

A investigadora certificou-se que precauções padrão fossem tomadas para reduzir a contaminação no laboratório, como ter mulheres a processar as amostras.

“No entanto, não é viável supor que o ADN humano sequenciado de cada amostra seja derivado de um único indivíduo”, diz.

Kelly Meiklejohn acredita que os autores poderiam usar outras metodologias, como o FORensic Capture Enrichment panel, projetado para isolar o ADN humano para identificar parentesco estendido, ancestralidade e análise fenotípica.

 

A procura para compreender um génio

Várias linhas de investigação estão em andamento para dar continuidade aos objetivos do Projeto Leonardo da Vinci.

O grupo de Norberto Gonzalez-Juarbe está a trabalhar com o Governo francês para recolher amostras de artefactos associados ao mestre artista que são mantidos em França. Em vez de se concentrar em pinturas famosas, como a “Mona Lisa”, a sua equipa está ansiosa por recolher amostras dos cadernos de Leonardo da Vinci ou de desenhos e pinturas menos conhecidos que não foram tão manuseados ao longo dos anos. Outros membros do grupo estão a recolher amostras dos descendentes do pai de Da Vinci. E continua o interesse pelos ossos que se supõe serem de Leonardo.

A “Mona Lisa”, uma das obras mais famosas do artista, está em exposição no Louvre, em Paris. (Gonzalo Fuentes/Reuters)

 

Norberto Gonzalez-Juarbe e Charles Lee esperam que todos os estudos separados se cruzem. “Em algum momento, adoraria ver um estudo feito em que, se mostrarmos que o E1b1 aparece consistentemente nessas múltiplas vias de exploração dos artefactos de Leonardo da Vinci e dos descendentes vivos do seu pai, iremos verificar essas amostras de ossos para ver se elas contêm E1b1”, deseja Charles Lee. “E, se contiverem, então chegarei a um ponto em que acho que Leonardo da Vinci tinha o cromossoma Y E1b1 com alta probabilidade”.

Em seguida, o trabalho de determinar que traços genéticos e marcadores Leonardo da Vinci carregava poderia ser usado para compreender a sua acuidade visual.

No entanto, os itens associados a Da Vinci são cuidadosamente guardados por conservacionistas e convencer os proprietários privados dos artefactos de que o trabalho é importante o suficiente para ser executado também é um desafio, sublinha Charles Lee.

Integrar a análise ao trabalho rotineiro de restauração ou limpeza é algo que Lee espera que se torne prática comum no futuro, resultando numa troca de informações entre geneticistas, biólogos e historiadores de arte.

Por enquanto, a equipa não tem ideia do que encontrará, ou se isso levará conclusivamente à descoberta do ADN de Leonardo da Vinci e à obtenção de insights a partir do seu genoma.

“É como assistir a um filme, certo? Se tu sabes como será o final, não há satisfação nisso. Mas quando és surpreendido por ele, não sabes como será. É isso que torna toda a jornada mais gratificante”, revela Charles Lee.

 

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