Roy Amara, investigador e futurologista, é lembrado pela lei que cunhou, a Lei de Amara, que diz: “Temos tendência para sobrestimar o efeito de uma tecnologia a curto prazo e subestimar o seu efeito a longo prazo”. A internet é o melhor exemplo da lei. A internet era suposta revolucionar a sociedade de um dia para o outro. Muitas empresas conseguiram financiamentos avultados, mas a larga maioria foi incapaz de realizar qualquer tipo de produto viável. O resultado foi o conhecido crash bolsista da bolha das dot-com. No curto prazo, muitos sobrestimaram as capacidade da internet. O “hype” morreu. Mas no longo prazo, a internet (e a World Wide Web, convém não confundir conceitos) está presente em quase todos os aspectos da nossa vida. Outros exemplos da lei de Amara são o forno microondas (inicialmente vistos como curiosidades), os telemóveis (inicialmente grandes e pouco práticos), e, talvez agora, a própria inteligência artificial (IA).
O sector de IA encontra-se numa encruzilhada. Sam Altman, da OpenAI, uma das figuras de proa do sector, alertou que podemos estar perante uma bolha semelhante à da era dot-com. Milhares de milhões foram investidos em IA generativa, mas um novo estudo do MIT concluiu que 95% dos projetos-piloto de IA feitos em empresas não geram retorno comercial mensurável, provocando fortes quedas no mercado de ações — a Nvidia caiu 3,5% e a Palantir caiu 9,4% da noite para o dia. Mas como já visto aquando a saída do DeepSeek-R1, esta pode ser apenas uma “reação a quente” dos mercados bolsistas.
O entusiasmo inicial originou gastos impressionantes em infraestrutura por parte de algumas empresas. Mas entre projetos-piloto demasiado ambiciosos e monetização real, o caminho a percorrer parece incerto. A maioria das empresas enfrenta dificuldades com integrações empresariais falhadas e ainda carece da infraestrutura tecnológica básica para que os seus projetos de IA tenham sucesso. São poucos os casos de ganhos reais de produtividade ou novas fontes de receita — as demais enfrentam a pressão das direções para “provar ou pausar”. Há de facto casos onde existem ganhos reais de produtividade com IA, da mesma maneira que no passado a calculadora, o computador, e a folha de cálculo ofereceram esses ganhos.
A guerra por talentos ilustra ainda mais os extremos do mercado: a Meta e a xAI competem por investigadores de nível mundial com bónus de contratação de até 100 milhões de dólares, para depois congelar abruptamente as contratações, mostrando os ciclos de negócio (boom-bust) típicos das manias especulativas. Entretanto, as respostas regulatórias estão a aumentar globalmente, com a UE a preparar novas regras rígidas para a IA e com as empresas a apressarem-se para implementar estruturas éticas capazes de lidar com o desafio, à semelhança do que aconteceu com o RGPD.
Ainda assim, os especialistas alertam para não confundir correção com colapso. Os benefícios de produtividade da tecnologia são reais em certos casos. Esta é a altura em que olhamos para o que aprendemos e cristalizamos as ferramentas que provaram ser úteis. E adicionamos mais um exemplo à lista de exemplos da Lei de Amara.