Os seus defensores dizem que a pasteurização mata os nutrientes e destrói as proteínas do leite. Mas não é verdade e o consumo de leite cru é um "risco de saúde pública"
Se tem andado pelas redes sociais nos últimos meses, particularmente o X, é capaz de já se ter cruzado com publicações em defesa do consumo de leite não pasteurizado ou "raw milk", como dizem os anglófonos.
Os adeptos deste produto, também denominado de "leite cru", são maioritariamente conservadores dos EUA e defendem que a pasteurização retira nutrientes e destrói as proteínas presentes no leite, e que o consumo do mesmo ajuda com determinados tipos de doenças, como alergias ou asma. Mas tal não corresponde à verdade, como explica o médico de saúde pública Bernardo Gomes à CNN Portugal.
"A pasteurização preserva quase tudo aquilo que o leite pode dar em termos de nutrientes, e a grande vantagem é a eliminação de micro-organismos que possam ser potencialmente patogénicos", começa por dizer. "Temos todo um conjunto de bactérias que podem ser transmitidas pelo leite cru, algo que a pasteurização evita. E estamos a falar de coisas tão sérias como brucelose, tuberculose bovina, Salmonella, E.coli, listeria…"
O processo de pasteurização começou a ser utilizado maciçamente no início do século XX, e deve o seu nome ao químico e microbiólogo francês Louis Pasteur, que adaptou o processo já utilizado para algumas bebidas alcoólicas, como a cerveja e o vinho, ao leite. O objetivo era eliminar a tuberculose bovina, que entre 1912 e 1937 matou cerca de 65 mil pessoas apenas em Inglaterra e no País de Gales.
A moda do leite cru tem alguns apoiantes de peso, incluindo Robert F. Kennedy Jr., a escolha de Donald Trump para secretário da Saúde do próximo governo dos EUA. Mas os benefícios que elencam não são reais ou não atenuam os riscos do seu consumo, afirma à CNN Portugal a nutricionista Sónia dos Santos.
RFK Jr.: “I only drink raw milk.” pic.twitter.com/TYwFxNQdVr
— PatriotTakes 🇺🇸 (@patriottakes) June 12, 2024
"O leite é, talvez, dos alimentos mais completos que temos, mas claro que tem micro-organismos presentes. Portanto, a pasteurização não acontece ao acaso. Beber leite não pasteurizado é dar um passo atrás. Este processo é para a nossa proteção. O que vai acontecer é que [a pasteurização] vai eliminar única e simplesmente elementos patogénicos ou bactérias patogénicas, aquelas que nos são prejudiciais. Não vai alterar as proteínas, não vai desnaturar as proteínas, porque a temperatura a que leva o leite não é suficiente para as danificar", explica a nutricionista.
"Não vejo nenhum benefício, muito pelo contrário, vejo um risco acrescido para a saúde pública", afirma Sónia dos Santos, que concorda que esta prática é um "retrocesso civilizacional".
Bernardo Gomes alerta também para os riscos que o consumo de leite cru acarreta para os mais vulneráveis como crianças, idosos e indivíduos imunocomprometidos. "São as populações vulneráveis, que têm parte da sua dieta baseada no consumo de leite pasteurizado, que ficam mais em risco se a moda do leite cru pega como algo que é disseminado como potencialmente favorável, o que não é".
O consumo de leite cru também tem sido associado a doenças e pequenos surtos. No início deste mês, na Califórnia, a distribuição de leite cru foi suspensa após ter sido detetado H5N1, o vírus que provoca a gripe das aves, em algumas amostras analisadas pelo Departamento de Alimentação e Agricultura da Califórnia. Desde o anúncio da suspensão até ao dia 12 de dezembro, foram reportados pelo menos 10 casos de indivíduos que ficaram doentes alegadamente após terem consumido leite não pasteurizado, disse o Departamento de Saúde Pública da Califórnia.
"A nutrição está muito exposta a modas"
Bernardo Gomes explica que o risco de um surto em grande escala é mais reduzido neste caso pois, "quando dependemos de um alimento para transmitir patologia, nunca deixa de ser preocupante, mas estamos sempre dependentes do transporte e da finitude do próprio alimento".
"Uma intoxicação alimentar, por mais grave que seja, terá sempre um número finito de pessoas afetadas. Depois ainda há processos como a retirada dos lotes e a procura dos alimentos para evitar que mais pessoas sejam expostas", explica o médico de saúde pública.
No entanto, Bernardo Gomes destaca que alguns organismos, como o vírus do H5N1, "podem adquirir propriedades, nomeadamente perfis genéticos, que fazem com que seja possível a transmissão pessoa a pessoa".
"Esse é o verdadeiro problema que podemos ter em mãos com a questão do H5N1, se o vírus se conseguir ajustar em termos de mutações específicas para facilitar a transmissão pessoa a pessoa, coisa que aparentemente não aconteceu até agora".
Para Sónia dos Santos, o assunto do leite cru "é uma não questão". "É como as vacinas. A nutrição está muito exposta a modas, a modismo, e faz mal isto e faz mal aquilo. Há um tempo que o leite é, talvez, dos alimentos mais demonizados, porque ora faz bem, ora faz mal, ora é terrível, ora é importante", afirma.
"Compreendo que as pessoas queiram voltar um bocadinho atrás e procurar uma alimentação mais natural. Acho que as pessoas devem procurar uma alimentação mais natural possível. Mas natural nem sempre significa melhor. Não vale a pena chegarmos ao cúmulo de descartar algo que foi criado para proteger a nossa saúde e que não tem impacto significativo em termos nutricionais".