Especialista sugere ao Governo estratégia alternativa para evitar segunda catástrofe sobre a mesma população
As árvores secas derrubadas pela tempestade aumentaram para o dobro o combustível rasteiro que faz detonar grandes incêndios. O Governo corre contra o tempo para evitar segunda catástrofe, que atinja a mesma população. “Temos, desde 28 de janeiro, em média, 250 homens por dia do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas a fazer um trabalho brutal”, informa o ministro da Agricultura. “Em primeiro lugar, para remover o que impedia o acesso dos proprietários à floresta, mas também estão a fazer esse trabalho de retirada”, garante José Manuel Fernandes.
É uma luta contra o tempo. Em média, Portugal tem 12 dias por ano de condições meteorológicas que tornam os fogos rurais inevitáveis: temperaturas persistentes acima dos 30º, humidade abaixo dos 30% e vento acima dos 30 Km/hora. A probabilidade de isso acontecer aumenta à medida que nos aproximamos do verão.
“O que está a ser feito é uma gota no oceano. Não há capacidade técnica para retirar todo o biocombustível antes da época de incêndios”, reage o presidente da Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais (FNAPF). “A prioridade tem de ser retirar as árvores dos caminhos florestais, assim como proteger casas e indústrias”, defende Luís Damas.
O Governo promete subsidiar entre 1000 e 1500 euros por hectare os proprietários florestais afetados. “Preferimos que sejam eles a retirar essas árvores, mas aprovámos legislação num tempo recorde para o Estado o poder fazer”, expõe o ministro.
Fogos rurais são inevitáveis, mas há uma escolha
Um dos problemas graves da floresta é a rentabilidade reduzida. A tempestade agravou a situação. “As celuloses tiveram a atitude de manterem o preço do eucalipto, mas a indústria do pinho já baixou muito o preço”, lamenta o presidente da FNAPF.
No Mediterrâneo, os fogos rurais são inevitáveis, fazem parte da renovação dos sistemas ecológicos. “Não temos a opção de evitar que a floresta arda, isso não existe. O que existe é a escolha entre duas opções: ou arde como nós queremos, ou arde como nós não queremos”, explica o arquiteto paisagista Henrique Pereira dos Santos. Para ele, a ideia de retirar o biocombustível “é infantil, porque mão temos recursos humanos ou materiais nem tempo para isso”. Por isso, recomenda ao Governo uma estratégia alternativa: fogo controlado, ainda que numa escala maior, dada a urgência e a dimensão do problema. “Não podemos falar em fogo controlado no sentido técnico, porque teríamos de queimar fora daquilo em condições piores e mais adversas. Mas há uma grande diferença entre um fogo descontrolado no verão, em condições extremas, e um fogo lançado e vigiado por nós nesta altura, escolhendo o dia certo”, defende este estudioso do fenómeno.