Pivot deixa principal jornal da televisão pública francesa após candidatura do companheiro ao Eliseu

24 ago, 15:10
Léa Salamé. Ludovic Marin, pool via AP)
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Companheira do eurodeputado social-democrata Raphaël Glucksmann deixa telejornal da televisão pública e reacende debate sobre independência jornalística

A jornalista francesa Léa Salamé anunciou esta segunda-feira que vai deixar a apresentação do principal telejornal da televisão pública France 2 durante a campanha presidencial do companheiro, o eurodeputado social-democrata Raphaël Glucksmann. O líder do movimento Place Publique anunciou no domingo a candidatura às eleições de 2027.

A decisão enquadra-se numa prática que se consolidou no audiovisual público francês a partir da chamada “jurisprudência Anne Sinclair”, uma regra não escrita da deontologia jornalística francesa segundo a qual um apresentador deve afastar-se de um programa de atualidade para evitar eventuais conflitos de interesses e proteger tanto a credibilidade do meio de comunicação como a sua própria.

Em 1997, Sinclair deixou o programa político 7 sur 7, da TF1, quando o então marido, Dominique Strauss-Kahn, foi nomeado ministro da Economia.

Quase 30 anos depois, no caso de Salamé, a jornalista deixa a segunda edição do telejornal depois de Glucksmann entrar na corrida ao Eliseu.

“Em tudo o que estiver relacionado com a campanha, afasto-me. Em qualquer outro âmbito, sou e continuarei sempre a ser jornalista: uma jornalista que, antes de ser companheira de alguém, é uma mulher livre e íntegra”, escreveu esta segunda-feira no Instagram.

Segundo o Le Figaro, continuará à frente do programa semanal Quelle époque!, que apresenta desde 2022 e que combina atualidade, sociedade, cultura e entretenimento.

Outros casos reacenderam o debate

Dez anos depois do caso de Sinclair, em 2007, verificaram-se três afastamentos de outras tantas jornalistas que mantinham relações com políticos.

A primeira foi Béatrice Schönberg, então mulher do político Jean-Louis Borloo, que deixou de apresentar os telejornais de fim de semana da France 2 em fevereiro de 2007, durante a campanha presidencial em que o marido apoiou ativamente Nicolas Sarkozy.

Embora inicialmente estivesse previsto que regressasse depois das eleições, a France 2 anunciou, em maio, que não retomaria o cargo, depois de Borloo ter sido nomeado ministro da Economia, das Finanças e do Emprego por Sarkozy.

Houve também pressão interna na estação, uma vez que os sindicatos e parte da redação questionaram a continuidade da jornalista devido a um possível conflito de interesses.

Também Marie Drucker, então companheira do ministro dos Territórios Ultramarinos, François Baroin, afastou-se temporariamente do Soir 3 durante a mesma campanha eleitoral de 2007, entre fevereiro e maio.

No final desse mesmo ano, Christine Ockrent também deixou de apresentar o programa France Europe Express quando Bernard Kouchner foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro governo de François Fillon, após a chegada de Sarkozy ao Eliseu.

Estes casos deram origem a um debate nos meios de comunicação social, iniciado pelo Le Monde, sobre se uma relação sentimental com um ministro comprometia a independência de uma jornalista.

Basta afastar-se dos temas relacionados com o companheiro?

A questão voltou a colocar-se em 2011 e 2012, com Audrey Pulvar, então companheira do ministro Arnaud Montebourg, e Valérie Trierweiler, companheira do antigo presidente François Hollande.

Pulvar defendeu que podia manter a independência profissional e chegou a pedir ao então Conselho Superior do Audiovisual que estabelecesse regras claras para os jornalistas que mantêm uma relação com políticos.

O debate deontológico centrou-se na questão de saber se bastaria afastar-se dos assuntos diretamente relacionados com o companheiro ou se a própria relação pessoal gera, por si só, um conflito de interesses ou, pelo menos, uma suspeita capaz de fragilizar a confiança do público.

Mas a chamada “jurisprudência Anne Sinclair” não afeta apenas mulheres.

Em 2018, Franck Ballanger, jornalista desportivo da Radio France, afastou-se das suas funções quando a mulher, Roxana Maracineanu, foi nomeada ministra do Desporto.

Em 2021, Thomas Sotto renunciou à apresentação do programa político Élysée 2022, depois de se ter tornado pública a relação com Mayada Boulos, responsável pela comunicação do primeiro-ministro Jean Castex, embora tenha mantido outras funções no grupo France Télévisions.

Sotto definiu-se então como “o primeiro homem a afastar-se [da carreira] por causa de uma mulher”.

O tema continua a gerar debate em França e chegou mesmo a ser discutido numa comissão parlamentar sobre a neutralidade do serviço público audiovisual.

Nessa comissão, antigos responsáveis do grupo público France Télévisions defenderam a necessidade de preservar a credibilidade dos programas informativos, enquanto outros jornalistas alertaram para o risco de transformar a vida privada num fator que limite as suas carreiras.

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