Num mercado saturado de promessas de longevidade, a terapia de luz vermelha e as saunas destacam-se por algum suporte científico - ainda que limitado. Especialistas alertam para exageros e sublinham que hábitos básicos, como alimentação, sono e exercício, continuam a ser os pilares da saúde
Tem um problema? Provavelmente existe um produto que afirma resolvê-lo - especialmente no espaço da longevidade.
As redes sociais, as lojas e a publicidade online estão cheias de diferentes regimes, artigos, suplementos e estratégias que prometem uma vida mais longa e beleza eterna. Pode ser fácil deixar-se levar por coisas que não passam de banha da cobra.
“Há tanta desinformação online sobre tudo”, referiu a jornalista Kara Swisher. “Há todos estes, essencialmente, burlões do bem-estar que dão má informação às pessoas e estes atalhos que não funcionam realmente.”
Não há problema se as coisas que não resultam forem inofensivas, como uma péssima receita de pão de couve-flor, acrescentou, mas “muitas dessas coisas são coisas médicas reais que não são boas para si ou que são dispendiosas, e achei isso realmente ofensivo.”
Neste episódio de “Kara Swisher Wants to Live Forever”, uma série da CNN que investiga tendências e ciência da longevidade, Swisher distingue os esquemas das verdadeiras ferramentas de longevidade.
Algumas das coisas comercializadas para pessoas que procuram vidas mais longas e saudáveis são prejudiciais; outras são apenas caras mas ineficazes, acrescentou. E depois há aquelas que, mesmo necessitando de mais investigação, podem ter algo a oferecer.
Uma das mais recentes febres nas tendências de beleza e longevidade é a terapia de luz vermelha, mas os seus impactos não são apenas exagero, explicou a Zakia Rahman, professora clínica de dermatologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford e docente afiliada no Stanford Center on Longevity.
A luz vermelha e, menos frequentemente mencionada, a luz no infravermelho próximo são comprimentos de onda específicos de luz, que podem enviar diferentes sinais ao corpo.
A ideia é que a luz vermelha é convertida em energia nas mitocôndrias, que, se se lembra das aulas de biologia, são as centrais energéticas da célula. Embora não seja conhecido com certeza, os investigadores acreditam que expor as células a comprimentos de onda de luz vermelha ajuda a melhorar o desempenho e a resiliência celular e reduz a inflamação, afirmou Praveen Arany, professor associado de biologia oral na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Buffalo, em Nova Iorque.
A evidência científica apoia cada vez mais a afirmação de que a terapia de luz vermelha pode ajudar na textura da pele e no crescimento do cabelo, o que provocou um boom de dispositivos domésticos para fins cosméticos, acrescentou Rahman.
Estão a ser realizados estudos para analisar uma série de outros potenciais benefícios, como o tratamento da dor crónica, da doença de Parkinson e da doença de Alzheimer, disse Arany.
No entanto, ir além da superfície e tratar partes mais profundas do corpo ainda necessita de mais dados. Protocolos como a forma de administrar a luz, exatamente quais os comprimentos de onda a usar e durante quanto tempo ainda não foram estabelecidos, explicou.
Existem duas formas de administrar a terapia de luz vermelha: lasers, que normalmente estão em consultórios médicos, e painéis LED, que muitas pessoas estão a comprar para casa. A opção LED tem menor potencial de causar danos se usada incorretamente, mas também há menos controlo de qualidade no mercado, referiu Arany.
Se quiser experimentar a terapia de luz vermelha e sentir confiança na máquina que está a comprar, Rahman recomenda começar por procurar dispositivos que tenham aprovação da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA).
Mas lembre-se, a terapia de luz vermelha não é um elixir mágico, e não vai usar um dispositivo uma vez e acordar no dia seguinte com menos 10 anos e uma cabeleira cheia. Dispositivos como estes exigem uso consistente ao longo de meses para se verem resultados, afirmou Rahman.
Suar numa sauna
Suar numa sauna é outra estratégia de bem-estar que não é puramente banha da cobra, garantiu Swisher.
“Se não exagerar e beber bastante água, é ótimo. É, na verdade, uma das melhores coisas que pode fazer por si”, afirmou. Para além de quaisquer potenciais benefícios fisiológicos, 20 minutos numa sauna significam uma janela de relaxamento sem o telemóvel, acrescentou.
O uso de saunas tem sido popular em culturas de todo o mundo, e há alguma investigação que sustenta a sua utilização. Estudos associaram o uso regular de sauna à melhoria da saúde cardiovascular, benefícios para a saúde cognitiva e manutenção da massa muscular, de acordo com uma revisão de investigação de 2021.
Os mecanismos por detrás da eficácia das saunas ainda não estão totalmente esclarecidos, mas David Burke recomenda aos seus pacientes que queiram experimentar as saunas que o façam durante 20 minutos, quatro a cinco dias por semana.
“É algo simples, mas é impressionante o quão bom é para um período tão curto de tempo”, assegurou Burke, presidente emérito do departamento de medicina de reabilitação da Faculdade de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta.
Saunas eficazes podem muitas vezes ser encontradas no seu ginásio local, ou existem opções para comprar saunas compactas para casa, acrescentou.
O que os investigadores sabem que funciona
Por muito entusiasmante que a nova tecnologia possa ser e por mais que se enquadre numa ideia de luxo comprar o produto milagroso que vai melhorar a sua vida, mesmo ferramentas com investigação, como as saunas e a terapia de luz vermelha, não são as que fazem a maior diferença.
Se não estiver a alimentar-se bem, a dormir o suficiente, a fazer algum exercício e a cultivar uma vida social saudável, a terapia de luz vermelha e as saunas só podem fazer até certo ponto.
As pessoas que mais beneficiam de dispositivos domésticos de luz vermelha são “frequentemente pessoas que já fazem as outras coisas e querem um dispositivo para acrescentar à sua rotina”, explicou Rahman.
Estes dispositivos não são apenas a cereja no topo do bolo, mas sim uma despesa adicional, numa altura em que até mesmo os princípios básicos para uma vida longa e saudável podem ser difíceis de alcançar.
Ter uma alimentação maioritariamente baseada em plantas, dormir o suficiente e fazer exercício deve ser a prioridade, disse Venkatraman Ramakrishnan, cientista no Laboratório MRC de Biologia Molecular, em Cambridge, Inglaterra, e autor do livro “Why We Die: The New Science of Aging and the Quest for Immortality”.
“As pessoas dizem que estas três coisas são gratuitas, mas só são gratuitas se tiver tempo livre e capacidade para as fazer”, afirmou. “É difícil, mas, por outro lado, é algo possível.”
