Enquanto Putin e Xi coreografavam, na Europa o ambiente era tudo menos jovial

CNN , Opinião de Frida Ghitis
17 mai, 10:50
Putin e Xi Jinping (EPA)

OPINIÃO || É altura de "nos prepararmos urgentemente porque pode vir a ser muito pior" do que tem sido

O ataque relâmpago de Putin fez a Europa acordar

por Frida Ghitis

nota do editor Frida Ghitis, antiga produtora e correspondente da CNN, é colunista de assuntos mundiais. É colaboradora semanal de opinião da CNN, colunista colaboradora do Washington Post e colunista sénior da World Politics Review. As opiniões manifestadas neste artigo são da inteira responsabilidade da autora

 

Foi uma demonstração de força cuidadosamente coreografada em Pequim, esta quinta-feira, quando o presidente russo Vladimir Putin chegou para mais uma reunião com o seu homólogo chinês, Xi Jinping. Eram só sorrisos. Entretanto, e na Europa, o ambiente dificilmente poderia ser menos jovial.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico foi baleado várias vezes e ficou gravemente ferido numa tentativa de homicídio. Fico está agora fora de perigo, mas muitos pormenores sobre o tiroteio ainda não são claros. Mas este acontecimento dramático veio aumentar a sensação de crise em toda a região; a sensação de que, por muito tensa que seja a situação, é altura de nos prepararmos urgentemente, porque pode vir a ser muito pior.

Nos dez dias que se seguiram à tomada de posse de Putin para mais um mandato - o seu quinto como presidente da Rússia - as suas forças lançaram um ataque surpresa no nordeste da Ucrânia, aproximando-se da segunda maior cidade do país, Kharkiv, e conquistando várias aldeias ucranianas.

O ataque relâmpago da Rússia, de acordo com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que cancelou todas as suas deslocações ao estrangeiro, tem como objetivo forçar a Ucrânia a reforçar as suas defesas.

Em termos estratégicos, a ofensiva de Moscovo reforçou a sua posição no terreno antes da chegada das prometidas armas americanas à Ucrânia. Em termos políticos, ocorre meses antes do possível regresso ao poder do antigo presidente Donald Trump, que indicou que não manterá o nível de apoio do presidente Joe Biden a Kiev.

Fazendo eco do alarme entre os apoiantes da Ucrânia, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Cameron, chamou-lhe um "momento extremamente perigoso". A Rússia, acrescentou, tinha efetivamente "voltado a invadir".

Para piorar a situação, os europeus viram os aliados de Putin na Geórgia, uma antiga república soviética, ignorar os protestos maciços nas ruas e aprovar o chamado projeto de lei dos "agentes estrangeiros", que é quase uma cópia a papel químico de um projeto utilizado pelo Kremlin para esmagar a oposição pró-democracia. Foi uma vitória para Moscovo e uma derrota para a grande maioria dos georgianos que desejam ardentemente que o país adira à União Europeia democrática.

Garantir vitórias sem entrar em guerra é mais barato. É por isso que Moscovo se está a intrometer na Moldova, outra antiga república soviética que espera aderir à União Europeia, e é por isso que há cada vez mais provas de campanhas russas em curso para interferir nas muitas eleições que estão a decorrer na Europa e noutros locais, introduzindo desinformação e alimentando tensões políticas.

Curiosamente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros eslovaco acusou a Rússia de interferir nas eleições eslovacas que levaram Fico - um admirador de Putin - ao poder. (Moscovo negou as acusações).

Em declarações aos meios de comunicação social à porta do hospital que trata Fico, na quarta-feira, o ministro do Interior do país avisou que a Eslováquia está "à beira de uma guerra civil" devido às tensões políticas. O ministro também descreveu o ataque como tendo motivações políticas, afirmando que o suspeito terá dito aos agentes da autoridade que não concordava com as políticas de Fico.

Agentes de segurança transportam o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico num carro após a tentativa de homicídio em Handlova, Eslováquia, na quarta-feira, 15 de maio. Radovan Stoklasa/Reuters

O que começou como uma invasão russa da Ucrânia há mais de dois anos transformou-se num desafio histórico para a Europa. Com o avanço da Rússia na Ucrânia, toda a região está a acordar para o facto de que este conflito é mais do que a sobrevivência de uma antiga república soviética. A cada dia que passa, torna-se mais incontornável a dura realidade de que o que começou na Ucrânia irá mudar a Europa nos próximos anos.

No início desta semana, em Moscovo, Putin tomou outra medida surpreendente, ao demitir o ministro da Defesa de longa data, Sergei Shoigu. Substituiu-o por Andrey Belousov, um antigo funcionário do governo que é economista e bem versado em "assuntos do complexo militar-industrial", segundo os especialistas, o que sugere que o plano é transformar a Rússia numa verdadeira economia de guerra.

Agora, também a Europa está a acelerar os próprios preparativos, não só para apoiar a Ucrânia, mas também para se defender.

Ainda não há muito tempo, a Ucrânia parecia estar em vantagem, tendo empurrado a Rússia para fora dos territórios que invadiu. Agora tudo isso mudou.

Frida Ghitis

Ainda não há muito tempo, a Ucrânia parecia estar em vantagem, tendo empurrado a Rússia para fora dos territórios que invadiu. Agora tudo isso mudou. Quando os republicanos de extrema-direita da Câmara dos Representantes dos EUA empataram um pacote de ajuda militar durante seis meses, a Rússia virou a maré.

A ajuda foi aprovada no mês passado, mas já era demasiado tarde. Vai demorar algum tempo até que a ajuda chegue e, mesmo assim, o desequilíbrio nos fornecimentos militares vai continuar.

A economia militarizada da Rússia, sob um sistema que não aceita queixas, com Putin em pleno controlo, não só está a receber armamento do Irão e da Coreia do Norte e, segundo os EUA, ajuda fundamental da China - o que este país nega, afirmando ironicamente que é neutro. A Rússia está também a produzir três vezes mais munições do que os apoiantes da Ucrânia.

Com as forças russas a avançar e com Putin a enquadrar o conflito como um conflito contra o Ocidente, a Europa lançou um esforço em grande escala para se preparar para o pior. Quando os historiadores olharem para este momento, não poderão afirmar que a Europa ignorou a ameaça, mesmo que as longas décadas pós-Guerra Fria, como agora sabemos, tenham sido marcadas por um otimismo excessivo sobre o poder duradouro da paz e da democracia.

A Noruega, que partilha uma fronteira crucial com a Rússia no Ártico, é membro da NATO mas não da UE. O país acaba de anunciar um plano de expansão militar maciço para 12 anos. Até 2036, o seu orçamento para a defesa irá duplicar e o seu exército terá o triplo do número de brigadas.

Em Londres, o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, anunciou recentemente um grande aumento das despesas com a defesa para colocar o país "em pé de guerra".

Nos Países Baixos, onde o primeiro-ministro cessante Mark Rutte é um dos favoritos para se tornar o novo chefe da NATO, o orçamento da defesa deverá duplicar, passando de 15,6 mil milhões de dólares em 2022, quando a Rússia lançou a guerra, para 31,2 mil milhões de dólares em 2029.

O presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente chinês, Xi Jinping, assistem a um concerto que assinala o 75.º aniversário do início das relações diplomáticas entre a Rússia e a China, na quinta-feira, 16 de maio de 2024. O encontro teve lugar numa altura em que a Rússia está a ganhar terreno na Ucrânia. Alexander Ryumin/Pool/AFP/Getty Images

Talvez o mais dramático seja o facto do presidente francês Emmanuel Macron ter recusado a hipótese de enviar tropas ocidentais para a Ucrânia. No início do mês, Macron afirmou que a questão se colocaria legitimamente se a Rússia ultrapassasse a linha da frente e Zelensky pedisse reforços.

Os comentários de Macron foram rejeitados pelos aliados europeus, que continuam a recear provocar um confronto direto com Putin.

De facto, esse medo tornou-se um grande constrangimento para os soldados ucranianos no terreno: a Casa Branca proíbe a Ucrânia de atingir alvos dentro da Rússia com as armas que fornece. De acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, esta política "está a comprometer gravemente a capacidade da Ucrânia de se defender contra as operações ofensivas russas" na região de Kharkiv, criando um "santuário" para a Rússia atacar a Ucrânia a partir das zonas fronteiriças.

Já é mais do que tempo de aliviar essas restrições. A Ucrânia deve ser autorizada a defender-se, mesmo que isso signifique atacar dentro das fronteiras russas. O custo de permitir que Putin subjugue a Ucrânia é, como está a tornar-se cada vez mais claro, demasiado elevado.

Ao mesmo tempo que rejeita a ideia de enviar tropas para a Ucrânia, a Alemanha está aparentemente a preparar-se para reintroduzir o serviço militar obrigatório. Um documento divulgado revelou que Berlim está a considerar a possibilidade de impor o serviço militar obrigatório a homens e mulheres de 18 anos, um sinal de que a atual crise se tornou um ponto de viragem nas opiniões sobre a segurança nacional e regional, com repercussões que se prolongarão durante anos, independentemente de como e quando esta guerra terminar.

Os preparativos para uma possível guerra são mais surpreendentes na Finlândia, que partilha a fronteira mais longa da Europa com a Rússia e que já perdeu território para as invasões do Kremlin. A Finlândia construiu não só os seus abrigos para civis e as suas reservas de armas, munições e combustível, mas também de cereais para alimentar a população.

"A Rússia respeita o poder", disse o tenente-general finlandês Mikko Heiskanen, descrevendo um plano plurianual de preparação para a defesa do país.

Talvez Putin e Xi encontrem mais razões para sorrir neste momento, mas os europeus querem ter a certeza de que essa é apenas uma situação temporária.

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