Que campeonato é este que Piqué criou (e já atraiu Casillas, Aguero, Saviola, Chicharito e até Ricardinho)?

6 jan, 09:16
Kings League (DR)

Chama-se Kings League, é futebol de sete com regras revolucionárias, atingiu audiências de 800 mil pessoas na primeira jornada e provocou uma revolução nas plataformas de streaming. O português Ricardinho já anunciou que quer participar nesta «bendita loucura» e que ambiciona até trazer o campeonato para Portugal. Venha daí perceber do que se trata.

A paixão de Piqué por conceitos disruptivos conduziu-o a um novo projeto: chama-se Kings League e junta o melhor de dois fenómenos de massas. Futebol e streaming.

A primeira jornada foi realizada no dia 1 de janeiro, em Barcelona. Foi transmitida na Twitch e no Youtube e teve uma audiência média, ao longo das seis horas que demorou a ronda, de 450 mil pessoas. Com picos que chegaram a quase 800 mil espectadores.

«A ideia surgiu há uns meses, quando fui jantar com o Ibai Llanos. Nós dois tínhamos claro que queríamos criar um produto que fosse futebol, mas diferente do que existe agora.»

Ibai Llanos, para os mais distraídos, é uma celebridade espanhola das novas plataformas, eleito duas vezes o maior streamer do mundo e sócio de Piqué em vários negócios: a equipa de e-sports KOI, o campeonato do mundo de balões ou a compra dos direitos da Liga Francesa e da Copa América para transmissão através da Twitch, por exemplo.

«Queríamos um futebol em que se possa aceder aos balneários, ver como o treinador fala com os jogadores ou como os proprietários negoceiam transferências», referiu Piqué.

Por isso, ao longo das conversas que os dois foram tendo desde esse jantar no restaurante Sushi 99 surgiu uma ideia: porque não criar um campeonato que integre os streamers, que eles transmintam através dos seus canais e que tenha uma grande produção meditática?

Foi a partir daí que nasceu a Kings League, um campeonato de futebol de sete que coloca no centro de tudo o interesse televisivo: é fundamental que as pessoas, sobretudo as mais jovens, queriam assistir às transmissões dos jogos. Por isso existe todo o tipo de câmaras a acompanhar a ação: drones, spider cams, até os os árbitros trazem uma câmara ao peito.

A ideia é ver tudo e ouvir tudo. Quando um jogador se lesiona, que reações tem. Quando uma falta é marcada, o que os jogadores dizem ao árbitro. Enfim, aceder a tudo, tudo, tudo.

«A forma de viver o desporto mudou e por isso temos que revolucionar o modelo tradicional. Os jovens não suportam assistir a um jogo inteiro e prestam mais atenção às redes, aos canais alternativos ou multiplataformas. Preferem ver clips do que acompanhar um jogo.»

Mas afinal que jogo é este?

Ora para tornar este campeonato atrativo para os jovens, que são o público alvo que anda pela Twitch e pelo Youtube, Piqué e Ibai Llanos sabiam que tinham de criar um jogo que fosse novo e acima de tudo muito dinâmico. Com coisas aqui e ali dos e-sports.

A maior novidade são as cartas. Basicamente, antes do início do jogo, os dois treinadores tiram uma carta de um monte de vinte, no qual estão sete cartas de golo a dobrar, sete cartas de sanção, quatro cartas de penálti, uma carta de roubo e uma carta joker.

A carta a dobrar significa que durante os próximos dois minutos cada golo dessa equipa vale por dois, a carta de sanção permite expulsar um adversário durante dois minutos, a carta penálti dá de imediato uma grande penalidade a favor da equipa, a carta roubo permite ficar com a carta do adversário e a carta joker permite escolher uma de todas estas vantagens.

Ora a introdução das cartas torna os jogos mais dinâmicos, podendo alterar o rumo do resultado a qualquer momento. Por exemplo, na primeira jornada a equipa de Casillas estava a ganhar por 3-2 quando o adversário jogou a carta penálti. A equipa de Casillas tinha a carta roubo, ficou com a carta adversária, marcou o penálti e ganhou por 4-2.

De resto, é um jogo de futebol de sete, que mistura regras do futebol e do futsal. Cada jogo em 40 minutos, dividido em duas partes de 20. Cada parte começa como no polo aquático, com a bola no centro e as equipas atrás da baliza, sprintando para ficar com a posse.

Há substituições ilimitadas, foras de jogo, um cartão amarelo significa ter de sair durante dois minutos e um vermelho significa a expulsão definitiva do jogador, que será substituído por um colega. Os jogos têm VAR e as duas equipas podem pedir a sua intervenção, mas se a decisão do árbitro não for alterada essa equipa não pode voltar a pedir.

No entanto, e como referiu Piqué, este é um jogo em evolução. Por isso através das redes sociais, a direção do campeonato faz consultas ao público e vai adaptando algumas regras.

Por exemplo, a carta golo duplo tinha validade de um minuto e passou a valer durante dois após uma consulta ao público. Da mesma forma, o início das duas partes pode mudar, por ser perigoso para os jogadores, havendo uma sondagem a decorrer nesta altura.

E como decorre o campeonato?

A Kings League tem doze equipas, cada uma com um streamer famoso em Espanha como presidente. Entre eles o próprio Ibai Llanos, Kun Aguero e Iker Casillas. Piqué ficou como presidente da competição. As doze equipas defrontam-se em duas voltas, uma no inverno e uma no verão, apurando-se os oito primeiros para um play-off ao jeito da NBA.

Todos os jogos têm de ter um vencedor, sendo que se no final dos 40 minutos houver empate se avança para o desempate por penáltis: mas penáltis diferentes, em que o jogador conduz a bola desde o meio campo e tem de rematar no espaço de cinco segundos.

Os jogos decorrem num pavilhão no porto de Barcelona, onde se joga todo o campeonato, e sempre ao domingo: o primeiro começa às 16 horas espanholas e o último acaba às 22 horas. Todos são abertos ao público, mas o pavilhão tem poucos lugares. No futuro a direção quer um espaço para 300 pessoas, até porque o público faz falta o espetáculo.

Como tudo o que Piqué faz tem uma visão comercial, a Kings League surgiu também com vários patrocínios associados. O campeonato já tem um naming, aliás: Kings League Infojobs. Também já tem um patrocínio para o nome do pavilhão e várias publicidades associadas à transmissão dos jogos. Afinal de contas o dinheiro é fundamental.

Que jogadores formam as equipas?

Cada equipa tem de ter no mínimo oito jogadores inscritos e no máximo doze. Para já todas têm doze, sendo que dez são jogadores regulares e dois são wild cards.

Ora os wild cards são as estrelas, havendo dois tipos: o jogador 11 integra o plantel toda a época, o jogador 12 pode mudar todas as jornadas e ser repetido várias vezes.

É nestes wild cards que entram a maior parte dos nomes famosos. Chicharito Hernández, atualmente a jogar na MLS, é um deles, tendo até se tornado viral por aparecer num vídeo a chorar enquanto agradecia a Ibai Llanos o convite para jogar na sua equipa.

Outros nomes como 12º jogador incluem, para já, Capdevilla, ex-jogador do Benfica e campeão do mundo em 2010, Javier Saviola (na equipa de Aguero), Alberto Bueno (na equipa de Casillas), Ibai Gomez, Victor Sanchez, Ruben de la Red ou Joan Verdú.

No futuro vão surgir mais nomes, sendo que um até já está anunciado: o português Ricardinho. O craque de futsal anunciou nas redes sociais que «está decidido».

«Vou jogar na Kings League. Quero muito experimentar esta bendita loucura», adiantou.

Numa conversa na Twitch, o cinco vezes melhor jogador do mundo de futsal explicou mais tarde que «a Kings League é um evento top, vai ser uma bomba».

«Este vai ser o meu último ano a jogar futsal ao mais alto nível. Vou jogar na Kings League sim ou sim. A ideia será este ano combinar uma data para ir jogar, conhecer o projeto, quem sabe ter eu um dia uma equipa e quem sabe tentar trazer o projeto para Portugal. Quero ver como funciona. Seria uma coisa top. Tem coisas que podem ajudar o futsal.»

Ora voltando às atuais equipas, há também o wild card que funciona como 11º jogador, e que vão jogar toda a época: por exemplo, Jonathan Soriano (ex-jogador do Barcelona e goleador do RB Salzburgo) ou Raul Tamudo (histórico capitão do Espanhol).

Os restantes dez jogadores de cada equipa foram escolhidos pelos presidentes, num draft realizado em dezembro e para o qual se inscreveram mais de onze mil atletas (no fim foram escolhidos 120). São sobretudo jogadores que têm passado na formação de grandes clubes espanhóis, mas não chegaram a atletas profissionais.

O draft, refira-se, realiza-se todos os anos e, tal como na NBA, os quatro últimos classificados terão as primeiras escolhas. No final da época, todas as equipas têm de dispensar cinco jogadores e abrir cinco vagas para preencher através do draft: o objetivo é renovar a cara do campeonato.

No entanto, há também transferências ao longo de toda a época: os presidentes podem trocar jogadores e negociar jogadores por posições no draft, como acontece nos desportos americanos. As transferências têm no entanto uma exigência: todas as negociações têm de ser transmitidas em direto, ou pelos menos gravadas podendo a organização publicá-las depois.

Os 120 jogadores normais têm um ordenado pago pela Kings League, os treinadores e wild cards são pagos pelos respetivos presidentes.

«Isto pode ser o início de algo muito grande»

Como já se disse, Alberto Bueno é um dos jogadores que participou nesta competição. O antigo avançado de FC Porto e Boavista explicou ao Maisfutebol que entrou na Kings League «pela amizade com Iker Casillas», mas que está encantado com a experiência.

«Estava sem clube por escolha minha, tive algumas propostas de fora mas preferi ficar em Madrid para estar com a família. O Casillas sabia disso, disse-me que é um projeto espetacular, que pode crescer muito e convenceu-me a entrar. A primeira jornada foi fenomenal, é um formato muito dinâmico e muito divertido, que atrai os jovens que gostam de novos formatos e de coisas inovadoras», acrescentou.

Aos 34 anos, e com passado em clubes como Real Madrid, Málaga, Granada, Valladolid, Rayo Vallecano e Leganés, o espanhol diz que não anda à procura de promover-se.

«Adoro futebol, adoro jogar e a Kings League diverte-me. Junta pessoas do futebol, do Youtube, streamers e pode ter muito sucesso no futuro. As pessoas que criaram o projeto e que estão a trabalhá-lo têm uma forma diferente de olhar para o futuro. Pode ser o início de algo muito grande e que venha a provocar muitas mudanças», garantiu.

«Acho que pode atrair os jovens que não olham tanto para o futebol e que não conseguem, como eu ou as pessoas da minha idade, ver um, dois, três jogos de futebol seguidos. Este formato tem coisas novas, é diferente de tudo o que existe e vai atrair jovens.»

A verdade é que a primeira jornada teve audiências fabulosas e a Kosmos, empresa de Piqué que reformulou a Copa Davis e levou o FC Andorra à II Liga Espanhola, sabe como promover e trabalhar comercialmente um projeto. Basta, aliás, olhar para a forma como a Kings League se promove nas redes sociais e nas plataformas de streaming.

As perspetivas são, portanto, muito boas. O resto o futuro dirá.

Mais Lidas

Patrocinados