Humorista contou que soube, em cima da hora e numa casa de banho, que o seu programa ia ser suspenso pela ABC
Quando os executivos da ABC disseram a Jimmy Kimmel, no mês passado, que o seu programa ia ser retirado do ar, o público já estava sentado, um chef convidado tinha começado a cozinhar, o convidado musical já tinha feito o aquecimento, e Kimmel estava na casa de banho.
“Era por volta das 15:00; gravamos o programa às 16:30,” contou Kimmel a Stephen Colbert num episódio do “The Late Show”, na terça-feira. “Estava no meu gabinete, a escrever como faço habitualmente. Recebo uma chamada. Era a ABC. Dizem que querem falar comigo. Isto é invulgar: pelo que eu sabia, nem sequer sabiam que eu estava a fazer um programa antes disto.”
Kimmel disse que tinha cinco argumentistas no seu gabinete naquele momento, e o único sítio privado onde podia atender a chamada era a casa de banho.
“Então fui para a casa de banho e falei ao telefone com os executivos da ABC. E dizem-me: ‘Queremos baixar a temperatura. Estamos preocupados com o que vais dizer esta noite e decidimos que o melhor será tirar o programa do ar.’”
O público protestou e Kimmel brincou: “Foi exatamente o que eu fiz: comecei a protestar.”
“Disse-lhes: ‘Acho que isso não é boa ideia’, e eles responderam: ‘Pois, nós achamos que é.’ Depois houve uma votação, e eu perdi.”
Kimmel contou que chamou alguns dos produtores executivos do programa ao seu gabinete para lhes dar a notícia e ficou branco.
“Pensei: pronto, acabou. Está feito. estou acabado. Achei mesmo que nunca mais voltava a estar no ar.”
Kimmel disse que o programa teve de mandar o público que estava sentado para casa. As almôndegas e a polenta preparadas pelo chef Christian Petroni antes da gravação foram para o lixo. No entanto, o futuro convidado musical Howard Jones gravou uma música para um episódio futuro “Things Can Only Get Better” ("As coisas só podem melhorar"), que Kimmel reconheceu ser irónico.
A ABC suspendeu o programa de Kimmel em meados de setembro durante alguns dias, após um monólogo polémico que mencionava o suposto assassino de Charlie Kirk - e a reação da direita ao homicídio de Kirk. Dois dias depois, o presidente da FCC, Brendan Carr, num podcast conservador, ameaçou retirar as licenças de transmissão dos canais afiliados da ABC como retaliação. De seguida, o grupo de estações Nexstar - que emite o “Jimmy Kimmel Live!” em cerca de duas dezenas de mercados - anunciou que deixaria de transmitir o programa. Outro afiliado, a Sinclair, seguiu o exemplo. Horas depois, Kimmel recebeu a chamada dos executivos da ABC na casa de banho.
Kimmel voltou ao ar na terça-feira seguinte, com um monólogo emocional - e audiências altíssimas.
Colbert não conseguiu dizer a frase
Colbert, que também apareceu como convidado na gravação do “Jimmy Kimmel Live” em Brooklyn, na terça-feira, disse que compreendia o que Kimmel sentiu. O apresentador da CBS revelou que os executivos decidiram terminar o seu programa enquanto ele estava de férias. O seu agente, James Dixon, que também representa Kimmel, esperou pelo seu regresso para lhe contar.
Recordando o desejo de contar imediatamente ao seu público a notícia - apesar de o “The Late Show” estar previsto para durar até à primavera de 2026 - Colbert disse a Kimmel que, no final do programa seguinte, pediu ao público para ficar mais um pouco para mais um segmento. Mas teve dificuldades em dizer as falas e enganou-se - duas vezes.
“Estava tão nervoso por querer fazer aquilo bem, porque não havia nada no teleponto. Estava a falar de improviso,” contou Colbert. “Eles começaram a dizer: ‘Força, Stephen, tu consegues’, porque eu estava sempre a falhar na frase que explicava o que se passava. E depois cheguei à frase que de facto dizia o que estava a acontecer - e ninguém se riu.”
Embora a Paramount, dona da CBS, tenha dito que o cancelamento do “The Late Show” foi uma decisão puramente comercial, muitos críticos dos media - e o próprio Kimmel - questionaram essa justificação, e alguns afirmam que terá sido uma decisão política para agradar à administração Trump, que precisava de aprovar a fusão da Paramount com a Skydance.
Tanto Colbert como Kimmel têm sido críticos frequentes e sem rodeios do presidente Donald Trump e da sua administração. Trump celebrou publicamente o cancelamento do programa de Colbert, afirmando numa publicação nas redes sociais que Kimmel e Seth Meyers, da NBC, seriam “os próximos”. Voltou a celebrar quando Kimmel foi retirado do ar, mas criticou - e ameaçou - a ABC quando o trouxe de volta.
Seth Meyers também apareceu no programa de Kimmel na terça-feira, e os três apresentadores de late night posaram para uma fotografia publicada no Instagram. Kimmel acrescentou a legenda: “Olá, Donald!”
Kimmel brincou com Colbert dizendo que a gravação de terça-feira era “o programa que a FCC não quer que vejas.” Apresentou Colbert como “o apresentador de talk show noturno vencedor de um Emmy que, graças à administração Trump, agora está disponível por tempo limitado”.
Kimmel rematou dizendo que estava “muito honrado por estar com os meus colegas fracassados e sem talento dos programas noturnos”. Quanto ao motivo para convidar Colbert para o seu programa: “Achámos que podia ser uma maneira divertida de irritar o presidente”.