A viagem de Laura Loomer a Kiev tem sido aproveitada pela presidência ucraniana, que tenta sensibilizar a base MAGA para apoiar a sua causa
“O facto de Zelensky ter apertado a mão a um terrorista islâmico que assassinou soldados norte-americanos é mais um motivo para o desprezar. (…) A Ucrânia é um país cheio de defensores do nazismo e, agora, é claramente um país liderado por um defensor do jihadismo”.
Poderiam ter sido ditas por um propagandista do Kremlin, mas estas palavras foram escritas na rede social X no dia 26 de setembro do ano passado por Laura Loomer, conhecida influencer americana de extrema-direita, com cerca de dois milhões de seguidores e bastante poder sobre o movimento MAGA, que apoia Donald Trump.
Ao avançarmos quase um ano, vemos agora que Loomer, outrora amplificadora de posições e narrativas pró-russas, esteve sentada cara-a-cara com Volodymyr Zelensky nos jardins do palácio presidencial ucraniano para uma entrevista amigável.
A mudança brusca de posição, afirma o The Guardian, ocorre num momento em que “a hostilidade tradicional em relação à Ucrânia” por parte dos MAGA “está a começar a desmoronar-se”.
Loomer fez mea culpa pelas posições tomadas ao longo dos últimos anos. “Acabei de passar pelo meu primeiro ataque aéreo na Ucrânia. As sirenes a tocar a todo o volume. Isto é o dia-a-dia de todos os ucranianos. Sinto-me uma verdadeira idiota por ter minimizado a luta dos ucranianos nos últimos 5 anos. Costumava dizer que não me importava. Olhando para trás, não foi muito simpático da minha parte dizer isso”, disse a influencer na terça-feira.
Numa publicação no dia anterior, Laura Loomer, que chegou a ser colunista da Russia Today, lamentou ter visto o movimento MAGA “vender-se para a Rússia”, numa referência a nomes como Tucker Carlson e Candace Owens. “Desde então, apercebi-me de quão destrutiva é a desinformação russa e de como a Rússia está a colaborar com os maiores adversários dos Estados Unidos para promover a multipolaridade, com o objetivo de destruir o domínio norte-americano”, admitiu.
Como parte da sua visita ao país, Loomer não entrevistou somente Zelensky, mas também o principal rabino da Ucrânia, Moshe Azman, e conversou pessoalmente com Sergiy Kyslytsya, antigo chefe da missão ucraniana na ONU, e com Tetyana Berezhna, ministra da Cultura da Ucrânia, no Mosteiro de Kyiv-Pechersk, um dos mais importantes do cristianismo ortodoxo. Pelo meio, visitou também um restaurante da cadeia McDonald’s parcialmente destruído por um ataque russo.
A viagem de Loomer tem sido aproveitada pela presidência ucraniana, que tenta sensibilizar a base MAGA para a sua causa. A importância da presença da influencer no país foi elencada por Anton Gerashchenko, antigo conselheiro presidencial ucraniano. "Laura Loomer tem cerca de 2 milhões de seguidores aqui no X. Veio para a Ucrânia e está sob ameaça de ataques russos. A sua conversa com o Presidente Zelenskyy, isenta de 'tópicos proibidos' e de censura, permite que a verdade sobre a guerra chegue diretamente à ala mais radical e cética dos conservadores americanos", escreveu Gerashchenko na sua conta.
No entanto, todo o conteúdo gerado pela visita de Loomer não conseguiu impressionar alguns analistas. “Tudo o que consigo pensar é ‘meu Deus, as coisas que uma pessoa tem de fazer para salvar o seu país’”, disse David Axelrod, analista político principal da CNN, no programa “Erin Burnett Outfront”. “Acho que ele [Zelensky] decidiu que era algo que tinha de fazer para salvar o seu país porque… chamam-lhe influencer, mas a pessoa que ela [Loomer] influencia e com que Zelensky se preocupa é Donald Trump. Se é o que é preciso, é o que ele irá fazer”.
