Como a guerra na Ucrânia está a ser transmitida na Rússia

2 mar, 14:28
Destroços de veículos militares russos em Kharkiv, Ucrânia (AP Photo/Vadim Ghirda)

 

 

Canais controlados pelo Estado não falam em guerra, mas sim em "operação militar especial" para "desmilitarizar e desnazificar" a Ucrânia. Baixas russas são classificadas como dados falsos e as imagens de veículos militares russos destruídos como adulteradas. O conflito na Ucrânia é visto como uma "notícia falsa" na Rússia, mas já há quem desafie o sistema e gere uma onda de choque e raiva entre a população

A guerra na Ucrânia está a ser transmitida em todo o mundo, com as imagens de destruição a serem vistas por milhões e os números de baixas de ambos os lados a serem comunicados a toda a hora. No entanto, na Rússia não tem sido assim. 

De acordo com o jornal The Guardian, os programas de entretenimento têm classificado como falsos os vídeos dos mísseis russos a atingir as cidades ucranianas e as informações de que há soldados russos mortos em combate. Também os meios de comunicação tentam manipular as fotos e os vídeos vindos da Ucrânia para contradizer os relatórios oficiais da invasão.

A BBC dá conta que, no canal do estado Channel One, o programa "Good Morning" foi interrompido às 5:30 de Moscovo para anunciar que a programação tinha sido alterada "por causa dos bem conhecidos eventos". Mas, sobre as informações de que as forças ucranianas estariam a destruir os equipamentos militares russos, os responsáveis pelo programa garantiam que estes eram falsas e criadas para "enganar espectadores inexperientes".

"Continuam a circular na internet imagens que não podem ser descritas como nada além de falsas", explicava o apresentador, enquanto eram exibidas imagens de fotografias, que iam sendo descritas como "manipulações virtuais não sofisticadas".

Nas imagens, segundo a BBC, aparecem duas fotos do mesmo veículo militar, sendo que a foto de cima tem a legenda "Donbass 2014" e a de baixo "montagem ucraniana", sendo que o programa afirma que a foto superior é de um um veículo ucraniano destruído na zona de conflito em 2014 e que a foto inferior é a mesma imagem manipulada para parecer que se trata de um veículo russo recém-destruído, graças ao "Z" adicionado à foto.

O canal NTV, subsidiário da Gazprom, uma empresa controlada pelo Kremlin, noticiou os eventos em Donbass como uma "operação militar especial" para desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia.

Já o canal Rossiya 1, controlado pelo estado, acusou as forças ucranianas de cometer crimes de guerra na região de Donbass e garantiu que as ameaças para os civis não surgem das forças russas, mas sim de "nacionalistas ucranianos".

"Eles usam civis como escudo humano, posicionando deliberadamente sistemas de ataque em áreas residenciais e intensificando o bombardeamento de cidades em Donbass", afirmou o apresentador do canal durante um programa.

Afinal há guerra?

Segundo os meios internacionais, os programas de informação e entretenimento russos decidiram não usar o termo guerra, optando pela expressão criada por Vladimir Putin: "operação militar especial em Donbass". Mas há excepções.

Foi o caso do programa Vremya Pokazhet (Time Will Tell) do Channel One, uma vez que transmitiu as notícias de que centenas de soldados russos haviam morrido, num claro sinal de que as informações sobre baixas russas não podiam continuar a ser ocultadas do público. A decisão gerou choque e raiva e muitas famílias descobriram que filhos, irmãos e maridos tinham sido enviados para combater na Ucrânia e poderiam não regressar a casa.

O governo russo reagiu de imediato, com o deputado russo Boris Chernyshev a afirmar que a "enorme onda de informações" é falsa e que precisava de ser "travada".

"As pessoas estão a mostrar mentiras. Estão a mostrar o que são, supostamente, soldados nossos mortos. Isso precisa de ser travado", afirmou.

Quem não teve pudor em tornar públicos os ataques foi o ministro da Defesa, que esta terça-feira admitiu que a Rússia planeava atacar vários alvos de Kiev e chegou mesmo a dizer aos cidadãos que vivem perto de infraestruturas de espionagem na capital ucraniana que abandonem as suas casas. 

"Para travar os ataques informáticos contra a Rússia, ataques com armas de alta precisão vão ser conduzidos contra infraestruturas dos Serviços de Segurança e contra a Unidade de Operações Psicológicas em Kiev. Pedimos aos residentes que vivam perto dessas zonas para deixarem as suas casas", afirmou o porta-voz do Ministério da Defesa.

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