Esta é a capital comunista mais jovem do mundo. Não fica na China, nem na Coreia do Norte, nem em Cuba

CNN , Lilit Marcus
4 jan, 15:00
Laos

Vientiane combina história, cultura local e um estilo de vida tranquilo que atrai expatriados e nómadas digitais

Aditta Kittikhoun já aprendeu a antecipar a pergunta.

Não, não é a Tailândia, mas fica ao lado da Tailândia. Não, não é a China, mas fica ao lado da China. Não, não é o Vietname, mas fica ao lado do Vietname.

Kittikhoun, que é laosiano mas cresceu maioritariamente nos Estados Unidos, está habituado a que as pessoas não saibam de onde ele é.

O pai trabalhou na missão diplomática do Laos junto das Nações Unidas, em Nova Iorque. Como resultado, fala inglês fluentemente, uma mais-valia quando regressou ao local onde nasceu.

Hoje, Kittikhoun dirige uma empresa de media e marketing criativo em Vientiane, uma cidade com cerca de 850 mil habitantes.

“Diria que é extremamente confortável, é agradável, as pessoas são geralmente simpáticas umas com as outras”, afirma Kittikhoun, que está a criar os seus três filhos em Vientiane. “Gosto da energia deste lugar. Quero continuar a viver aqui a longo prazo.”

Embora Vientiane exista há séculos nesta margem do rio Mekong, dezembro assinala 50 anos como centro da República Democrática Popular do Laos. É a mais jovem das capitais comunistas do mundo, sendo as outras Pequim, Havana, Hanói e Pyongyang.

Isto não é uma Banguecoque no Mekong. O Laos, sem acesso ao mar, recebe muito menos turistas do que os seus vizinhos rodeados de praias. Não há arranha-céus. Os transportes públicos são mínimos. O pequeno aeroporto de Vientiane tem apenas seis portas de embarque, servindo apenas voos de curta distância dentro da região.

As marcas globais são raras. A maioria das cadeias é tailandesa ou chinesa, embora algumas lojas da Starbucks tenham aberto nos últimos anos - os copos da Starbucks com a marca Vientiane tornaram-se inesperados itens de coleção online. Um DoubleTree by Hilton abriu na cidade em 2024, uma das primeiras marcas hoteleiras ocidentais a entrar no mercado local.

E quanto a atrações turísticas? As mais populares são o Monumento da Vitória de Patuxai, dedicado ao povo laosiano que lutou pela independência do domínio francês, e o Wat Si Saket, um templo conhecido pelas suas milhares de esculturas e desenhos de Buda.

A primeira coisa que a maioria das pessoas repara em Vientiane é o calor. Tal como noutras capitais do Sudeste Asiático, é um país quente e húmido, com um verão longo e uma estação das chuvas.

Aqui em Vien, como os locais chamam à cidade, motorizadas passam a grande velocidade por santuários budistas e edifícios governamentais baixos de estilo brutalista. Em parques e praças públicas, amigos juntam-se em bancos, a comer carnes grelhadas acompanhadas pelas omnipresentes garrafas de Beerlao. Bandeiras do Laos - vermelhas e azul-escuras com um círculo branco brilhante ao centro - estão penduradas entre árvores ou coladas às laterais dos carrinhos de comida.

Vientiane e além

A economia do Laos cresceu na última década, mas o Banco Mundial observa que “a elevada inflação, a desvalorização da moeda e a queda dos salários reais estão a empurrar os trabalhadores do emprego assalariado e do trabalho familiar não remunerado para o autoemprego”. O país foi duramente atingido pela pandemia, e o frágil setor do turismo sofreu mais um golpe no ano passado, depois de seis viajantes terem morrido devido a álcool contaminado num hostel em Vang Vieng, o principal destino de festa do país.

Muitos jovens laosianos emigraram para procurar trabalho na Tailândia, onde a economia é mais forte, sobretudo no setor da hotelaria. A maioria dos falantes de laosiano consegue compreender e falar tailandês, já que as duas línguas são semelhantes e muitos canais de televisão locais transmitem filmes e séries tailandesas.

“É sobretudo o trabalho manual que está a sair do país”, afirma Kittikhoun. “A classe mais instruída ainda está aqui e é extremamente procurada.”

A economia do Laos deverá crescer cerca de 3,5% este ano, segundo o Banco Mundial. Os salários aumentaram um pouco, mas as pressões inflacionistas, incluindo a subida dos preços do imobiliário, mantêm a compra de casa fora do alcance de muitos.

Pessoas juntam-se para comer comida de rua em Vientiane. (Mladen Antonov/AFP/Getty Images)

No entanto, Kiyé Simon Luang, um cineasta laosiano que passou vários anos em França antes de regressar, diz que algumas pessoas da sua geração, que pensavam ter de viver no estrangeiro para seguir carreiras criativas, estão a voltar ao país.

Luang, que gosta de explorar a vibrante cena musical independente da cidade nos tempos livres, diz sentir-se energizado pelos jovens no Laos que estão a impulsionar a cultura e a mudar a ideia do que significa ter sucesso.

E acredita que a maré alta faz subir todos os barcos.

“É normal que o país se desenvolva”, afirma. “A população está a crescer. Consigo ver que o nível de vida aumentou, que o nível de saúde também melhorou, assim como a higiene. O desenvolvimento tem vantagens.”

Embora o turismo de entrada seja um setor em crescimento na economia laosiana, a maioria dos turistas visita o país como parte de uma viagem maior pelo Sudeste Asiático.

E quando os viajantes chegam ao Laos, não é Vientiane que a maioria escolhe como primeiro destino.

Luang Prabang, a antiga capital real no norte do Laos, classificada como Património Mundial da UNESCO, é há muito o ex-líbris do país, graças aos seus bonitos e bem preservados edifícios coloniais franceses.

Atualmente, o maior e mais rápido mercado de crescimento turístico é o vizinho do norte - a China.

Um projeto ferroviário de alta velocidade apoiado pela China, que liga Luang Prabang a Vang Vieng e Vientiane, tem sido um sucesso. Agora, os viajantes conseguem ir de Vientiane a Luang Prabang em duas horas - uma viagem que facilmente poderia demorar um dia inteiro de carro pelas estradas locais.

O comboio tem origem na província chinesa de Yunnan. Embora os viajantes chineses precisem de visto para entrar no Laos, essa exigência é dispensada se reservarem uma viagem organizada com uma agência laosiana. Como resultado, guias turísticos em mandarim estão a surgir nas zonas fronteiriças para atrair turistas chineses para sul.

Colocar o Laos em perspetiva

Luang Prabang pode ser o local mais famoso do Laos.

Mas, como salienta a expatriada Sophie Steller, a cidade histórica é pequena e não tem uma população residente durante todo o ano tão grande como Vientiane.

Muitos estrangeiros mudam-se para a capital do Laos para trabalhar em ONG, ensinar inglês ou francês (este último ainda usado oficialmente no governo), ou para se estabelecerem como nómadas digitais.

Steller, natural de Sydney, chegou ao Laos pela primeira vez para trabalhar para a UNICEF em 1999 e está baseada em Vientiane desde então. Apaixonou-se rapidamente pela cidade adotiva, mas sentia falta de um local bom e fiável para beber cocktails, aberto aos domingos e com funcionários que falassem inglês.

Para colmatar essa lacuna, ela e dois amigos abriram um café chamado Sticky Fingers, no centro de Vientiane, há 10 anos. Desde então, Steller comprou a parte dos sócios e tornou-se a única proprietária, mantendo-se no país com um visto de empresária.

Steller gosta de passar os dias de folga a andar de bicicleta ou de barco pelas zonas verdes de Vientiane. Mas quando amigos de fora vêm visitá-la, diz que recomenda sempre uma visita ao COPE, uma organização que apoia vítimas de minas terrestres.

“É um verdadeiro abre-olhos para algumas pessoas”, afirma. “É um pouco da história da Guerra do Vietname e de como este lugar foi duramente bombardeado.”

Entre 1964 e 1973, os Estados Unidos lançaram cerca de dois milhões de bombas sobre o Laos, no que ficou conhecido como “a guerra secreta”.

Os ataques destinavam-se a cortar as linhas de abastecimento ao Vietcong durante a Guerra do Vietname, dando ao Laos o duvidoso título de país mais bombardeado per capita da história. Hoje, estima-se que existam cerca de 80 milhões de bombas não detonadas espalhadas pelo país, que organizações sem fins lucrativos ajudam a localizar e remover em segurança.

Cerca de três milhões de turistas visitaram o país em 2025, em comparação com 32 milhões na Tailândia. O Laos anunciou como objetivo alcançar cinco milhões de turistas por ano.

Num mundo em que o excesso de turismo é uma preocupação constante, os habitantes dizem à CNN que adoram Vientiane pelo seu estilo de vida tranquilo e gerível. E para expatriados como Steller, continua a parecer um segredo bem guardado.

“Nunca me aborreci aqui”, garante. “Nunca.”

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