O músico norte-americano regressa a Portugal, mas desta vez sob uma onda de protestos. Ye, antes conhecido como Kanye West, toca no Estádio do Algarve esta esta sexta-feira
Quem quiser muito ir, ainda pode comprar bilhetes. Apesar das notícias iniciais de que 20 mil entradas foram vendidas em duas horas, a verdade é que a poucas horas do concerto ainda havia umas dezenas de lugares disponíveis, com preços entre os 100 e os 180 euros, para o concerto desta sexta-feira no Estádio do Algarve. Os preços e o verão poderão ter desmotivado os fãs, mas é inegável que o artista Ye, anteriormente conhecido como Kanye West, parece já não causar o entusiasmo de outros tempos.
O que aconteceu ao músico que a revista Time considerou, por duas vezes, em 2005 e em 2015, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo?
Kanye West, 49 anos, ganhou 24 prémios Grammy, tem uma fortuna avaliada pela revista Forbes em 400 milhões de dólares e, há seis anos, a sua marca de roupa, Yeezy, em parceria com a Adidas, representava 7% das receitas anuais da marca. Foi casado com a maior das celebridades, Kim Kardashian, e, entre 2004 e 2016, foi efetivamente um dos músicos mais inovadores e relevantes do seu tempo, com uma combinação de hip hop, eletrónica, funk e pop, em álbuns como “Graduation”, “Yeezus” ou “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, além de produzir êxitos para Jay-Z, Rihanna e Janet Jackson, entre outros. A revista Rolling Stone incluiu seis álbuns de West na sua lista dos "500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos" e nomeou-o um dos "100 Maiores Compositores de Todos os Tempos".
Depois, vieram as polémicas.
Na verdade, a arrogância esteve sempre lá. Mesmo no pico da fama, muitos chamaram a atenção para as suas atitudes egocêntricas e narcisistas. Em 2009, Kanye interrompeu o discurso de Taylor Swift nos MTV Video Music Awards e tirou-lhe o microfone da mão para dizer que o prémio devia ser entregue a Beyoncé. Voltaria a insultá-la nas suas músicas e em declarações nas redes sociais, tal como fez várias vezes com o músico Drake.
Em 2016, houve concertos cancelados na sequência de várias declarações despropositadas de Kanye West sobre política, que acabou por ser internado numa clínica psiquiátrica. E em 2020 apresentou a candidatura à presidência dos EUA.
Entretanto, em 2018, mudou o seu nome para Ye por motivos pessoais e religiosos, alegando que "Ye" é a palavra mais usada na Bíblia em inglês e significa "tu" ou "vós", refletindo a ideia de que "eu sou tu e nós somos nós". Além disso, o termo funciona como uma abreviatura de Kanye.
Mas foi só a partir de 2022, quando West começou a manifestar publicamente as suas opiniões antissemitas que o escândalo estalou. Fez várias declarações de apoio ao nazismo, elogiou Adolf Hitler, negou o Holocausto, publicou uma imagem sua com trajes do Ku Klux Klan. Como resultado, a conta X de Kanye West foi banida várias vezes devido a publicações que violavam as regras da plataforma. Isto aconteceu depois de ter publicado uma série de tweets ofensivos, incluindo a imagem de um símbolo que parecia combinar uma suástica e a Estrela de David, e dito que iria "dar um golpe mortal nos judeus". O músico acabou por ser expulso também do Instagram, perdeu patrocinadores e parcerias, foi dispensado pela sua agência de talentos e marcas de moda como a Adidas e a Balenciaga também se afastaram.
Pediu desculpas, mas continuou. Em fevereiro de 2025, West começou a vender t-shirts com suásticas e, em maio lançou uma música intitulada "Heil Hitler", que elogiava o líder nazi. Isto levou à revogação do seu visto para entrar na Austrália e ao cancelamento de alguns concertos. Pelo meio, Kanye aproximou-se do movimento Maga, apoiou Donald Trump e enfrenta também queixas por assédio no local de trabalho e assédio sexual.
Ye pediu desculpa pelo seu comportamento, atribuindo as declarações antissemitas à luta contra a doença bipolar. Em janeiro deste ano, publicou um anúncio de página inteira no The Wall Street Journal a pedir desculpa por todo o mal que causou, reiterando esse argumento. Admitiu ter sofrido um "episódio maníaco de quatro meses com um comportamento psicótico, paranoico e impulsivo", dizendo que "perdeu o contacto com a realidade": "Fiz coisas de que me arrependo profundamente. Tratei algumas das pessoas que mais amo da pior forma possível. Desliguei-me do meu verdadeiro eu."
Ainda assim, muitos questionaram o timing do pedido de desculpas, pouco antes do lançamento do seu novo álbum, "Bully".
O álbum, que se estreou em segundo lugar na tabela Billboard 200 e teve várias canções no topo das tabelas - entre as quais “Father”, com Travis Scott, e “I Can’t Wait”, com a participação de Lauryn Hill -, representa quase uma prova de vida, uma prova de que, apesar de todas as polémicas, o talento e a criatividade ainda estão lá. "Isto é uma celebração e uma vitória, a história de sucesso de uma pessoa que, apesar de lidar com crises de saúde mental, conseguiu superá-las e alcançar o primeiro lugar nas tabelas, depois de tudo o que foi feito e dito", declarou.
Depois veio a digressão. Sob um coro de protestos, os concertos na Austrália, Reino Unido, França, Polónia, Chéquia e Suíça foram cancelados. A digressão mundial acabou por cingir-se a meia dúzia de datas: Istambul (Turquia), Arnhem (Países Baixos), Tbilisi (Georgia), Tirana (Albânia) e Madrid (Espanha). Um pouco humilhante para quem já alcançou o que Kanye West alcançou. A última paragem fora dos EUA será o Algarve. Em Portugal, também houve protestos, a Comunidade Israelita de Lisboa pediu às Câmaras de Faro e de Loulé e ao Governo que não dessem quaisquer apoios públicos ao evento, mas o espetáculo vai mesmo acontecer.
Nos concertos realizados até agora houve alguns protestos à entrada, mas não há registo de desacatos no interior. O músico não tem feito comentários políticos nem parece estar com vontade de alimentar as polémicas.
O palco é uma meia-esfera gigante colocada no centro da arena, que tanto pode servir como ecrã gigante como transformar-se no planeta Terra, no topo do qual surge, sozinho o artista. Não há músicos, não há bailarinos, não há convidados. É só ele, durante quase duas horas, a cantar os seus êxitos sobre música gravada. Juntando temas de "Bully" aos clássicos que toda a gente quer ouvir, como “Power”, “Heartless”, "Flashing Lights" ou "Stronger", até pode agora chamar-se Ye, mas o concerto é puro Kanye West. Se for assim, os fãs ficarão felizes. E terão certamente muitos vídeos bonitos para partilhar nas redes sociais.
