"Acordei com a sirene de ataque aéreo. Depois vimos uma bola de fogo": moradores de Kiev contam como sobreviveram a um ataque com drones Shahed

25 fev, 16:35
Ataque a prédio de Kiev com drones Shahed (Dan Bashakov/AP)

Episódio descrito como "de terror" aconteceu no mês de outubro do ano passado

“Era por volta das três da manhã. A minha mulher estava a dormir. Acordei com a sirene de ataque aéreo. Depois vimos uma bola de fogo, uma luz ofuscante. Durante instantes deixámos de ver. A explosão… não a ouvi, senti o prédio a tremer.” O testemunho é de Volodymyr, de 70 anos, residente no centro de Kiev.

Era madrugada quando a rotina de um prédio de 17 andares junto à estação de metro de Zvirynetska se desfez em segundos. Um drone Shahed embateu no edifício e obrigou dezenas de moradores a lutar pela sobrevivência entre chamas, fumo e estilhaços.

Nessa sexta-feira, 10 de outubro, uma vaga de mísseis e drones russos atingiu infraestruturas energéticas e zonas residenciais em várias regiões da Ucrânia, deixando mais de metade da capital sem eletricidade.

Volodymyr vive no 16.º andar do prédio atingido e recorda o impacto como um momento suspenso no tempo ao Kyiv Post. “As janelas e as portas foram arrancadas. A minha mulher caiu da cama e rastejou por cima de vidro partido. O fumo encheu o apartamento em minutos. Gritei: ‘Para o elevador!’ Pegámos no que conseguimos e corremos.”

O drone atingiu a parte central da estrutura, destruindo apartamentos entre o 6.º e o 11.º pisos. Nos andares inferiores, a água usada pelos bombeiros para extinguir as chamas acabou por inundar várias habitações.

Prédio de Kiev
Minutos depois do ataque estava assim o prédio onde vivia Volodymyr (Dan Bashakov/AP)

Oficialmente não foram registadas mortes, ainda que Volodymyr defenda que “dois vizinhos morreram por inalação de fumo”. “Um idoso não resistiu depois de ser hospitalizado. A minha mulher magoou-se gravemente numa perna e não conseguiu andar durante duas semanas. Havia pessoas com o cabelo a arder. Foi o caos”, lembra ao Kyiv Post.

Noutra entrada do edifício, Lighti Biryukova, de 35 anos, enfrentou a mesma madrugada de terror. Nesse dia, tinha a mãe em casa. “Estávamos a dormir num quarto e não no corredor, como é habitual”, conta.

“Começaram a cair vidros da varanda. Ao início pensei que fosse apenas o efeito da onda de choque. Depois senti o cheiro a fumo. O nosso prédio estava a arder, perto da segunda entrada.”

Apesar do medo, garante que manteve a lucidez. “Tenho um transtorno de ansiedade, por isso estava preparada. Imaginava situações destas todos os dias. Primeiro: sobreviver, sem pânico.”

A destruição deixou um rasto de sofrimento entre vizinhos. “A minha professora de Física sofreu queimaduras graves e o marido morreu no dia seguinte. Um gato inalou fumo e teve queimaduras, mas foi salvo. Um cão pequeno não sobreviveu”, relata ainda Lighti.

Quatro meses se passaram desde o episódio marcante, mas várias dificuldades ainda persistem. Ouvidos pelo mesmo jornal, os moradores queixam-se agora de falta de condições. “Temos eletricidade, mas não aquecimento”, explica Lighti. “Os elevadores congelam. Às vezes não há água. Usamos aquecedores a gás, lareiras a bioetanol emprestadas por amigos, aquecedores improvisados com tijolos e velas. Dormimos em sacos-cama. A cozinha é a divisão mais quente.”

A guerra atingiu na passada terça-feira a marca dos 4 anos. Assim como em Kiev, várias são as localidades que por esta altura atravessam falhas de eletricidade e falta de aquecimento numa altura em que o país continua a atravessar temperaturas gélidas.

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