Episódio descrito como "de terror" aconteceu no mês de outubro do ano passado
“Era por volta das três da manhã. A minha mulher estava a dormir. Acordei com a sirene de ataque aéreo. Depois vimos uma bola de fogo, uma luz ofuscante. Durante instantes deixámos de ver. A explosão… não a ouvi, senti o prédio a tremer.” O testemunho é de Volodymyr, de 70 anos, residente no centro de Kiev.
Era madrugada quando a rotina de um prédio de 17 andares junto à estação de metro de Zvirynetska se desfez em segundos. Um drone Shahed embateu no edifício e obrigou dezenas de moradores a lutar pela sobrevivência entre chamas, fumo e estilhaços.
Nessa sexta-feira, 10 de outubro, uma vaga de mísseis e drones russos atingiu infraestruturas energéticas e zonas residenciais em várias regiões da Ucrânia, deixando mais de metade da capital sem eletricidade.
Volodymyr vive no 16.º andar do prédio atingido e recorda o impacto como um momento suspenso no tempo ao Kyiv Post. “As janelas e as portas foram arrancadas. A minha mulher caiu da cama e rastejou por cima de vidro partido. O fumo encheu o apartamento em minutos. Gritei: ‘Para o elevador!’ Pegámos no que conseguimos e corremos.”
O drone atingiu a parte central da estrutura, destruindo apartamentos entre o 6.º e o 11.º pisos. Nos andares inferiores, a água usada pelos bombeiros para extinguir as chamas acabou por inundar várias habitações.
Oficialmente não foram registadas mortes, ainda que Volodymyr defenda que “dois vizinhos morreram por inalação de fumo”. “Um idoso não resistiu depois de ser hospitalizado. A minha mulher magoou-se gravemente numa perna e não conseguiu andar durante duas semanas. Havia pessoas com o cabelo a arder. Foi o caos”, lembra ao Kyiv Post.
Noutra entrada do edifício, Lighti Biryukova, de 35 anos, enfrentou a mesma madrugada de terror. Nesse dia, tinha a mãe em casa. “Estávamos a dormir num quarto e não no corredor, como é habitual”, conta.
“Começaram a cair vidros da varanda. Ao início pensei que fosse apenas o efeito da onda de choque. Depois senti o cheiro a fumo. O nosso prédio estava a arder, perto da segunda entrada.”
Apesar do medo, garante que manteve a lucidez. “Tenho um transtorno de ansiedade, por isso estava preparada. Imaginava situações destas todos os dias. Primeiro: sobreviver, sem pânico.”
A destruição deixou um rasto de sofrimento entre vizinhos. “A minha professora de Física sofreu queimaduras graves e o marido morreu no dia seguinte. Um gato inalou fumo e teve queimaduras, mas foi salvo. Um cão pequeno não sobreviveu”, relata ainda Lighti.
Quatro meses se passaram desde o episódio marcante, mas várias dificuldades ainda persistem. Ouvidos pelo mesmo jornal, os moradores queixam-se agora de falta de condições. “Temos eletricidade, mas não aquecimento”, explica Lighti. “Os elevadores congelam. Às vezes não há água. Usamos aquecedores a gás, lareiras a bioetanol emprestadas por amigos, aquecedores improvisados com tijolos e velas. Dormimos em sacos-cama. A cozinha é a divisão mais quente.”
A guerra atingiu na passada terça-feira a marca dos 4 anos. Assim como em Kiev, várias são as localidades que por esta altura atravessam falhas de eletricidade e falta de aquecimento numa altura em que o país continua a atravessar temperaturas gélidas.