opinião
Comentador da CNN Portugal

O cemitério de Downing Street

11 mai, 13:47
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Clement Attlee, primeiro-ministro britânico nos pós segunda-guerra, dizia que: “a democracia não vive apenas de instituições; vive da confiança de que o futuro pode ser melhor do que o passado”. 

A frase pertence a um tempo distante, à Grã-Bretanha do pós-guerra, quando o Labour acreditava que podia reconstruir um país inteiro através de uma ideia clara de sociedade, de economia e de destino nacional. Hoje, mais de setenta anos depois, Keir Starmer enfrenta exactamente o problema inverso: governa um Reino Unido que já não sabe muito bem o que quer ser ou para onde quer ir. 

As eleições da última semana em Inglaterra, na Escócia e no País de Gales mostraram algo muito mais profundo do que um simples desgaste governativo: revelaram um país politicamente exausto, sem direcção estratégica clara e cada vez mais desconfiado do próprio sistema que o governa e dos partidos políticos tradicionais. 

Durante mais de um século, o Reino Unido viveu praticamente sob uma alternância previsível entre Conservadores e Trabalhistas. Mesmo nos períodos de crise económica ou social, existia sempre a ideia de que um dos dois partidos acabaria inevitavelmente por absorver o descontentamento nacional. Mas a História britânica já conheceu rupturas deste género.

No início do século XX, os liberais eram uma das grandes forças dominantes da política britânica. Tinham produzido figuras históricas como David Lloyd George, talvez um dos mais importantes primeiros-ministros da história moderna do Reino Unido, responsável pela liderança britânica durante a Primeira Guerra Mundial e por profundas reformas sociais e económicas. Durante décadas, parecia impossível imaginar um Reino Unido sem os liberais no centro do poder.

Mas a industrialização acelerada, o crescimento da classe operária e a emergência da política sindical mudaram completamente o equilíbrio político britânico. O Labour surgiu como expressão política dessa nova realidade social e acabou por substituir os liberais como principal força da esquerda britânica. Não aconteceu de um dia para o outro. Foi uma erosão lenta, quase imperceptível no início, até que um dos grandes pilares da política britânica simplesmente deixou de conseguir representar o país que existia à sua frente.

É precisamente essa memória histórica que hoje começa a assombrar Westminster.

Durante décadas, Downing Street funcionou quase como uma fábrica de figuras históricas. Winston Churchill, Clement Attlee, Harold Macmillan, Margaret Thatcher, Tony Blair. Independentemente do juízo político sobre cada um deles, existia a percepção de que o cargo de primeiro-ministro britânico produzia líderes capazes de transformar o país e marcar uma geração inteira. Hoje, Downing Street parece ter-se transformado exactamente no contrário: um lugar onde carreiras políticas entram rapidamente em decomposição.

O Reino Unido habituou-se a assistir ao colapso acelerado dos seus próprios líderes.

Depois de Tony Blair, praticamente nenhum primeiro-ministro conseguiu governar com estabilidade política duradoura ou apresentar uma visão transformadora para o país. Gordon Brown ficou esmagado pela crise financeira de 2008. David Cameron entrou para a História como o homem que abriu a porta ao Brexit sem possuir qualquer plano sério para o dia seguinte. Theresa May foi destruída pelas divisões internas dos conservadores. Boris Johnson venceu com uma maioria gigantesca, mas governou quase exclusivamente através da improvisação, da comunicação emocional e da gestão permanente da crise. Liz Truss sobreviveu semanas. Rishi Sunak herdou um partido exausto e um país sem rumo político evidente.

Nenhum deles conseguiu concluir o ciclo político que imaginava quando entrou em Downing Street.

Isso não é apenas coincidência. É sintoma.

O Reino Unido deixou de produzir grandes estratégias nacionais. E essa talvez seja a principal diferença entre a Grã-Bretanha actual e os tempos de Margaret Thatcher ou Tony Blair. Thatcher transformou radicalmente a economia britânica, redefiniu a relação entre Estado e mercado e alterou profundamente a identidade política conservadora. Blair reconstruiu o Labour, aproximou o Reino Unido da globalização, modernizou sectores do Estado e tentou apresentar Londres como uma potência cosmopolita do século XXI.

Foram provavelmente os dois últimos primeiros-ministros britânicos que governaram com um verdadeiro projecto de país.

Desde então, Westminster entrou numa espécie de administração permanente da decadência. Os governos passaram a gerir crises em vez de apresentar ambição nacional. O Brexit agravou brutalmente esse vazio estratégico.

Porque o Brexit foi apresentado como solução sem nunca ter sido acompanhado por uma visão concreta sobre aquilo que o Reino Unido queria construir depois da saída da União Europeia. A campanha prometeu soberania, crescimento económico, recuperação industrial e controlo político. O resultado foi um país mais fragmentado, mais polarizado e economicamente mais vulnerável.

As consequências tornaram-se visíveis em vários sectores. Pequenas e médias empresas perderam facilidade de acesso ao mercado europeu. O comércio externo tornou-se mais burocrático e mais caro. Sectores fundamentais passaram a enfrentar escassez de mão-de-obra. A economia britânica desacelerou. A produtividade caiu. E talvez mais importante do que tudo isso: o Reino Unido perdeu parte significativa da sua capacidade de influência política internacional.

Mas o Brexit não criou apenas problemas económicos. Criou ressentimento. E Nigel Farage percebeu isso antes de todos os outros.

O Reform UK já não é apenas uma extensão política do Brexit Party ou um simples instrumento de protesto eleitoral. Está lentamente a transformar-se numa força populista identitária semelhante à nova direita americana. O partido constrói-se em torno da ideia de traição das elites políticas, da crítica permanente ao multiculturalismo, da hostilidade à imigração e da percepção de que Westminster deixou de representar o país real.

Existe uma proximidade ideológica evidente entre o universo político de Farage e o ecossistema trumpista nos Estados Unidos. A lógica comunicacional é semelhante. A construção emocional do discurso também. A divisão entre “povo” e “establishment”, a guerra cultural permanente, o ataque às instituições tradicionais e a ideia de decadência nacional provocada pelas elites urbanas aproximam o Reform UK do modelo político americano que cresceu à volta de Donald Trump.

E isso representa um problema enorme para o Reino Unido. Porque a política britânica sempre assentou numa certa moderação institucional. Mesmo nos momentos de radicalização ideológica, existia normalmente um centro político suficientemente forte para absorver tensões sociais. Hoje, esse centro parece cada vez mais frágil.

É precisamente aqui que Keir Starmer começa a ter dificuldades sérias.

O primeiro-ministro britânico venceu as legislativas porque o país estava cansado dos conservadores. Mas vencer por desgaste do adversário é muito diferente de governar com uma visão mobilizadora. E esse talvez seja o maior problema político de Starmer: nunca conseguiu explicar de forma clara qual é o projecto nacional que pretende construir para o Reino Unido, afinal qual é o rumo a seguir? 

Existe agora uma tentativa de aproximação pragmática à Europa, sobretudo nas áreas económica, energética e de segurança. Existe também a percepção de que uma parte importante dos jovens britânicos olha hoje para a União Europeia de forma muito diferente daquela que existia durante o referendo do Brexit. Para muitos, a Europa representa oportunidade profissional, mobilidade académica e estabilidade económica e liberdade. 

Mas essa aproximação europeia aparece mais como mecanismo de sobrevivência política do que como verdadeira visão transformadora do país. E Westminster sente isso e o público também. 

As eleições locais em Inglaterra e os resultados na Escócia e no País de Gales foram interpretados dentro do Labour quase como uma demonstração de fragilidade existencial. Não apenas porque o partido perdeu terreno eleitoral, mas porque parece incapaz de gerar entusiasmo político duradouro. O eleitorado britânico olha para Starmer e vê competência administrativa. O problema é que dificilmente vê liderança histórica. Por isso começam a surgir discretamente conversas sobre a sucessão de um líder já cansado. 

O sistema parlamentar britânico permite mudanças rápidas de liderança sem necessidade de eleições antecipadas. O partido no poder pode substituir o líder e, automaticamente, substituir também o primeiro-ministro. Nos últimos anos, isso tornou-se quase rotina. O cargo perdeu parte da estabilidade simbólica que tinha no passado e perdeu totalmente a gravitas de outros tempos. 

E é precisamente isso que torna Downing Street tão perigosa atualmente.

O lugar que antes consagrava líderes históricos tornou-se um espaço de desgaste acelerado. Um corredor político onde carreiras promissoras entram rapidamente em erosão pública. O problema já não é apenas cair. É cair depressa.

Ao mesmo tempo, dentro do Labour, começam a surgir discretamente conversas sobre sucessão. O nome de Andy Burnham aparece cada vez mais nos corredores de Westminster. O mayor da Grande Manchester possui algo que muitos consideram faltar a Starmer: ligação emocional ao eleitorado tradicional, autenticidade política e capacidade de falar para além da bolha tecnocrática londrina.

A questão central é que talvez Keir Starmer já tenha chegado demasiado tarde ao momento político britânico. O Reino Unido não atravessa apenas uma crise partidária. Atravessa uma crise de identidade nacional, de representação política e de direcção estratégica.

E quando um país deixa de acreditar que os seus líderes sabem para onde querem levá-lo, as eleições transformam-se inevitavelmente em mecanismos de punição permanente.

É exatamente isso que começa a acontecer em Westminster.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas