Eleito para transformar o país, Starmer deixa Downing Street como o primeiro-ministro mais impopular de sempre. Quando o sucessor for escolhido, tornar-se-á o sétimo primeiro-ministro britânico em apenas uma década
Em julho de 2024, o Partido Trabalhista conquistou uma vitória esmagadora nas eleições gerais, depois de 14 anos afastado do poder. Mas o governo britânico demorou menos de 24 meses a desmoronar-se.
O partido tinha prometido pôr fim à instabilidade que marcou a liderança dos governos conservadores, mas, esta segunda-feira, Keir Starmer anunciou que vai deixar a liderança trabalhista apenas dois anos depois de assumir funções. Quando o sucessor for escolhido, tornar-se-á o sétimo primeiro-ministro britânico em apenas uma década.
Há menos de dois anos, Starmer conduziu os trabalhistas à maior maioria parlamentar deste século, infligindo aos conservadores a pior derrota da sua história. Mas a opinião pública britânica começou a afastar-se dele quase imediatamente após a eleição. Sobreviveu a vários meses de polémicas, mas a pressão para abandonar o cargo acabou por se tornar insustentável. Starmer deixa funções como o primeiro-ministro mais impopular de que há registo.
Ainda assim, existe no Reino Unido um sentimento de perplexidade sobre a rapidez com que tudo correu mal. Ao contrário de alguns antecessores, Starmer não envolveu o país numa guerra estrangeira impopular, não falhou na resposta a uma pandemia nem provocou um colapso económico.
Os seus erros foram mais mundanos: uma tentativa de fazer com que os pensionistas com maiores rendimentos contribuíssem mais para aquecer as suas casas; um plano para reduzir alguns apoios a pessoas com deficiência; a aceitação de ofertas e benefícios; e, nos últimos meses, a polémica em torno da nomeação de Peter Mandelson, ligado a Jeffrey Epstein, para embaixador britânico em Washington.
Os erros políticos, por si só, não explicam a queda de Starmer. Existem outros dois fatores evidentes.
O primeiro foi a herança recebida. Quando assumiu o cargo, o Reino Unido estava desgastado pelo programa de austeridade dos conservadores. Essa década de contenção da despesa pública tinha como objetivo reduzir a dívida do país e ajudar à recuperação após a crise financeira de 2008, mas falhou em ambos os objetivos: a dívida disparou e o crescimento económico manteve-se anémico.
Cansados da estagnação, os britânicos ansiavam por tempos melhores e esperavam que os trabalhistas os proporcionassem. Quando o Partido Trabalhista chegou ao poder pela última vez, em 1997, foi impulsionado por uma onda de otimismo ao som de "Things Can Only Get Better", dos D:Ream.
Starmer adotou um tom muito diferente. No seu primeiro grande discurso como primeiro-ministro, afirmou que seriam necessários anos para reconstruir as bases do país e avisou que "as coisas vão piorar antes de melhorarem". Depois do mandato de Boris Johnson, marcado por promessas ambiciosas e frequentemente contraditórias, alguns acreditaram que os britânicos estavam preparados para ouvir verdades difíceis e perdoariam a pesada herança recebida por Starmer. Estavam enganados.
Uma ideologia que nunca chegou a existir
A segunda razão para a queda de Starmer foi mais pessoal. Nunca conseguiu apresentar uma filosofia política simples e facilmente identificável.
Sem uma narrativa capaz de unir o seu projeto governativo, muitas decisões dos trabalhistas pareceram arbitrárias. Starmer fracassou, em parte, porque o chamado "starmerismo" nunca chegou verdadeiramente a existir.
Em vez de uma grande ideia política, Starmer representava sobretudo o respeito pelos processos institucionais. Entrou na política em 2015, após uma carreira destacada no direito dos direitos humanos, durante a qual liderou o Ministério Público britânico.
Serviu no gabinete-sombra de Jeremy Corbyn, líder da ala mais à esquerda do Partido Trabalhista. Depois da pesada derrota eleitoral de 2019, foi escolhido para suceder a Corbyn, sendo visto como uma opção mais segura após anos de radicalismo partidário.
Na oposição, as suas capacidades de interrogatório político permitiram-lhe pressionar três primeiros-ministros conservadores. Aproveitando a indignação pública em torno do escândalo "Partygate" — em que governantes conservadores violaram as próprias regras de confinamento durante a pandemia de covid-19 — Starmer passou gradualmente a ser visto como um primeiro-ministro em espera.
Mas, à medida que os trabalhistas se aproximavam do poder, tornaram-se cada vez mais cautelosos. Mesmo quando as sondagens apontavam para uma vitória esmagadora antes das eleições de julho de 2024, o partido seguiu uma estratégia conhecida como "Ming Vase" ["Vaso Ming" na tradução literal, mas que significa extrema cautela], agindo como se um único deslize pudesse destruir a vantagem confortável que tinha nas intenções de voto.
Na tentativa de parecer o menos ameaçador possível, moderou as suas ambições governativas e recusou sonhar em grande.
Essa prudência acabou por ter custos.
Os conservadores, antecipando uma derrota pesada, anunciaram cortes fiscais significativos antes das eleições, esperando que os trabalhistas fossem obrigados a aumentar impostos depois de chegarem ao poder, dada a fragilidade das finanças públicas britânicas.
Em vez disso, para evitar reforçar a imagem do Partido Trabalhista como "o partido dos aumentos de impostos", Starmer excluiu aumentos nas três principais fontes de receita fiscal, incluindo o imposto sobre o rendimento.
Os trabalhistas desperdiçaram assim a oportunidade de explicar aos eleitores a necessidade de aumentar impostos para recuperar serviços públicos enfraquecidos por anos de austeridade conservadora.
A decisão tomada ainda na oposição transformou-se numa camisa de forças quando chegaram ao governo. O partido acabou por aumentar impostos através de fontes menores e politicamente mais vulneráveis.
Pouco depois de assumir funções, o governo anunciou o fim de um subsídio universal destinado a ajudar os idosos a pagar as contas de aquecimento durante o inverno, ao mesmo tempo que avançava com cortes em alguns apoios atribuídos a pessoas com deficiência.
Perante a contestação, recuou em ambas as medidas.
Para os eleitores de esquerda, o Partido Trabalhista pareceu insensível. Para os mercados financeiros, pareceu incapaz de tomar decisões difíceis.
A imigração, os escândalos e a erosão da confiança
Se a política económica parecia sem rumo, o mesmo acontecia com a posição do governo sobre a imigração.
Starmer declarou cedo que o Reform UK era a principal ameaça eleitoral para os trabalhistas, elevando o partido da direita radical — que conquistou apenas cinco lugares no parlamento em 2024 — ao estatuto de oposição de facto.
Durante meses, os trabalhistas tentaram travar o crescimento do Reform UK através de uma retórica e de políticas migratórias mais duras, destinadas a atrair eleitores conservadores.
A estratégia teve o efeito contrário.
O partido alienou parte da sua base progressista, muitos dos quais migraram para os Liberais-Democratas ou para os Verdes, enquanto o Reform continuou a subir nas sondagens.
Quando Starmer tentou posteriormente suavizar a sua posição sobre a imigração, a mudança pareceu pouco credível.
O seu governo também foi abalado por vários escândalos.
Starmer foi criticado depois de se saber que tinha aceite mais ofertas e benefícios do que qualquer outro membro do parlamento anterior, incluindo bilhetes para concertos de Taylor Swift e jogos do Arsenal.
A polémica talvez não tivesse sido tão prejudicial se Starmer não tivesse construído a sua imagem em torno da transparência e do respeito pelas regras, prometendo afastar-se do alegado compadrio associado aos anos de governação conservadora.
Mas o episódio mais prejudicial envolveu a nomeação de Peter Mandelson para o prestigiado cargo de embaixador britânico em Washington, apesar das conhecidas ligações do veterano político trabalhista ao pedófilo Jeffrey Epstein.
Embora Starmer tenha afastado Mandelson em setembro, quando essas ligações se tornaram mais claras, continuou durante meses sob pressão para explicar o que sabia e quando soube da avaliação feita pelos serviços de segurança sobre a idoneidade de Mandelson para ocupar um dos mais importantes cargos diplomáticos britânicos.
No final, o líder que pretendia representar o rigor institucional acabou derrubado precisamente pela incapacidade do seu governo em respeitar esses princípios.
A pesada derrota sofrida pelos trabalhistas nas eleições locais de maio apenas evidenciou a profundidade da quebra de popularidade do executivo, desencadeando uma lenta disputa pela sucessão.
Quando Andy Burnham venceu de forma expressiva o candidato do Reform numa eleição intercalares na semana passada, garantindo um lugar no parlamento e a possibilidade de lançar uma candidatura à liderança, tornou-se evidente que os dias de Starmer em Downing Street estavam contados.
Outras figuras seniores do Partido Trabalhista poderão também entrar na corrida, sendo esperado que o novo líder esteja em funções antes do início da próxima sessão parlamentar, em setembro.
Um político fora do seu tempo
Os defeitos de Starmer poderiam ter sido perdoados se fosse mais carismático ou tivesse apresentado um plano mais ousado para governar.
Mas acabou por ser visto como um gestor, convencido de que os problemas do Reino Unido poderiam ser resolvidos através de pequenos ajustes, em vez de mudanças profundas.
Na ausência de uma visão clara, prometeu sobretudo trabalho árduo para "eliminar 14 anos de degradação".
Comprometeu-se a reconstruir as relações com a Europa, deterioradas após as difíceis negociações do Brexit, e a melhorar os laços com a China, que tinham entrado numa espécie de "era glaciar" durante os governos conservadores.
Prometeu reduzir as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde (NHS), construir mais habitação e baixar as despesas das famílias.
Avisou repetidamente que os resultados não seriam imediatos.
Mas o país queria respostas mais rápidas.
Ao anunciar a sua demissão em frente ao número 10 de Downing Street, Starmer insistiu que deixava o Partido Trabalhista — e o Reino Unido — numa situação melhor do que aquela que encontrou ao assumir funções.
Ainda assim, reconheceu que existiam dúvidas sobre a sua capacidade para liderar o partido nas próximas eleições gerais.
"Ouvi a resposta do meu grupo parlamentar a essa questão e aceito essa resposta com serenidade", afirmou. "Todas as decisões que tomei tiveram como objetivo colocar em primeiro lugar o país que amo. É por isso que me vou demitir da liderança do Partido Trabalhista."
A imagem que deixa é a de um homem que talvez tivesse sido um primeiro-ministro competente no século XX, quando mais decisões eram tomadas longe dos holofotes e a governação decorria de forma discreta.
Mas no seu próprio tempo — menos paciente e mais visual — acabou por não conseguir adaptar-se.
