Um tablóide chegou a noticiar que Barack e Michelle Obama ainda não tinham apoiado Kamala Harris "porque sabem que ela não pode ganhar". Mas as dúvidas foram desfeitas esta sexta-feira, cinco dias depois de Joe Biden ter abandonado a corrida à Casa Branca. Os Obamas ligaram a Kamala Harris, deram-lhe apoio formal - "isto vai ser histórico!". Esse foi o único telefonema que as partes quiseram que fosse tornado público. Houve outros
Uma semana não seria considerada muito tempo numa campanha presidencial normal. Mas estes não são tempos normais para os democratas, após a desistência inédita de Joe Biden da corrida à Casa Branca – da última vez que um presidente abdicou de tentar um segundo mandato consecutivo, há 56 anos, fê-lo antes do arranque das primárias.
Passou pouco tempo – leia-se, menos de uma hora no domingo – entre Biden fazer o anúncio da desistência e uma publicação na rede social X a dar o seu apoio formal àquela que foi a primeira mulher negra a ocupar a vice-presidência dos EUA. Passou bastante mais – leia-se, cinco dias – até aquele que foi o primeiro presidente negro da história norte-americana seguir o mesmo passo.
“A Michelle e eu não podíamos estar mais orgulhosos de te apoiar e de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para ganhares esta eleição e chegares à Sala Oval”, ouve-se Barack Obama dizer numa chamada telefónica com Harris divulgada esta sexta-feira pela campanha democrata. “Não posso fazer este telefonema sem dizer à minha miúda Kamala: estou orgulhosa de ti”, ouve-se Michelle Obama a acrescentar. “Isto vai ser histórico!”
Foi o culminar de cinco dias de especulação sobre porque é que o casal Obama continuava em silêncio, depois de figuras de renome do partido, incluindo Bill e Hillary Clinton, terem apoiado formalmente Kamala quase a seguir ao anúncio de Biden. Os republicanos não perderam tempo a falar de uma “desfeita” do antigo presidente, com fontes da família Biden citadas pelo tablóide New York Post a dizerem que Obama estava “muito perturbado” com o encaminhar da candidatura de Kamala Harris “porque sabe que ela não pode ganhar”.
Fontes próximas dos Obamas citadas pelo New York Times acabariam por vir minimizar a importância que alguns queriam atribuir ao silêncio, dizendo que Barack não só não tinha ninguém em mente para o lugar como não queria ser demasiado rápido a apoiar Kamala, para não ser acusado de estar a “influenciar a nomeação” e para não fortalecer a retórica sobre a postura “antidemocrática” dos democratas.
“Um apoio imediato de Obama podia ter alimentado as críticas de que a abrupta cedência ao apoio a Harris equivaleria a uma coroação, em vez de ao melhor consenso possível em circunstâncias precipitadas”, adiantava o New York Times na manhã desta sexta-feira, antes de o telefonema ter sido divulgado. Uma fonte próxima dos antigos inquilinos da Casa Branca já tinha adiantado, dias antes, que o papel de Obama seria o de “unir o partido assim que houvesse um nomeado”.
Os receios não são infundados. Mal o Partido Democrata começou a unir-se em força em torno de Kamala Harris, nos dias a seguir à desistência de Biden, JD Vance – o jovem senador do Ohio que Trump escolheu para seu vice-presidente, um “acólito MAGA” com especial apelo junto do eleitorado de importantes estados indecisos – já tinha sacado da cartada “antidemocrática”. Num comício político, sugeriu que a decisão de avançar com Kamala para a presidência foi tomada “numa sala cheia de fumo” por Obama e pelo bilionário George Soros, megadoador do Partido Democrata – duas figuras que a extrema-direita, a dita “direita alternativa” que apoia Trump, tantas vezes pinta como bichos-papões.
Bastava olhar para o passado relativamente recente para antever o desfecho da curta saga. Em 2020, recordam vários media, Barack Obama também resistiu às pressões dos assessores de Biden para apoiar o seu ex-vice-presidente durante as primárias democratas, que Biden estava então a disputar com o senador Bernie Sanders. Disse-se na altura que Obama não queria “fazer pender a balança” antes de Sanders assumir a derrota – e, desta vez, foi dito que alinhar-se demasiado rápido com Kamala Harris podia ser um “erro político”.
Por outro lado, adianta o New York Times, houve outras considerações pessoais do antigo presidente a alimentar a sua cautela, face ao “homem profundamente orgulhoso” que é Joe Biden, “que nunca perdoou totalmente Obama por ter apoiado a antiga secretária de Estado Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016” - Biden acreditava que “teria conseguido derrotar o presidente Donald Trump nesse ano se lhe tivessem dado essa hipótese”.
Obama foi um dos democratas de topo que alegadamente pressionou Biden a abdicar da candidatura este ano e quis esperar pelo antecipado discurso do presidente à nação, na quarta-feira, e permitir que esta semana fosse focada apenas nele – para não o "ofuscar", segundo quatro fontes citadas quinta-feira pela NBC News. Mas entre a barricada democrata o apoio a Kamala Harris nunca esteve em causa e as chamadas entre os Obamas e a vice-presidente foram "recorrentes" esta semana.
“O presidente Obama está ansioso por ajudar os democratas nas urnas para convencer os eleitores este outono”, garantia há alguns dias Eric Schultz, conselheiro sénior do antigo presidente, adiantando que o seu envolvimento ia ser planeado estrategicamente para ser “mais eficaz”. Esse envolvimento foi assumido esta sexta-feira, a cerca de 100 dias das eleições presidenciais, quando é já mais do que certo que será Kamala a disputar a presidência com Trump. Se for eleita, fará história como Obama fez há 16 anos – será a primeira mulher, a primeira negra e a primeira descendente de sul-asiáticos a ser eleita para o mais elevado cargo dos Estados Unidos.