Álvaro saiu de casa para ir ao jardim, mas acabou no comício da CDU

22 jan, 21:11
Álvaro Freitas, 88 anos

No jardim da Cova da Piedade, em Almada, um pequeno palco com as letras da CDU, instalado à frente do coreto, aguardava a chegada dos membros do partido. No mesmo local, houve quem não quisesse arredar pé de uma tarde de sábado ao sol, e por lá ficou a assistir. Foi então que surgiu Álvaro Freitas

No território que vestiu o vermelho durante 41 anos, alguns apoiantes vão marcando lugar antes do comício. É enquanto esperam, que João Oliveira lidera pela primeira vez a arruada da CDU como substituto de João Ferreira, que por sua vez representaria Jerónimo de Sousa na campanha. Segue as pisadas do secretário-geral do PCP, a caminho do jardim da Cova da Piedade, na cidade de Almada. Esta que, desde 2017, está sob o domínio do Partido Socialista. 

Sentado num banco do jardim está Álvaro Freitas, de 88 anos, a observar o que aí vem. Como é habitual desde que ficou viúvo, almoçou ali perto e decidiu aproveitar uma tarde pacata ao sol. Não estava nos seus planos assistir a um comício da CDU mas, já que ali está, não quer perder a oportunidade. "Vejo e tenho muito gosto em ver", assume. Pode ser que lhe sirva de inspiração para dia 30. 

Álvaro vive em Almada há cerca de 60 anos e gosta de fazer a sua vida sozinho. No dia anterior, por exemplo, terminou mais uma refeição nas redondezas e apanhou um transporte até Setúbal. "Porque não?", questiona-se. Tem uma filha, que "anda lá na casa dela", já ele tem muito tempo, não ganha muito mas garante que é o suficiente para comer. "Trabalhei dos 11 aos 70 anos, cumpri o meu dever". 

Dirige o olhar às bandeiras azuis da CDU. Embora os óculos escuros e a máscara cirúrgica não denunciem qualquer tipo de expressão, estava certamente a recordar o passado. Vivi num regime salazarista antes das primeiras eleições livres, "mas era o que tinha", até surgir a União Democrática Popular, em 1974. Desde então, só votou nesse partido. 

"Eu já sou velhote, imagine há quanto tempo acabou a UDP". Atualmente dirige-se todos os anos à mesa de voto e faz um risco, de alto a baixo, no boletim. Está indeciso, vê todos os partidos da mesma forma. Todos, menos um: o Chega. "O meu voto não leva de certezinha", garante. "É triste ficar em terceiro lugar nas sondagens, mas essas às vezes também não dizem nada". Já a Jerónimo de Sousa deseja-lha rápidas melhoras. "Já está como eu, a ficar velho", ri-se. 

"Nas modernices está mais complicado"

Questionado sobre as alterações que o país sofreu ao longo dos anos, retira um telemóvel do bolso interior do casaco e mostra-o. "Tenho dois assim como deve ser, mas não sei trabalhar com isto", reclama. "Nas modernices está mais complicado", mas não são apenas as "modernices" tecnológicas que o inquietam, é também a dificuldade de comunicar com a Junta de Freguesia. Algo que, a seu ver, pouco depois do 25 de abril não acontecia. "Uma vez fui lá porque a rua estava suja", lembra. "Deram-me um número e acabaram por não resolver nada". O mesmo aconteceu quando mostrou interesse em participar numa assembleia. "Agora sacodem-nos, isso está bom para os jovens, já eu estou velho para isso". 

Apesar das adversidades, Álvaro conclui que, de facto as "coisas estão melhores" e que as pessoas devem efetivamente votar, recordando: "Antes do 25 de abril ninguém o podia fazer".

De repente, "a CDU avança com toda a confiança" faz-se ouvir ao longe, em uníssono. O local que outrora estava consideravelmente vazio, rapidamente se encheu de militantes e bandeiras ao som de tambores e gaita-de-foles. "Façam agora as sondagens!", grita um dos presentes à comunicação social. Álvaro permanece imóvel, ficará ali para ouvir as declarações dos dirigentes.

 

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