“Segurem os vossos telhados: não repitam o erro do estádio de Leiria”

6 mar, 06:49

Peritos fazem recomendações à população que está a reconstruir coberturas depois da tempestade

A tempestade que arrancou coberturas e espalhou telhas pelas ruas voltou a levantar uma questão antiga da engenharia: porque é que os telhados falham quando o vento sopra com mais força?

A resposta começa na física básica. “Um telhado aguenta com relativa facilidade uma carga de cima para baixo. Mas, se a força de baixo para cima superar o peso da telha, a telha tende a voar”, explica o engenheiro João Appleton, investigador-coordenador jubilado do LNEC. O fenómeno chama-se sucção do vento e é particularmente forte nas extremidades das coberturas.

Em regra, os danos começam nas bordas. “A pressão do vento no bordo de uma cobertura é da ordem do dobro da pressão na zona corrente”, diz. Por essa razão, as regras de engenharia determinam que os beirados e zonas periféricas tenham mais fixações à estrutura. “Se a pressão é o dobro, temos de colocar o dobro das fixações para que o elemento não voe”, acrescenta.

Por erro de projeto ou de construção, essa regra foi violada no Estádio de Leiria, o que explica que a respetiva cobertura se tenha desprendido durante a tempestade. “Isso são coisas que se calculam, calculam-se para evitar que as estruturas sejam arrancadas pelo vento”, critica João Appleton.

A importância do projeto

Os peritos recomendam à população que está a reconstruir telhados para recorrer a especialistas, a fim de evitar novas desgraças em futuras tempestades. “Projeto é uma palavra que às vezes assusta, mas significa apenas pensar antes de fazer”, adverte Raimundo Mendes da Silva, professor de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra.

Para além do projeto, a resistência dos telhados depende de outros três fatores: a seleção de materiais e acessórios; a boa execução; e a manutenção. “Este tipo de intempérie não é motivo, de imediato, para alterar profundamente as coberturas de telha cerâmica, mas vem reforçar a necessidade de uma maior atenção a todas estas quatro etapas da sua vida”, refere este perito.

O projeto deve respeitar inclinações mínimas e prever formas de fixação das telhas. A engenharia oferece várias soluções para evitar que voem numa tempestade. Tradicionalmente, a técnica era “aramar” a telha à estrutura. Por isso muitas telhas têm na parte de baixo uma pequena argola, para deixar passar o arame. “Estou farto de ver isso em edifícios com cem anos. Talvez há cem anos fossem mais prudentes do que agora”, lamenta João Appleton.

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