A "morte alegre" que pode explicar a queda de um avião privado no Báltico. "As pessoas não percebem o que está a acontecer, riem-se muito antes"

5 set, 13:03
Cessna 551 (Kevin Kurek/Getty Images)

Várias aeronaves europeias acompanharam o percurso do Cessna 551 até à queda, que aconteceu a mais de mil quilómetros do destino. Conhecido empresário alemão estaria ao comando

Um avião privado que fazia a ligação entre a cidade espanhola de Jerez e a cidade alemã de Colónia despenhou-se mais de mil quilómetros para lá do seu destino. Os destroços do Cessna 551 foram encontrados no Mar Báltico, pouco depois da ilha sueca de Gotland. Sabe-se agora que a bordo seguiam o empresário alemão Karl-Peter Griesemann, a sua mulher, a filha e um amigo da jovem. O resto continua envolto em mistério.

Os meios de comunicação social alemães garantem que era o próprio empresário quem ia a pilotar a aeronave, não havendo ainda uma confirmação do que aconteceu ao certo. A companhia aérea Quick Air, que pertencia ao empresário e era a dona do Cessna, já confirmou a morte dos quatro ocupantes, ainda que não tenha confirmado quem ia aos comandos.

"Karl-Peter Griesemann, a sua mulher e dois jovens morreram no avião que caiu nas águas do Mar Báltico", pode ler-se num comunicado, que refere ainda que a bordo também iam os dois cães da família.

O jornal alemão Bild refere que os caças que foram acompanhando o avião até à queda, nomeadamente os que saíram de Espanha e França, não avistaram ninguém no cockpit, o que adensa as dúvidas. Onde estaria o piloto?

A hipótese com mais força é uma despressurização da cabine, fenómeno em que existe uma rutura, pequena ou grande, no avião, levando a que os seus ocupantes fiquem sem conseguir respirar. Caso seja esse o cenário, Karl-Peter Griesemann poderá ter ficado inconsciente muito antes do impacto.

O antigo comandante José Correia Guedes explica à CNN Portugal que devemos estar perante um caso de "despressurização lenta", processo que, ironicamente, até é o mais perigoso. "As pessoas não percebem o que está a acontecer, riem-se muito antes, e depois acabam por morrer por hipoxia", refere o antigo piloto da TAP, que fala mesmo numa "morte alegre", que, no caso, terá ocorrido durante a subida.

Karl-Peter Griesemann chegou mesmo a comunicar, ainda em Espanha, que sentia uma despressurização da cabine, o que confirma um problema do género a bordo. José Correia Guedes estranha que, sendo esse o cenário, o avião não tenha descido, mas também diz que tudo acontece muito rápido, sem que quem está aos comandos se aperceba.

José Correia Guedes recorda um caso semelhante, ocorrido em 1999, quando o golfista Payne Stewart morreu por hipoxia induzida pela despressurização da cabine. Aí provou-se que houve uma falha humana, com o piloto a esquecer-se de ligar o sistema de pressurização, que em aviões destes, com mais de 40 anos, ainda é manual. O antigo piloto da TAP acredita que o mesmo terá acontecido neste caso, com o piloto alemão a esquecer-se de ligar o sistema de pressurização, perdendo depois oxigénio de forma gradual, morrendo minutos mais tarde.

"A hipoxia começa por gerar momentos de euforia, mas depois leva a problemas cognitivos, não conseguimos fazer contas de somar, por exemplo", refere o ex-piloto, que experienciou esta situação na sua carreira em voos de teste, e que fala numa "perda de oxigénio lenta e gradual".

Karl-Peter Griesemann (à direita) durante o carnaval de Colónia (Peter Bischoff/Getty Images)

José Correia Guedes garante que uma situação do género nunca aconteceria a bordo de um avião comercial. Além de a pressurização da cabine ser automática (o que impede o erro humano), existe um constante sistema de monitorização do oxigénio no aparelho. Muito mais comum nesse tipo de voos é a despressurização explosiva ou rápida, que muitas vezes é resolvida rapidamente - as máscaras caem automaticamente e toda a gente se apercebe do problema, que pode ser causado por um rombo na estrutura, como a desintegração de uma porta.

De resto, o avião seguiu o plano de voo traçado, tendo virado em Paris, como era suposto, mas tendo também falhado a aterragem em Colónia, seguindo a direito até cair no Báltico, provavelmente quando ficou sem combustível. Grande parte da viagem foi feita em piloto automático, e o último contacto de Karl-Peter Griesemann com as torres de controlo aconteceu ainda antes de Paris, o que reforça a ideia de que o piloto terá ficado inconsciente muito antes da queda.

Além de espanhóis e franceses, também dinamarqueses e alemães acompanharam todo o percurso do avião, sendo que um F-16 da Dinamarca confirmou a queda no Báltico.

A morte de Karl-Peter Griesemann está a gerar grande consternação em Colónia, onde o empresário era uma proeminente figura na organização do carnaval.

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