"A infelicidade, finalmente!" Leïla Slimani fala com os seus fantasmas

7 jun 2025, 10:30
Leïla Slimani, escritora e jornalista franco-marroquina, aqui aos 18 anos, quando chegou a Paris. Foto do arquivo pessoal cedida pela editora Gallimard

ENTREVISTA || "Este livro não é só sobre viver", diz Leïla Slimani sobre "Levarei o Fogo Comigo". "Queria falar sobre o regresso. Regressar: gosto muito deste verbo português. É difícil e melancólico. É impossível regressar. Nunca se regressa, pois a pessoa que regressa não é já a mesma." Conversa com Anabela Mota Ribeiro

Leïla Slimani nasceu em Rabat em 1981. Recebeu o prestigiado prémio Goncourt aos 35 anos. Vendeu mais de um milhão de livros no mundo todo. Vive desde há quatro anos em Lisboa.

Há dois meses, convidou-me para apresentar o seu livro no Museu Nacional de Arte Antiga. Tinha escrito no jardim do museu uma parte de "Levarei o Fogo Comigo", último volume da trilogia "O País dos Outros". Hesitámos quanto à língua em que falaríamos. A questão da língua é sensível, em particular quando se é escritora. O inglês foi a opção, atendendo ao contexto e à plateia. Contudo, Leïla achou importante que o meu texto introdutório fosse lido em português. A minha língua materna deveria aparecer. Como a sua, quando, no final do lançamento, leu uma passagem do romance em francês. 

Em vésperas desta sessão, que está na origem da entrevista que a seguir pode ler, tinha integrado o júri do Festival de Cannes. Estava cansada e feliz. 

Leïla Slimani. Foto Francesca Mantovani ® Gallimard

Anabela Mota Ribeiro: Vamos à origem? No prólogo, encontramos a protagonista, Mia, desvitalizada. Um médico que estuda “o cérebro, a memória, a linguagem: matéria-prima do meu trabalho” aconselha: “Descubra a sua madalena.” Este livro é uma recherche do teu tempo perdido?
Leïla Slimani - Penso que a literatura é sempre uma busca do tempo perdido. Quem escreve está a tentar lutar contra a passagem do tempo, contra a morte de tudo: a morte da infância, a morte da adolescência. Procuramos reter alguma coisa e idealizamos conseguir, através da linguagem, reparar, ressuscitar, dar vida aos fantasmas, às pessoas que amámos e com quem não convivemos tempo suficiente.

Este livro em particular representou, sim, a busca de um tempo perdido. O prólogo aproxima-se muito de uma experiência que vivi há dois anos, quando escrevia o livro. Estava muito, muito cansada. Era o trabalho na trilogia (já tinha publicado as duas primeiras partes de "O País dos Outros"), o trabalho nos Jogos Olímpicos [co-argumentista da cerimónia de abertura, 2024], o trabalho no Booker Prize, em Londres [presidente do júri, 2023]. Estava a perder tudo aquilo de que um escritor precisa. A minha memória, a minha noção de linguagem, a minha capacidade de concentração – estava a perder-me a mim própria. Senti a necessidade de voltar atrás no tempo. Não para perceber quem sou, mas para perceber porque é que sou quem sou, neste mundo em que vivemos.

AMR - Um mundo em guerra e transformação, com margens difíceis de transpor.
LS - Eu venho do mundo muçulmano, do mundo africano e do mundo europeu. Senti tanta pressão por parte de pessoas que me diziam que eu vinha de mundos que não podiam coexistir, que as duas civilizações estavam destinadas a opor-se e que eu não poderia ter essas duas histórias dentro de mim.

AMR - “Nessa noite, Mia pensou no túnel que o seu pai quisera construir, outrora, sob o estreito de Gibraltar. E imaginou um mundo onde já não haveria muros, somente túneis.”
LS -
Hoje, quando penso no meu pai, acho que era muito ingénuo. Era um utópico. Contudo, há que ter em conta que assistimos juntos na televisão à queda do Muro de Berlim. O meu pai estava tão feliz: “Agora a democracia vai espalhar-se por todo o lado, porque os seres humanos querem democracia.” Nós vivíamos em Marrocos, à época. “Um dia Marrocos vai fazer parte da União Europeia. Vamos construir uma ponte ou um túnel entre Marrocos e Espanha”. Costumava dizer que Marrocos é como uma árvore: as raízes estão em África e, as folhas, na Europa. Todos os sonhos do meu pai estão mortos. Aquilo com que sonhava já não tem lugar.

AMR - A escrita é um modo de construir canais de ligação e de lidar com os muros?
LS -
Acredito, como dizia Kafka, que a literatura é uma luta contra a fronteira. Quando eu era criança, tinha bastante consciência das diversas fronteiras: entre homens e mulheres, entre adultos e crianças, entre ricos e pobres, entre África e Europa. As fronteiras estavam por todo o lado. E questionava: porque é que há homens nesta sala e mulheres na outra? Porque é que os adultos têm tanto poder sobre as crianças e nos tratam como se não soubéssemos nada, porque é que não nos ouvem? Porque é que eu tenho de esperar horas para obter um visto e poder entrar neste país? Não sou tão humana como aquelas outras pessoas?

Talvez a literatura seja um lugar onde se pode atacar as fronteiras. E questionar as fronteiras do tempo. Quando lemos um livro, podemos viajar na nossa própria sala de estar. Pegamos em Tolstoi e estamos na Rússia do século XIX. É uma forma de viajar sem precisar de visto. É bom estar num lugar sem vistos.

AMR - “Também quero ser escritora”, diz Mia.
LS -
Este livro - aliás, toda a trilogia - é sobre transmissão, herança. O que é que herdamos? Como é que podemos transmitir alguma coisa à geração seguinte? Enquanto escrevia este livro, senti que não herdamos apenas as coisas que as pessoas nos dão, como as lições, os valores, as virtudes. Herdamos, por vezes, as frustrações, os sonhos que não chegaram a poder existir.

Na minha família, a minha avó queria ser escritora. Era uma maravilhosa contadora de histórias. Mas tinha muito que fazer, o meu avô dependia muito dela. Ele desprezava um pouco a literatura. Quando ela dedicava uma hora ou duas à escrita, o meu avô discutia: “O que é que estás a fazer? Deixa-te disso. Preciso que vás à quinta fazer uma coisa importante”.

O meu pai também queria ser escritor. Queria, aliás, ser O escritor: “Se não sou Proust ou James Joyce, não quero escrever”. Começava a escrever um romance e, ao fim de uma ou duas semanas, pegava fogo àquilo tudo e anunciava: “Se não for o maior escritor de todos os tempos, não vou ser escritor”. Acho que herdei esses dois sonhos ou essas duas frustrações.

AMR - “Tornei-me a falsária do meu pai”, escreves.
LS-
Decidi que, enquanto mulher, tal como a minha avó, haveria de arranjar tempo para ser escritora. E encontraria a capacidade de ser egoísta para fechar a porta e ter um quarto só meu, como dizia Virginia Woolf. Decidi também não ser como o meu pai. É provável que não venha a ser Proust nem James Joyce, mas serei eu própria e tentarei expressar algo singular. Talvez não seja o melhor, mas será meu. Então, tornar-me escritora talvez tenha sido decidido pela geração anterior à minha.

AMR - No mesmo capítulo fala-se de um texto ser belo e verdadeiro. "Levarei o Fogo Comigo" é o mais verdadeiro dos teus livros?
LS - 
É muito difícil responder. Porque todos são, espero, verdadeiros, embora de formas diferentes.

AMR - E também belos.
LS - 
Tento ser sincera em todos os meus livros, talvez este seja o mais intimista. Nele está realmente o meu sangue e a minha carne. Sou mesmo eu. Há muito de mim neste livro. Tem a ver com a experiência e com o facto de – e é estranho que nunca tenha pensado nisso antes –, quanto mais envelheço, mais me sinto frágil, vulnerável. Mas não o encaro como fraqueza. O que sinto é que agora posso partilhar a minha vulnerabilidade com as outras pessoas. Quando somos jovens, não queremos ser vulneráveis. Queremos ser fortes, sair e curtir, queremos que as pessoas nos amem e admirem. Agora quero olhar para as pessoas e dizer: também tens medo?

Talvez seja por isso que o livro tem esta atmosfera tão particular. Eu sentia-me tão perdida e tão só que achei que, como escritora, talvez me pudesse relacionar com os meus leitores, que me acompanham há muitos anos. E sinto-me segura com os meus leitores, a ponto de lhes dizer que sou vulnerável.

AMR - No meio do livro, a personagem volta a casa e sente-se estrangeira. Podes falar de ser estrangeira, de pertença, identidade, língua? Onde é casa?
LS - 
Este livro não é só sobre viver. Viver o nosso país, viver a nossa cultura para chegar a um novo mundo. Queria falar sobre o regresso. Regressar: gosto muito deste verbo português. É difícil e melancólico. É impossível regressar. Nunca se regressa, pois a pessoa que regressa não é já a mesma. O país para onde se regressa mudou enquanto estivemos fora.

Quando Ulisses chega a Ítaca, no final da sua odisseia, depois de inúmeras aventuras, de tantos sofrimentos, ninguém o reconhece. Só a ama, já muito velha, e o cão dão sinal de que é ele. Eu passei pelo mesmo. À chegada, deparamo-nos com uma emoção muito forte. É o nosso país, é a cor do céu, a luz, o cheiro das coisas, a língua. Ao mesmo tempo, as pessoas olham para nós e pensam que somos turistas, perguntam se queremos uma visita guiada. Sentimos que há ali qualquer coisa que se desfez para sempre. Queria falar sobre esta mágoa de não ser possível voltar. Sempre me senti uma estranha.

AMR - Podes detalhar essa impressão de estranheza?
LS -
Achava que não pertencia totalmente ao meu país, Marrocos, onde nasci e cresci. Provinha de uma família muito diversa, original e marginal na maneira de viver. A minha avó era da Alsácia, adorava beber vinho branco e comer salsichas durante o Ramadão. O meu pai, embora sendo muçulmano, nunca praticou o Islão. E eu não sabia nada sobre o passado do meu pai. Nunca tinha visto uma fotografia do meu pai em criança. Ele vinha de uma família pobre e frequentou escolas colonizadas. Foi muito influenciado pela cultura ocidental. Era uma espécie de Grande Gatsby, reinventou-se. A minha mãe foi criada em Meknès por uma mãe cristã e um pai muçulmano. As pessoas olhavam para nós com a sensação de que não pertencíamos ali. Éramos demasiado franceses, demasiado ocidentais, demasiado livres. Dávamos imensas festas onde havia álcool e os meus pais eram feministas. Não espanta que sempre me tenha sentido uma forasteira.

AMR - Quando foste estudar para França, sentiste-te em casa?
LS - 
Tinha uma ideia muito esquisita de França. Eu era francesa, a minha avó contava-nos histórias sobre a Alsácia, mas eu nunca tinha lá estado. Imaginava a Alsácia como um lugar digno de um conto de fadas, com mulheres a comerem pastéis em casas pequeninas, tipo chalés. Eu conhecia Paris porque lia Zola, Balzac, Victor Hugo, André Gide, Proust. Conhecia a França através da ficção.

E estava um pouco apreensiva: achava estranho o facto de, depois de ter lido tantos romances franceses, nunca ter encontrado uma pessoa como eu nesses livros. Supus que talvez houvesse ali um problema. E assim foi. Quando lá cheguei, eu era uma árabe. Descobri, pela primeira vez na minha vida, o que era ser árabe.

AMR - Como assim?
LS -
Chegamos a um país e tudo é diferente, fisicamente diferente. A imigração não é algo abstracto. Tem directamente a ver com o corpo. E é por isso que escrevo sempre sobre o corpo. O clima não é o mesmo, a comida não é a mesma, a forma como as pessoas se vestem não é a mesma. Foi muito violento chegar a França nos anos 90 do século passado. As pessoas eram bastante racistas e diziam coisas sobre os árabes sem sequer pensarem que podiam fazer-nos sentir vergonha ou tristeza.

AMR - Retomo a questão: onde é casa?
LS -
Sou uma nómada. Não sei onde é o meu lugar. A minha casa é o corpo das pessoas que amo. Os meus filhos são a minha casa, o meu marido, os meus amigos, a minha família. Não é bem um sítio. A literatura também é a minha casa. Eu habito os livros, habito a ficção.

Por outro lado, não me identifico minimamente com a forma como as pessoas e a política que nos rodeiam falam de raízes, de identidade. Tentam definir uma identidade, dizem-nos que temos de ser assim ou assado. Não é sobre quem somos: o que importa é o que fazemos, o modo como agimos. Acho ridículo dizer: “tenho orgulho em ser desta nacionalidade ou daquela”. Orgulhem-se de serem boas pessoas. Não se orgulhem de ser ganeses, portugueses, franceses ou ingleses, se forem más pessoas. Isso é uma estupidez.

AMR - Mia tem lições de árabe, a língua rejeita-a. Porque é que o árabe nunca foi uma língua materna como o francês?
LS - 
Todos os romances começam com uma pergunta. No final da trilogia, percebi que a pergunta que se colocava no início era: porque é que eu não falo a minha língua? Porque é que não falo árabe? É difícil explicar, mas vou tentar. Com a minha ama falava árabe, com os meus pais falava francês e com a minha avó falava berbere. A minha avó falava também alemão e o seu dialecto da Alsácia. Quando íamos para o norte de Marrocos, para Tânger ou outras cidades, falávamos espanhol. Aos meus olhos, vivia num paraíso multilingue. Era o oposto do mito da Torre de Babel, porque, nele, de início, há apenas uma língua e, mais tarde, passa a haver várias. No meu caso, foi ao contrário. A princípio havia várias línguas, e passou a haver apenas uma.

Quando fui para a escola, comecei a aprender a língua árabe clássica. Os professores ensinavam que o árabe era uma língua sagrada, a língua de Deus. Eu odiava o facto de ter de venerar uma língua. Para mim, a língua permite-nos fazer o que quisermos com ela. Eram tão autoritários que acabei por perder a língua. E eu era uma óptima aluna. Não consigo explicar porquê. É psicológico, não sei. Com os anos em França, acabei por perder vocabulário. Sempre que volto a Marrocos, ando à procura das palavras da minha própria língua e sinto-me constrangida, envergonhada e triste.

AMR - A escrita da trilogia é uma imersão também nesta raiz, a linguística.
LS -
Muitas pessoas em Marrocos gozavam comigo porque eu não era capaz de responder a entrevistas na minha própria língua. Compreendi que precisava de conhecer a minha história. E agora sei como foi a vida dos meus pais. O meu pai perdeu o árabe por causa da colonização, os meus avós também. É apenas a minha história e não quero passar a minha vida inteira a pedir desculpa por ela.

AMR - A dupla pertença declina-se de muitas maneiras. Inevitavelmente perguntaram-te por quem torceste no último Campeonato do Mundo.
LS - 
Gosto muito de futebol. Na equipa nacional de Marrocos 60% dos jogadores têm dupla nacionalidade. E a maioria deles não fala árabe. O que é muito interessante é que, a partir do momento em que começaram a ganhar, a população marroquina reagiu: “Não interessa. Podem falar a língua que quiserem, desde que marquem golos!”. Talvez agora possa haver outra perspectiva de identidade, e pessoas como eu e os jogadores possam ter o seu próprio lugar num Marrocos diverso.

AMR - Falar inglês é falar uma língua neutra? O que representa falar português, para ti, depois de quatro anos a viver em Portugal?
LS -
Falo inglês, percebo bastante bem português. O meu amigo Gonçalo M. Tavares fala comigo em português e eu respondo em francês. É uma mistura muito estranha. Têm de me pressionar um pouco, para que eu pratique o meu português!

AMR - Os temas da mulher são um dos focos do teu trabalho. A protagonista tem horror ao feminino, a mãe faz partos, Mia quer desvincular-se de tudo o que é tipicamente feminino, é homossexual. “Ela veste-se de rapaz, julga que assim escapa à maldição das filhas e das mães.” Porquê esta escolha?
LS - 
Sempre detestei a ideia de traçar uma linha e dividir o mundo a preto e branco, de um lado as mulheres e do outro os homens. Ou dizer que o patriarcado é os homens no topo e as mulheres na base. A vida é muito mais complexa. Conheço mulheres que são muito patriarcais e conheço homens que foram destruídos pelo patriarcado. Tentei neste livro ser mais subtil e mostrar, através da personagem de Mia, uma mulher que, quando é jovem, despreza as mulheres e a feminilidade.

AMR - Como foi contigo?
LS - 
Quando era criança, não queria ser mulher. Odiava as mulheres. Agora que me conhecem tão feminista, talvez seja estranho. Mas a vida das mulheres era muito trivial e pouco interessante: “Elas passam o dia a falar sobre o preço das cenouras e das batatas, só querem ir ao mercado e tratar do jantar e estão sempre a perguntar-me pelos trabalhos de casa”. Eu olhava para o meu pai e pensava: “O meu pai nem sequer entra na cozinha. É tão livre e tão egoísta. Quero ser egoísta e livre como o meu pai”. A Mia pensa que, para ser livre, tem de ser um homem. Ao mesmo tempo, poderia dizer que Mia encarna um pouco a masculinidade tóxica, porque é bastante violenta com as mulheres e aceita coisas horríveis da parte dos seus amigos homens, que fazem muitas piadas e vêem filmes pornográficos. Sim, as mulheres preocupam-se com o preço das cenouras e das batatas, mas estão tão vivas, profundamente enraizadas. Estão cá e, aconteça o que acontecer, adaptam-se. Não se preocupam com o progresso porque elas são o progresso. Estão no presente e estão no futuro. Os homens, especialmente na minha família, falam e falam e falam. O meu pai tinha muitas teorias sobre tudo. A minha mãe ou a minha avó não falavam assim tanto. Elas agiam.

AMR - “A infelicidade, finalmente!”: é uma das frases mais espantosas e comoventes do livro. Foi especialmente doloroso escrever este volume, que é o da tua geração, porque implicaria falar da desgraça, da queda do teu pai?
LS - Essa frase é muito importante. O meu pai perdeu o emprego quando eu tinha 13 anos e, durante dez anos, não conseguiu trabalho. Ficava em casa, sentado no mesmo sítio, sem fazer nada, à espera, rodeado de livros. “O que achas deste livro? Dás-mo?” E ele dava-me o livro, eu lia-o. Era a única forma de conversa. Continuava à espera de um telefonema, à espera que alguém lhe dissesse que aquela fase tinha acabado: “Estás perdoado. Podes voltar a ter outro emprego, a tua vida não está acabada”.

Um dia, a minha mãe telefonou-me e disse: “O teu pai foi preso, está na prisão”. Pode parecer um paradoxo, mas senti-me aliviada. “Le malheur, enfin.” Éramos infelizes, mas era um tipo de infelicidade em que não acontecia nada. É difícil, é trágico. É todos os dias o mesmo dia. Quando se deu a prisão, pensei: “A tragédia tem uma forma. É possível enquadrá-la, descrevê-la”. Claro que foi horrível.

Leïla Slimani, escritora e jornalista franco-marroquina. Foto Francesca Mantovani ® Gallimard

AMR - Foi o fim da inocência.
LS -
Foi muito difícil falar sobre esse momento, a minha mãe ainda está viva, e foi ela quem mais sofreu. Também porque durante muitos, muitos anos, fiquei muito zangada com o meu país. Nutria um sentimento de vingança, odiava-os. Sentia que nunca lhes perdoaria pelo que nos tinham feito. Quando estava a escrever este livro, senti que precisava de continuar esta conversa com o meu pai e tentar pôr-me na pele da minha mãe e do meu pai – não só na pele, mas na cabeça deles. Tentei compreender a solidão que sentiram.

Quando somos adolescentes, é absolutamente normal sermos egoístas: só nos preocupamos connosco e com a próxima festa a que vamos. Os meus pais protegiam-nos muito. Neste momento tenho a mesma idade que eles tinham na altura. Sou capaz de entender como foi perder tudo. Passar a ser alguém que ninguém quer encontrar na rua – as pessoas atravessavam a estrada só para não para nos cumprimentarem. O mesmo acontecia no supermercado. E a minha mãe todos os dias se deslocava até à prisão para levar comida ao meu pai.

AMR - A tua mãe é médica e continuou a exercer, inclusive para sustentar a família.
LS - 
Sofri muito enquanto escrevia este livro. Não gosto de o dizer, é ridículo afirmar que se sofre enquanto se escreve. Se não queremos sofrer, basta não escrever. Mas eu sofri porque estava exausta, como já expliquei. Depois porque esse mundo que eu estava a descrever, dos anos 80 e 90, está morto. Uma parte de mim estava morta. Era muito diferente do mundo que descrevi no primeiro volume da trilogia, nos anos 50, e no segundo, nos anos 70. Tudo o que aprendi nos anos 80 e 90 já não existe.

AMR - “Oito anos depois da sua morte, o meu pai foi ilibado de todas as acusações. Apresentaram-nos um pedido de desculpas.” Escrever foi uma forma de mudar o destino, resgatar e honrar a memória do teu pai?
LS -
Durante muito tempo, escrevia com a ideia de vingar o meu pai. Queria ver o meu nome na capa de um livro porque queria que se orgulhassem deste nome que foi tão desprezado. Para ser sincera, não tenho muitas recordações do meu pai. Não me lembro da sua voz. Enquanto estava a escrever, em Cascais e, depois, em São Miguel, nos Açores, senti-me tão sozinha que quase enlouqueci. E o meu pai estava lá. Ao meu lado. Conversei a sério com ele, vi o seu sorriso que já não via há 25 anos, ele falou-me da sua solidão.

Acredito que tentei não escrever um livro sobre quem era o meu pai. Tentei escrever um livro sobre quem o meu pai queria ser. Tentei dar-lhe a vida que ele não teve. Tentei oferecer-lhe uma vida maior do que a que lhe foi dada pelo destino.

AMR - Que aconteceu à raiva e ao desejo de vingança?
LS -
No final, a vingança tinha desaparecido completamente. O meu pai sofreu muito. Ao mesmo tempo, foi muito amado. Por nós, as três filhas, e pela minha mãe. O que ficou foi este amor, este amor imenso, este amor tão profundo que, perante a sua morte, precisei de o esquecer. Acho que não teria sido capaz de retomar a minha vida se assim não fosse. O meu filho tem a idade exacta que eu tinha quando o meu pai perdeu o emprego. É por isso que sinto que sou capaz de, agora, encontrar uma empatia fortíssima por ele. Quis homenageá-lo e dizer-lhe que era um homem muito triste, muito melancólico, muito misterioso e muito peculiar. Mas que me deu tanto.

AMR - Como era, na prática, o vosso diálogo através dos livros?
LS -
Quando eu lhe fazia uma pergunta, ele nunca sabia o que dizer. Pegava num livro, dava-mo para a mão: “Encontrarás aí a resposta”. Foram muitas as vezes em que descobri a resposta nos livros. Lembro-me de uma altura em particular em que, com 16 ou 17 anos, andava triste por causa de um rapaz. O meu pai viu-me a chorar e pôs-me um livro de mil páginas nas mãos: era "Vida e Destino", de Vasily Grossman. “Quando chegares ao fim do livro, já não te vais lembrar da razão que te entristece.” Tinha razão. Esqueci-me completamente do rapaz, mas jamais me esqueci do livro. É algo importante de aprender: esquecemos os rapazes, mas nunca esquecemos os livros.

AMR - Selma, a tia, sente “um medo primevo”. Perguntei-me se seria esse tipo de medo que Mia sente quando, no prólogo, está apagada, sem fogo. 
LS - 
Tenho todo um mundo dentro de mim, toda uma vida dentro de mim. O que adoro na escrita é que quando escrevemos e estamos imensamente concentradas, descobrimos que não nos temos apenas a nós próprias dentro de nós – temos os outros, também. E podemos falar com eles. Seja o teu fantasma, o meu pai, a minha avó, as pessoas que encontramos na rua.

Sou uma pessoa muito ansiosa, nervosa, tenho medo de tudo. Creio, contudo, que esse “medo primevo” é o medo de perder não a minha alma, mas aquilo que faz de nós escritoras. Tenho medo de perder o fogo, de perder este fulgor que me fará escrever mais um livro, e depois mais outro. Tenho medo de perder esta pulsão, esta voz que tenho na cabeça desde pequena. Às vezes, ela desaparece, mas acaba sempre por regressar.

Anabela Mota Ribeiro e Leïla Slimani na apresentação do livro "Levarei o Fogo Comigo", no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, a 27 de maio de 2025

Texto de apresentação de "Levarei o Fogo Comigo"

Este livro é escrito não com sangue, mas com lava em ebulição. O que é que nos acontece quando já não temos sangue nas veias, mas apenas uma erupção imparável e incandescente? Leïla Slimani escreve com a fúria de alguém que escava um buraco com as mãos no jardim e que, muitos anos depois, sucumbe ao medo, ao medo paralisante que apaga a memória. Esta fúria e esta lava estão latentes. São sedimentos que resultam da sensação de se ser estrangeiro no seu país, de ser desconforme aos comportamentos de género socialmente aceites, a uma sensação de estranheza e despertença.

"Levarei o Fogo Comigo" é um livro de mulheres que são Ulisses, que inventam o seu próprio destino e que recusam ser a mítica Xerazade, que encantava tiranos e assim salvava a pele. Nesta "Odisseia" chamada "O País dos Outros", trilogia que se encerra com este volume, procura-se menos o regresso a casa, questiona-se: onde é casa? E entende-se casa, se não como sinónimo, como palavra-irmã de identidade, memória, integração.

É nessa procura, a partir da genealogia pessoal da escritora franco-marroquina, que nos debatemos com alguns dos problemas políticos e culturais mais prementes do mundo contemporâneo. Um mundo de migrantes. Um mundo de desenraizados. Numa das epígrafes lê-se, de uma forma contundente: “O verbo regressar deixou de ser possível. Quem abandona o sul torna-se desertor. Não há a nostalgia das raízes.”

Outras maneiras de o formular, entrando no texto:

- “Quando morreres, vais ser enterrada na Alsácia? [...] Em que momento o nosso país deixa de ser nosso?”

- “Podemos amar um país que não nos ama? Podemos ser, ao mesmo tempo, daqui e de lá?”

- “Era possível uma pessoa perder a sua língua? A língua com que fora criado, a dos pais, a das primeiras palavras de ternura?”

Outra pergunta, que surge na epígrafe, e que serve de motor ao romance:

- “Se a sua casa ardesse, o que levaria consigo? — Levaria o fogo”. Jean Cocteau.

Nas epígrafes, somos introduzidos a noções fundamentais: casa, raízes, incêndio. É um prenúncio de desgraça, que tem, como aqui se escreve, um cheiro particular. Consequentemente, coloca-nos uma pergunta: como fazer o caminho para a frente, como prosseguir depois da hecatombe?

Antes disso, impõem-se os temas fundamentais da escrita de Leïla Slimani: o corpo da mulher, o ambiente doméstico, a sexualidade de pessoas que, por serem como são, nunca serão felizes, a dissecação da vida burguesa e da luta de classes, a escrita como mecanismo que permite criar um enredo para a própria vida. Que permite levar o fogo.

O fogo, central desde o título, sugere vida, ânimo. E também sugere transmissão, um movimento de maratona.

A primeira vez que a ideia aparece é num momento de autonomia, quando Mia, a protagonista e projecção ficcionada da autora, vai para França estudar. É uma das páginas mais belas do livro: o pai incentiva-a a levar o fogo consigo (pág. 217 na edição portuguesa da Alfaguara, com tradução de Tânia Ganho).

Um fogo que vem grandemente dele, que quis escrever, que lhe deu livros para ler, que conhece a tragédia. Curiosamente, um pai que parece ter nascido de si mesmo, sem relação profunda com a família de origem. A questão é então: como manter a chama acesa? O que é que recebemos e deixamos em herança? Como nos incendiamos depois das cinzas?

 

Foto no topo: Leïla Slimani em Paris, aos 18 anos. Foto do arquivo pessoal cedida pela editora Gallimard

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