Bloco de Esquerda: a maior queda das eleições explica-se nestes números

31 jan, 07:40

De 2019 para este domingo, os bloquistas perderam mais de 250 mil votos e 14 deputados. Catarina Martins culpa a "estratégia" do PS e as sondagens, por levarem os eleitores ao voto útil

Do maior grupo parlamentar de sempre, ao mais pequeno dos últimos 16 anos. Da terceira para a sexta força política. Quando faltam apenas apurar os votos do estrangeiro, o Bloco de Esquerda conquistou 4,46% dos votos nas eleições deste domingo e elegeu apenas cinco deputados. Nas palavras de Catarina Martins, foi "uma derrota" e "um mau resultado".

A bancada parlamentar bloquista - que, depois de quatro anos de geringonça, chumbou os dois últimos Orçamentos do Estado do Governo PS - será agora composta apenas por Catarina Martins e José Soeiro - eleitos pelo círculo do Porto -, Mariana Mortágua e Pedro Filipe Soares - eleitos em Lisboa - e Joana Mortágua, eleita em Setúbal.

Entre as duas legislativas em três anos, o BE perdeu mais de 250 mil votos: tinham sido 500 mil em 2019 e este domingo foram pouco mais de 240 mil. Em número de votos foi a quinta força política, à frente da CDU, mas os comunistas elegeram mais um deputado.

Os distritos de Braga e Aveiro foram bastante significativos nesta derrota bloquista: de dois deputados em cada um destes círculos em 2019, o partido elegeu agora zero. 

Em Braga, a queda foi de 8,88% dos votos para 3,75%. No total, foram menos quase 23 mil votos neste distrito, tendo o Bloco sido ultrapassado pelo Chega e pela Iniciativa Liberal.

Em Aveiro, é menos claro para onde foram os dois deputados bloquistas: se para o Chega, para o PS, ou para o PSD. Certo é que o BE passou de 9,96% neste distrito, para 4,58%. Em números absolutos, foram menos de metade dos votos (35.068 em 2019 e 16.700 este domingo).

Em Coimbra, o bloquista José Manuel Pureza – um dos atuais vice-presidentes da Assembleia da República até agora - falhou a eleição, tendo o seu mandato sido conquistado pelo PS, com Marta Temido como cabeça de lista neste distrito.

Leiria foi mais um distrito onde o BE perdeu o deputado que tinha, tendo esse mandato ido parar ao Chega. O mesmo aconteceu no círculo eleitoral de Faro, onde José Gusmão tinha entrado para cabeça de lista mas falhou a eleição, e pode ter acontecido também em Santarém (o mandato do Bloco foi conquistado ou pelo Chega, ou pelo PS).

Nos distritos mais populosos, "salvou-se" para o Bloco o Porto, onde caiu "apenas" de terceira para quarta força política. Foi ultrapassado pela Iniciativa Liberal, mas não pelo Chega, como aconteceu em vários círculos. Ainda assim, a queda foi impressionante: de 10,12% e 94.553 votos em 2019, para 4,78% e 47.118 votos este domingo.

Em Lisboa, o Bloco foi o sexto partido mais votado, com 4,72% dos votos (eram 9,71% em 2019), e isso traduziu-se em mandatos: de cinco deputados eleitos, os bloquistas passaram para apenas dois.

Em Setúbal, o BE perdeu quase metade dos votos: de 47.863 há três anos passaram agora a ser 24.931 e falhou uma eleição, mantendo apenas Joana Mortágua no Parlamento.

Desde as eleições legislativas de 2002 que o resultado bloquista não era tão mau em termos de mandatos, quando elegeu apenas três. 

Ano Percentagem Número de votos Deputados Eleitos Força Política
2022 4,46% 240.257* 5
2019 9,52% 500.017 19
2015 10,19% 550.892 19
2011 5,17% 288.973 8
2009 9,82% 558.062 16
2005 6,38% 364.430 8
2002 2,75% 149.543 3
1999 2,46% 131.840 2

*faltam os votos registados no estrangeiro 

Quando ainda decorria a noite eleitoral, foi Catarina Martins a primeira a admitir a maioria absoluta do PS. A coordenadora nacional do Bloco de Esquerda atribuiu a derrota à "estratégia" do PS de criar uma "crise artificial para ter maioria absoluta" que, "ao que tudo indica, foi bem sucedida".

"Foi uma campanha muito difícil, com uma bipolarização falsa e uma enorme pressão de voto útil que penalizou os partidos à esquerda", afirmou, referindo-se às sondagens que davam a luta renhida entre PS e PSD.

Catarina Martins, que durante a campanha tinha convidado António Costa para uma reunião logo esta segunda-feira, dia a seguir às eleições, para negociar um acordo de quatro anos, acabou a ver o PS sem necessidade de diálogo e o Bloco com muita conversa interna por fazer.

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