Manobra poderá ter ocorrido após a aeronave ultrapassar a velocidade de decisão, tornando o momento particularmente crítico
Um voo da LATAM Airlines Brasil com destino a Lisboa viveu momentos de tensão na noite de domingo quando o Boeing 777-300ER que operava a ligação interrompeu a descolagem já em fase crítica, no Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos.
A bordo seguiam cerca de 400 passageiros. Não houve feridos, mas o momento foi descrito como "um terror" por quem estava no avião.
O voo LA8146 tinha saída prevista para as 17h40 (hora local), mas atrasou devido ao encerramento temporário do aeroporto devido à presença de drones nas imediações. Por volta das 19h12, a aeronave iniciou finalmente a descolagem.
Segundo relatos de passageiros e dados da plataforma Flightradar24, o avião percorreu a pista, levantou o nariz - momento conhecido como rotação - e, pouco depois, abortou o procedimento, travando de forma brusca.
"Foi um terror. Sentimos o avião a ganhar velocidade, o nariz levantou e, de repente, uma travagem muito forte", descreveu uma passageira, citada por vários jornais brasileiros, nas redes sociais.
A LATAM Boeing 777 aborted a high-speed takeoff last night (15).
— AirNav Radar (@AirNavRadar) February 16, 2026
The Boeing 777-300ER, registration PT-MUH, was in the takeoff roll when the pilots decided to abort at very high speed. According to our data, the decision was made at approximately 178 knots (330 km/h), at a… pic.twitter.com/lrJeEn8o7v
O que são a V1 e a VR e porque é que são tão importantes
De acordo com o comandante José Correia Guedes, se o nariz já estava no ar, isso significa que a aeronave teria atingido - ou mesmo ultrapassado - duas velocidades fundamentais: V1 e VR.
"Qualquer piloto acabado de formar sabe que, depois de passar a V1, tem de ir para o ar, aconteça o que acontecer, porque não há garantia de que o avião consiga parar na pista restante", explica.
Antes de cada descolagem, são calculadas três velocidades críticas: V1, VR e V2.
A V1 é conhecida como a "velocidade de decisão". Até esse ponto, é possível abortar a descolagem e parar dentro dos limites da pista, considerando peso da aeronave, extensão e estado da pista, flaps e condições meteorológicas. Ultrapassada a V1, a regra geral é continuar a descolagem.
A VR é a velocidade de rotação, o momento em que o piloto puxa o manche e o nariz do avião começa a erguer-se. Normalmente é igual ou superior à V1.
No caso do voo para Lisboa, o comandante refere que, a confirmar-se que o trem de proa já estava no ar, então a VR tinha sido atingida e, por consequência, também a V1.
"Passaram a V1 e a VR. Tiveram muita sorte… e os passageiros também", afirmou.
Segundo o relato da passageira, a informação transmitida a bordo foi a de que um dos motores teria sobreaquecido, levando o piloto a interromper a manobra. Os bombeiros foram acionados e procederam ao arrefecimento dos pneus. Os passageiros desembarcaram ainda na pista, sendo transportados de autocarro até ao terminal.
A concessionária GRU Airport, responsável pela administração, operação e manutenção do aeroporto, confirmou que a descolagem foi abortada "em procedimento padrão de segurança" e que a equipa de combate a incêndios foi mobilizada conforme protocolo. Já a LATAM afirmou apenas que "o procedimento foi efetuado em total segurança e é o protocolo previsto para esse tipo de situação", acrescentando que os passageiros foram reacomodados em hotéis e outros voos.
O incidente ocorreu num dia já marcado por constrangimentos. Durante a tarde de domingo, o aeroporto foi encerrado duas vezes devido à presença de pelo menos oito drones na rota de aproximação e descolagem. A Polícia Militar brasileira foi chamada ao local, e o Comando de Operações Especiais utilizou um bloqueador de sinal para restabelecer a segurança. Vários voos foram desviados, adiados ou cancelados. Não é claro, no entanto, se existe qualquer relação entre os dois episódios.