A imagem, que se tornou um símbolo da reputação de "festeira" da supermodelo, acabou por ganhar um significado diferente daquele que o fotógrafo pretendia transmitir
Quando o fotógrafo Greg Brennan viu Kate Moss com um casaco de pele no fundo de uma escada de emergência, cigarro na mão, soube que tinha encontrado algo especial. Corria o ano de 2007 e ele não fazia ideia de que uma das fotografias resultantes - nem sequer a sua favorita daquela noite se tornaria um símbolo da "era de festas" da supermodelo e a imagem mais conhecida da sua carreira de quase quatro décadas.
Parte do fascínio duradouro da fotografia dos anos 2000 reside na sua banalidade. Naquele momento silencioso e desprevenido, Moss era apenas mais uma mulher na casa dos 30 a desfrutar de uma saída à noite. E, no entanto, talvez seja a única pessoa capaz de parecer tão elegante enquanto é apanhada de surpresa numa escadaria. "É uma espécie de mistura entre uma bailarina e Janis Joplin", afirma Brennan numa videochamada a partir da sua casa em Londres. "Tem muito rock ‘n’ roll."
Moss tinha desenvolvido uma reputação de gostar de sair à noite durante a era das "heroin chic" e das raparigas festeiras dos anos 90, enquanto a imprensa fazia o possível (ou talvez o pior possível?) para documentar cada um dos seus movimentos.
Nem tudo era o que parecia, porém. Desde logo, Brennan acredita que Moss estava completamente sóbria quando tirou a fotografia. "Li todo o tipo de disparates", acrescenta o fotógrafo, hoje com 53 anos, afirmando que a sua imagem mais famosa é também uma das mais mal compreendidas. "Li que tropeçou no vestido, que caiu nas escadas, que eram quatro da manhã - nada disso era verdade. Nada."
O novo livro de Brennan, "The Big Shot", pretende repor os factos. A obra descreve também a combinação de experiência e pura sorte que levou o fotógrafo britânico à porta das traseiras de um teatro londrino no dia do 33.º aniversário da modelo. (Os representantes de Moss não responderam ao pedido da CNN para obter a sua própria versão dos acontecimentos.)
Em 2007, Moss estava no auge da sua carreira. Foi o ano em que a revista Time a incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo e em que a Forbes a classificou como a segunda modelo mais bem paga do planeta (atrás apenas de Gisele Bündchen). Circulavam rumores de casamento em torno da sua relação com Pete Doherty, vocalista dos Babyshambles. Num contexto de intensa atenção mediática, Brennan foi destacado para o hotel The Dorchester, em Londres, para fotografar a festa de aniversário da modelo, que se tinha tornado "uma espécie de acontecimento mediático anual", recordou.
Pouco depois da sua chegada, espalhou-se entre os jornalistas a notícia de que Moss e Doherty ainda estavam a mais de um quilómetro e meio de distância, no Donmar Warehouse, um teatro no West End londrino. Brennan correu para lá, apenas para encontrar uma multidão de fotógrafos e curiosos a bloquear a entrada.
Então surgiu um golpe de sorte - ou de azar, como pareceu na altura: as pilhas do seu flash estavam quase descarregadas. Ao regressar ao carro, estacionado a algumas ruas de distância, lembrou-se de que o teatro tinha uma escada de emergência que funcionava também como saída traseira. (Aqui, a experiência revelou-se útil: no final dos anos 90, tinha fotografado Nicole Kidman a sair do edifício precisamente por essa porta.)
O fotógrafo fez um pequeno desvio "só para confirmar", recorda. "Ela estava simplesmente sentada nas escadas a fumar. Passei pela porta, olhei uma vez e percebi que tinha apenas alguns segundos, se tanto, para agir."
Enfiando a câmara pela porta entreaberta, Brennan disparou uma sequência de 10 fotografias. Enquanto o obturador fazia clique, ouviu um veículo chegar ao exterior. Só então percebeu o que estava a acontecer: o casal tinha enviado outro carro para a entrada principal como distração, enquanto saía discretamente pelas traseiras. Moss e Doherty (que está fora do enquadramento) abandonaram o local - e Brennan, num gesto que admite ter sido parte cortesia, parte instinto profissional, ajudou até a supermodelo a abrir a porta do carro, acelerando a partida. Afinal, os fotógrafos rivais aproximavam-se rapidamente e ele queria aquele momento só para si.
Brennan nem sequer regressou ao Dorchester. Enviou uma seleção de fotografias aos editores e foi para casa convencido de que tinha conseguido as melhores imagens da noite. O que não esperava era acordar e encontrar uma delas estampada em praticamente todos os tabloides britânicos.
Aconteceu que Brennan tinha um monopólio quase total da situação: Moss conseguira escapar às câmaras durante grande parte da noite, pelo que os jornais acabaram por publicar a fotografia da escadaria ao lado de relatos sobre as celebrações que se seguiram. O Daily Mail publicou a imagem acompanhada de notícias sobre uma festa de 24 horas "com bebida e dança sem parar". A legenda sugeria que a fotografia mostrava Moss a fazer uma "pausa na festa", e não simplesmente à espera de transporte. Outros meios publicaram a fotografia ao lado de notícias que davam conta de que Moss tinha festejado numa casa de banho (The Daily Mirror) ou discutido com Doherty no dia do aniversário (The Daily Star).
A imagem de Brennan tornou-se sinónimo de excessos por associação. Mas isso não surpreendeu ninguém numa época particularmente tóxica dos tabloides britânicos, que submetiam estrelas femininas - tanto britânicas como norte-americanas, como Lindsay Lohan e Britney Spears - a invasões de privacidade e perseguições públicas.
A narrativa mediática em torno de Moss era, na altura, a do excesso. Um escândalo relacionado com drogas, em 2005, levou à perda de vários contratos importantes de moda e desencadeou investigações por parte da polícia britânica. (O Daily Mail chegou a anunciar na capa que a carreira de "Cocaine Kate" estava "arruinada", embora ela nunca tenha sido acusada e tenha sido distinguida como Modelo do Ano nos British Fashion Awards no ano seguinte.)
"Percebo porque fazem isso", disse Brennan sobre a forma como a sua fotografia foi apresentada. "A Kate sentada nas escadas a fumar não vende propriamente jornais."
Mas Brennan, que fotografou Moss várias vezes ao longo dos anos 2000, contestou a reputação de "Kate festeira" que a rodeava. "Nunca a vi realmente dessa forma", afirma, acrescentando sobre a fotografia que o tornou famoso: "Eu apenas vejo uma das minhas modelos favoritas no seu melhor, no auge da carreira."
Ainda assim, a sua fotografia preferida daquele encontro não é a que o mundo conhece - prefere uma imagem captada uma fração de segundo depois, em que Moss já está de pé e a dirigir-se para a porta. "Tem mais ar de passerelle", explica. Incluiu-a no livro, aceitando que os fotógrafos não controlam quais das suas imagens conquistam o imaginário coletivo.
"Costuma dizer-se que todo o bom fotógrafo deve ter, algures na sua carreira, uma imagem que transcenda todas as outras", afirma. "E sinto que consegui isso com esta fotografia - mas não foi intencional."
"The Big Shot: Photographs by Greg Brennan", publicado pela ACC Art Books, já está disponível.
