"Eu acabo convosco". Dezenas de funcionárias denunciam clima de terror em lar de Chaves
Funcionárias falam de perseguições, intimidação e assédio moral. Áudios e queixas já chegaram ao Ministério Público e há dois processos em fase de instrução e uma queixa de maus-tratos a idosos na GNR de Chaves
Por detrás das portas do Lar do Bom Caminho de Calvão, em Chaves, esconde-se, segundo dezenas de trabalhadoras, uma realidade que contrasta com a imagem transmitida ao exterior.
As denúncias multiplicam-se e descrevem um ambiente de trabalho marcado pelo medo, pela pressão constante e por episódios de assédio moral que terão levado várias funcionárias a denunciar a situação à Autoridade para as condições no Trabalho.
“É um ambiente pesado, hostil," relata uma das trabalhadoras ouvidas pelo Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal). Outras falam em perseguições, humilhações e ameaças que, segundo admitem as auxiliares, se tornaram parte da rotina diária dentro da instituição.
No centro das acusações está César Duque, histórico dirigente da IPSS. Depois de ter deixado a presidência, assumida em 2025 pelo filho, Nuno Duque, regressou este ano ao comando da instituição após novas eleições. Segundo as denunciantes, a sua chegada terá marcado o início de uma nova vaga de conflitos internos.
Diretora técnica do lar destituída do cargo e fica sem funções
Uma das situações mais polémicas envolve a antiga diretora técnica do lar. "Sandra", nome fictício, foi afastada das funções, viu o salário reduzido e permaneceu durante mais de um mês sem qualquer tarefa atribuída. Enfermeira de formação, " Sandra" foi impedida de realizar tratamentos e conduzir as carrinhas do lar.
As trabalhadoras do Lar do Bom Caminho de Calvão, em Chaves, garantem que quem questiona decisões ou não consegue cumprir determinadas ordens fica sujeito a um ambiente de tensão crescente: "Quem responda ou discorde de algo, não pode falar. Caso contrário, César Duque começa a gritar e expulsa toda a gente do gabinete", admite a auxiliar reservada ao anonimato por medo de represálias.
Sem respostas da ACT e da Segurança Social auxiliares gravam comportamentos agressivos e avançam com queixa no Ministério Público.
O desespero terá chegado a tal ponto que algumas funcionárias começaram a gravar conversas e comportamentos ocorridos dentro da instituição. Os registos áudio foram posteriormente entregues ao Ministério Público como elementos de prova e cedidos ao Exclusivo.
"Joana", nome fictício, revelou ao Exclusivo que numa noite não conseguiu aceder a um pedido de uma utente no lar, a mãe do presidente da IPSS. Facto que ficou registado no livro de ocorrências. No dia seguinte, o presidente da IPSS do Lar do Bom Caminho chama a funcionária e ameaça-a: " Vocês não se metam comigo que eu acabo convosco", consta nos registos de áudio cedidos ao Exclusivo.
Funcionárias apresentam queixa na GNR de Chaves por maus-tratos a idosos
Várias trabalhadoras denunciam alegada falta de pessoal para assegurar todos os cuidados aos idosos. Segundo os testemunhos recolhidos, no lar existem 10 auxiliares para 30 utentes, destes 17 são altamente dependentes. No período da noite está apenas ao serviço uma funcionária.
Segundo denunciam as funcionárias, os utentes permanecem períodos prolongados sem assistência adequada, sem os cuidados de higiene necessários ou demasiado tempo em cadeiras de rodas devido à escassez de recursos humanos.
Questionado sobre as denúncias, o presidente da IPSS, César Duque, recusou prestar declarações gravadas e rejeitou as acusações.
Durante a conversa telefónica, César Duque desvalorizou o conceito de assédio moral, acusou a comunicação social de mentir e ameaçou avançar judicialmente contra a equipa de reportagem da TVI.
Entretanto, a Procuradoria-Geral da República confirmou ao Exclusivo a existência de dois processos relacionados com estes factos no Ministério Público de Chaves. Ambos estão atualmente em fase de instrução.
A Segurança Social abriu um processo de inspeção ao Lar do Bom Caminho de Calvão e encaminhou as denúncias para a Autoridade para as Condições no Trabalho. O Exclusivo da TVI, procurou uma resposta junto da ACT, mas não recebemos uma resposta em tempo útil.
Enquanto decorrem as investigações, as funcionárias que decidiram denunciar a situação continuam a trabalhar sob um sentimento comum: o medo de represálias. Devido à falta de oferta de emprego na região, a maioria submete-se ao silêncio e a um ambiente de trabalho tóxico.
