Keir Starmer está numa corrida contra o tempo.
No Golfo, onde aterrou ontem, o primeiro-ministro britânico está a encontrar-se com líderes na região para garantir que, quando voltar ao Reino Unido, volta com a certeza de que o acordo de cessar-fogo entre o Irão e os Estados Unidos se mantém intacto e, acima de tudo, que o Estreito de Ormuz fica aberto.
A visita já estava planeada antes do cessar-fogo ter sido anunciado, mas não podia ter chegado numa altura mais determinante. Em Taif, de visita a uma base aérea saudita, Starmer reconheceu que “há muito trabalho a fazer”. Hoje, depois de se encontrar com aliados, reiterou a fragilidade do acordo e disse que é preciso “mais do que palavras” para tornar o cessar-fogo permanente.
E até agora, “palavras” têm sido precisamente o que o Reino Unido tem oferecido mais. Enquanto os Estados Unidos endurecem o tom contra o Irão, os britânicos têm assumido a liderança nas conversações diplomáticas entre vários países para tentar resolver o conflito de forma pacífica. As razões são simples: a Grã-Bretanha tem muito a perder.
Apesar da guerra estar a acontecer a milhares de quilómetros das costas frias do Atlântico, o impacto já se sente na Grã-Bretanha, que importa a maior parte do petróleo e gás natural que usa. Mesmo depois do anúncio do cessar-fogo, os preços do gasóleo e da gasolina continuam muito acima de onde estavam, e espera-se que as faturas da energia continuem a subir nos próximos meses para milhões de britânicos.
O momento é, portanto, crítico — e pode ser uma oportunidade ou um risco para o primeiro-ministro.
Com as eleições autárquicas de maio quase aí, os trabalhistas preparam-se para uma noite difícil, e uma noite que pode determinar o futuro do partido depois de meses marcados por desafios políticos para o governo. Neste momento, o partido continua atrás do Reform, dos conservadores e dos verdes, o que tem aumentado a pressão sobre a liderança trabalhista.
Mas para Starmer, a guerra tem sido, de alguma forma, uma tábua de salvação. Ao contrário de figuras políticas como Nigel Farage e Kemi Badenoch, que inicialmente apoiaram os ataques ao Irão mais tarde recuaram, Starmer manteve a postura desde o início: a Grã-Bretanha não seria arrastada para uma guerra que não é sua. Mesmo quando foi criticado pelo presidente norte-americano por não permitir o uso de bases britânicas para ataques ofensivos, Starmer não cedeu. E, pelo menos neste ponto, muitos eleitores concordam com o primeiro-ministro.
É uma mensagem que tem resultado, “Os interesses britânicos em primeiro lugar”. Mas muito ainda pode mudar até maio.
Se o acordo de cessar-fogo se firmar, o primeiro-ministro poderá reivindicar o mérito de ter ajudado a travar a guerra e encontrar estabilidade — mas há o risco desse ganho diplomático se esvair rapidamente e deixar à vista o rombo económico que as famílias britânicas já estão a sentir. Se, pelo contrário, a trégua se desfizer, o conflito volta a acender o holofote sobre Starmer e pode dar-lhe um palco para provar que está à altura do desafio, ou deixá-lo ainda mais exposto a críticas, dependendo do que vier depois.
Seja como for, sobre uma coisa não há dúvidas: a contagem decrescente para as eleições não para, e Starmer não tem um minuto a perder.