Pelos vistos, tornou-se moda apenas permitir a presença imediata no terreno dos presidentes das autarquias e de um ou outro vereador, mesmo quando têm manifestos comportamentos politizados ou surgem descontrolados para lidar com uma situação de emergência. Vimos isso nos fogos florestais do verão do ano passado e estamos a vê-lo na destruição provocada pela depressão Kristin.
Sei que nos dias de hoje não é fácil falar destas coisas, porque estes são os dias em que só se perora sobre a “a comunicação”, “a imagem” e o “tempo de reação”. São os dias cínicos do comentário instantâneo que exige uma coisa e o seu contrário. São os tempos em que se tem cada vez menos atenção ao que realmente importa em termos de substância: tomar as decisões certas e aperfeiçoá-las à medida que a realidade necessariamente se altera. Será que alguém duvida que, para isso, é sempre necessário tempo e ponderação, ainda mais quando a situação é de extrema complexidade como sucede numa catástrofe?
Mas a racionalidade de avaliação não pode naturalmente deixar de fora a ligação ao terreno e logo numa fase inicial. Numa emergência regional ou nacional a presença do primeiro-ministro, ministros, secretários de Estado, responsáveis políticos das CCDR ou até dos líderes partidários não pode ser encarado como um estorvo ou aproveitamento para tratar da imagem. Confesso mesmo a minha total incapacidade para perceber este entendimento que se generalizou nos últimos anos na classe política. É como quando alguém morre da família, amigos, vizinhos e não estamos imediatamente presentes com uma palavra, com um abraço, com algo que, muitas vezes não parecendo fazer nada, faz tudo.
No caso de uma emergência nacional, os responsáveis políticos têm de dar imediatamente a cara, ir ao terreno, viverem diretamente o acontecimento no meio das pessoas, senti-lo e senti-las. Só assim estarão mais aptos para decidirem o que fazer nos dias, nas semanas e nos meses seguintes. Mais ainda quando são ministros com especiais responsabilidades políticas, financeiras e sociais.
Sei naturalmente o que ficou escrito no relatório bombástico de 2017 sobre os grandes incêndios de Pedrógão. Foi arrasador para o poder político, que foi acusado de se ter intrometido "na condução de uma operação de socorro tornando a zona de posto de comando, que deve ser uma área preservada, para nela se poder ter a calma possível para se tomarem decisões, num circo de permanente de promiscuidade entre elementos da estrutura operacional e jornalistas, com resultados bem nefastos". A comissão técnica escreveu ainda que "o comando operacional no terreno caiu sistematicamente em preocupações com os VIP as quais se adicionavam à já de si dramática situação operacional" e que "as informações de natureza operacional eram fornecidas de forma aparentemente oportunista pelo poder político".
Quem lê isto fica a pensar que se os políticos lá não tivessem estado a área ardida seria muito menor, os erros não se tinham sucedido, as casas não tinham ardido, as decisões operacionais teriam sido sempre certeiras e eficazes. Naturalmente que não é assim. Além disso, se víssemos todas as degenerescências de atuação como eliminatórias do comportamento de base, não restava nada. Dito de outra forma: se algo está a correr mal numa situação, cabe aos responsáveis operacionais máximos no terreno colocar um ponto de ordem. E, reitero, ninguém me convence que um político eleito, qualquer que ele seja e ainda por cima membro de um governo central e com capacidade última de decisão, não pode estar quando quiser junto dos meios de socorro e das populações. Tem é de se saber comportar e ter o bom senso de perceber os limites da sua atuação naquele momento muito específico.
O que dificilmente se compreende é a autêntica esquizofrenia que se vive hoje quando se vê nas televisões as populações e os autarcas a clamarem por atenção e empatia do poder central e esse mesmo poder central (seja o governo e a Presidência) está desaparecido durante não sei quantas horas no refúgio dos gabinetes com receio de ser acusado de aproveitamento político. Os teatros de emergência não podem ser deixados durante horas a fio a alguns presidentes de autarquia que também resvalam para jogos políticos (já viram bem a dualidade de comportamentos dos autarcas de Leiria e de Coimbra?) e, porventura devido à incapacidade perante o impacto da catástrofe local, entram por caminhos que incluem atoardas absurdas sobre a terra “não ser um jardim zoológico” e ninguém ter o direito de festejar no Estádio da Luz (e sabe-se lá onde mais) a vitória do Benfica sobre o Real Madrid.
Em catástrofes como a da depressão Kristin, o apagão elétrico ou os fogos de verão, já sabemos que há sempre lugar para o estapafúrdio e também críticas muito seletivas. Nunca se reage a tempo e horas, não se comunica de forma perfeita, não se deve estar (ou se deve estar) no terreno, pedem-se logo as cabeças dos ministros A, B ou C pela mínima hesitação ou erro, há dezenas de opinadores com soluções-Farinha Pensal para tudo, atira-se para a fogueira um governante que colocou nas redes sociais um vídeo de trabalho (quantos já o fizeram, inclusive de governos anteriores e por esse mundo fora?), critica-se da mesma maneira contundente e sem perdão o ministro até por ter mandado apagar o vídeo, os autarcas são sempre vistos como heróis, mesmo quando não se lembram de coisas tão básicas como ter geradores em locais estratégicos dos concelhos (autarquia, centros de saúde, escolas, lares, etc) ou de tratarem do planeamento dos leitos de cheia.
Depois, há políticos que visitam os locais afetados e a imagem que passa é de que uns são exemplares e autênticas figuras de Estado (António José Seguro) e há outros, como sucede com André Ventura, que é logo acusado de aproveitamento político e mil tropelias para ganhar votos. Confesso que vejo tudo isto como a espuma dos dias. Numa situação de catástrofe o que realmente interessa é a empatia inicial de quem nos governa, mas sobretudo o que se decide para repor o que existia ou minorar os impactos. E se há coisa que este governo já anunciou de forma muito rápida foi um conjunto de medidas muito importante. Estão previstos um total de 2,5 mil milhões de euros de apoios diretos e indiretos, a investir nas infraestruturas e património do Estado e cultural, na agricultura e nas florestas, nas instituições de solidariedade social e nos apoios às famílias em situação de carência ou perda de rendimento, nas moratórias nos empréstimos, nos créditos e liquidez para as empresas.
O que se exige, e isso sim é sempre o mais difícil, é que os planos sejam concretizados com competência, sem obstáculos e outras anomalias, que os façam resvalar no tempo e nas intenções iniciais. Nisso, o poder central tem dado muitas provas ao longo dos anos de que a atuação deixa muito a desejar. Mas pode ser um bom augúrio a escolha de Paulo Fernandes, o antigo presidente da Câmara do Fundão, para liderar a Estrutura de Missão para a recuperação das zonas afetadas pela depressão Kristin.