Como começou: com uma maioria. Como está a correr: demissão. Como a queda de Keir Starmer se deu por dentro do seu partido

22 jun, 17:25
Keir Starmer, princípio e fim
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Veja as fotos de cima: à esquerda, 5 de julho de 2024, Keir Starmer frente ao n.º 10 de Downing Street onde se prepara para entrar pela primeira vez como PM, depois de uma vitória esmagadora, mas também uma tarefa gigantesca de revitalizar uma economia estagnada e uma nação desanimada; à direita, 22 de junho de 2026, Keir Starmer faz uma declaração à imprensa à porta do n.º 10 de Downing Street para anunciar a sua demissão. Da entrada triunfante à saída, derrotado e sem apoio, o que aconteceu?

Quando entrou pela primeira vez pela porta do número 10 de Downing Street, há quase dois anos, Keir Starmer entrou triunfante.

Relativamente novo no mundo da política, Starmer tinha acabado de vencer as eleições gerais com o melhor resultado para os trabalhistas numa geração e conquistado uma maioria que até aí parecia impossível. E no papel, era tudo o que o país precisava, depois de vários anos de governos conservadores turbulentos: um homem sério e competente que prometia governar sem dramas.

Mas as coisas não correram como esperado.

Ao longo de dois anos, Starmer foi perdendo a confiança dos eleitores e do seu próprio partido e, esta segunda-feira, quando saiu pela mesma porta, foi para anunciar a sua demissão, derrotado e emocionado.

Uma série de pequenos cortes

No discurso em frente ao número 10, Starmer começou por enumerar várias das conquistas do seu mandato e dos desafios que enfrentou. E, de facto, foi uma sucessão de pequenos cortes, mais do que um golpe fatal, que provocaram a hemorragia de apoio aos trabalhistas e ao primeiro-ministro.

A economia não recuperou rápido o suficiente. As mudanças que os trabalhistas tinham prometido ficaram aquém das expectativas e o governo teve de recuar várias vezes. Houve o escândalo de Peter Mandelson, o homem que Starmer nomeou para embaixador em Washington e que teve de se demitir depois de virem a público os pormenores da sua relação com Jeffrey Epstein, e que colocou em causa o discernimento de Starmer. E depois houve Gaza, e a forma como Starmer lidou com uma crise internacional que afastou uma parte significativa da base tradicional do partido.

Mas para Shakuntala Banaji, professora de media na London School of Economics (LSE), o problema é maior que uma soma de erros e que a alegada falta de carisma de Starmer. “Não é bem uma questão de carisma”, diz Banaji. “É uma questão de princípios e de carácter”. E muitos eleitores passaram a ver Starmer como mais um político a ceder em matérias fundamentais para correr atrás dos votos da extrema-direita.

E mesmo que, nos últimos meses, Starmer tenha sido elogiado pela forma como tem lidado com a crise no Médio Oriente e a relação com Donald Trump, recusando envolver a Grã-Bretanha na guerra com o Irão, não foi suficiente. Os estragos já estavam feitos.

As autárquicas de maio — o ponto de viragem

O ponto de viragem foram as eleições autárquicas do mês passado. Até aí, Starmer tinha conseguido sobreviver a todas as crises, de uma forma ou outra. Mas depois de o Labour ter tido os piores resultados em anos nos municípios, face ao crescimento extraordinário da extrema-direita, uma boa parte do partido trabalhista virou-se contra o primeiro-ministro.

Depois disso, seguiram-se semanas de guerra civil — de um lado, os trabalhistas que achavam que Starmer devia continuar, e do outro, quem considerava que o primeiro-ministro tinha ficado sem pernas para levar o partido até às próximas eleições gerais. Ministros demitiram-se e cada vez mais deputados vieram a público para pedir publicamente a sua saída.

Muitos começaram também a olhar para outras figuras dentro do partido capazes de liderar o país, nomeadamente Andy Burnham, que já tinha estado no governo e que se tornou uma das caras mais populares do partido.

Makerfield — a gota de água

Starmer manteve a posição de que não ia embora pelo próprio pé e que ia lutar até ao fim para evitar ainda mais instabilidade política.

Mas a gota de água foi uma pequena eleição em Makerfield, perto de Manchester, uma localidade com cerca de 70 mil eleitores que foi convocada de propósito depois de um deputado trabalhista ter cedido o seu lugar para que Andy Burnham se pudesse candidatar ao parlamento britânico e desafiar formalmente Starmer — sem assento no parlamento, Burnham não podia disputar a liderança do partido.

Esse foi o verdadeiro teste. E Burnham não podia ter tido um resultado melhor: venceu com mais de 50% dos votos, bem acima das sondagens, que previam uma corrida renhida contra o Reform, o que para os trabalhistas provou que Burnham consegue fazer frente à extrema-direita e voltar a unir o partido. Burnham já confirmou, depois do anúncio de Starmer, que vai concorrer à liderança trabalhista.

Mas Banaji é mais cética e vê em Burnham uma continuação do projeto do “novo” Labour que, para si, foi o que realmente derrotou Starmer. “Ele não oferece nada de radical. Espero que Burnham perceba que os conselhos que lhe estão a dar sobre que políticas tomar são os mesmos que afundaram o barco de Starmer”. É uma opinião partilhada por eleitores que acham que mudar o líder do partido não vai mudar a perceção pública do governo se as políticas não forem repensadas.

A demissão de Starmer diz alguma coisa sobre ele — sobre o seu discernimento, os seus recuos, e a sua incapacidade de entusiasmar. Mas para muitos britânicos, diz ainda mais sobre um partido que se perdeu a correr atrás do eleitorado da extrema-direita e um país profundamente fracturado, a caminho do seu sétimo primeiro-ministro em dez anos.

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