Há um diamante em Liverpool e foi polido por mãos portuguesas

11 jan, 09:09
Kaide Gordon
Kaide Gordon

Kaide Gordon conseguiu aos 17 anos levantar o Kop para o aplaudir, confirmando desta forma que há fundamento para o entusiasmo que existe em torno dele e que já convenceu Jurgen Klopp.

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Quando aos 81 minutos Anfield Road se levantou para lhe prestar a ovação, no instante em que saía de campo, já não havia dúvidas de que o Liverpool tem uma nova pepita em mãos.

Chama-se Kaide Gordon, fez dezassete anos em outubro e tem um futebol entusiasmante.

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No domingo, frente ao Shrewsbury, em jogo da Taça de Inglaterra, estreou-se a marcar pela equipa principal e deu mais uma demonstração que as expetativas não são infundadas. Mas nem sequer foi nada de novo. Antes disso já tinha feito três jogos particulares, na pré-época, e já tinha efetuado a estreia a sério, também como titular, frente ao Norwich, na Taça da Liga.

Por isso verdadeiramente novidade foram apenas aquele golo, o primeiro em jogos oficiais, e o facto do jogo ter sido em Anfield, também uma estreia em jogos oficiais.

Ah, e já agora, o facto de se ter tornado no segundo mais jovem a marcar pelo Liverpool: com 17 anos e 96 dias bateu a marca de Michael Owen e ficou atrás apenas de Ben Woodburn.

Mas de onde surgiu, afinal, Kaide Gordon?

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Pep Lijnders, o antigo treinador do FC Porto, explicou ao site do Liverpool que o clube tem a tradição de começar os treinos da equipa sub-23 uma semana mais cedo para analisar que jogadores podem fazer a pré-temporada com a equipa principal. Por isso, no início de julho, deslocou-se a Kirkby para ver os miúdos e escolher os que seguiriam para estágio.

«Assim que cheguei ao campo de treinos vi um jogador que tinha fogo em todos os momentos em que tocava na bola e fintava os colegas como se eles não estivessem lá. Então liguei de imediato a Klopp e disse: ‘Uau, temos aqui um jogador’», detalhou Pep Lijnders.

«Levámos alguns jovens para a pré-época e há um detalhe que nunca nos engana sobre a qualidade de um miúdo: é ver se os jogadores mais velhos começam a tomar conta dele ou não. Por isso quando vemos James Milner a falar com ele, quando vemos Alexander-Arnold tornar-se uma espécie de mentor, quando vemos os mais velhos a convidá-lo para se sentar à mesa com eles, percebemos que pode ser especial e que vai adaptar-se à nossa equipa.»

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A verdade é que todos os miúdos voltaram para a equipa sub-23 após duas semanas, menos Kaide Gordon: o jovem, na altura com 16 anos, cumpriu toda a pré-época com Jurgen Klopp.

Nessa altura, de resto, o adolescente já estava totalmente identificado com o futebol e com a mentalidade do Liverpool. Como se disse, é um diamante lapidado por mãos portuguesas.

Ora essas mãos portuguesas são as de Vítor Matos, treinador de desenvolvimento de elite do Liverpool, que faz um trabalho específico com os miúdos mais promissores. Pep Lijnders diz que a estrutura confia muito no português e no que ele faz para tornar os jovens melhores.

«O Vitor cuida muito bem dos meninos», garantiu o holandês. «Ele fala muito com eles e sabe o que fazer para que tenham sucesso. A pior coisa que se pode fazer a um jovem é levá-lo para um nível superior demasiado cedo. Os nossos jovens sabem que o mundo é um lugar louco, sobretudo na internet. No clube temos um forte ambiente familiar e isso ajuda-os. Já são seis anos com as mesmas ideias, os mesmos trajetos, a mesma confiança nos jovens.»

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Perante isto, impõe-se ouvir Vítor Matos. O português do Liverpool começa por dizer ao Maisfutebol que Kaide Gordon «é um finalizador, é um extremo que tem uma relação com o golo fantástica e por isso vai haver sempre muito entusiasmo à volta dele».

«O Kaide é um jogador espontâneo, criativo e imprevisível. Neste caso é muito importante preservar essa espontaneidade, essa identidade que o distingue dos demais. Para este tipo de jogadores aquilo que nós pretendemos é que eles sejam pressionantes sem a bola e sintam toda e total confiança com a bola. Queremos que ele arrisque, que crie ocasiões de golo, que marque golos, que se sinta livre dentro do coletivo», adianta Vítor Matos.

«Algo muito importante para nós é existir dentro do clube modelos como o Diogo, o Sadio Mané, o Mo Salah e o Roberto, que são de classe mundial e com uma atitude coletiva fantástica. Quando isto acontece torna tudo mais fácil em termos de processo de treino.»

Portanto o que aconteceu no domingo em Anfield Road com Kaide Gordon não é mais do que um processo que está a correr os trâmites normais. Longe de significar mais do que isso.

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«Connosco começa-se sempre do zero, todos os dias, todos os treinos, todas as reuniões. Esta é a mentalidade que o Jurgen incute. Quando existe uma ligação forte entre a academia e a primeira equipa, quando existe cultura de clube, torna tudo mais fácil.»

Foi talvez por isso que, há coisa de um ano, quando jogava no Derby County e tinha propostas do Liverpool e do Manchester United, o menino não hesitou em escolher o Liverpool.

Nessa altura o clube já tinha enviado o diretor desportivo Michael Edwards e o assistente Julian Ward a casa da mãe de Kaide Gordon para falarem com a família e lhe explicarem o projeto que tinham para o filho. O processo de lançamento de Alexander-Arnold e de Curtis Jones eram a prova do compromisso do clube com o desenvolvimento dos jovens.

De resto, e aproveitando a grave crise financeira do Derby County, o Liverpool já tinha garantido também um acordo por 1,3 milhões de euros, que podia chegar a quatro milhões mediante determinados objetivos. Uma pechincha para um jogador que aos 16 anos já se tinha estreado na equipa principal, pela mão de Wayne Rooney.

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«Trouxe Kaide para treinar com a primeira equipa uma semana para ver como reagia. Optei por mantê-lo mais duas semanas e vi que ele era sempre dos melhores nos treinos. Já não saiu mais. É um jogador fantástico e tem muito potencial», disse então Rooney.

Kaide Gordon estreou-se na equipa principal do Derby County em dezembro de 2020 e mudou-se para o Liverpool em fevereiro de 2021.

Para trás ficou a infância em Burton, uma pequena cidade a vinte quilómetros de Derby. O irmão mais velho Kellan, também ele formado no Derby County e atualmente a jogar no Mansfield Town, diz que tudo começou como uma brincadeira.

«A nossa casa tinha um jardim quando éramos crianças e na parte de trás havia uma baliza em tamanho real. A minha primeira memória do Kaide a jogar futebol é de quando eu e o meu irmão Keldon o mandávamos para a baliza e passávamos o dia a chutar bolas contra ele. A partir daí, não teve escolha: teve de começar a jogar ou iria à baliza. Estávamos sempre a jogar. Mesmo se chovesse, estávamos lá fora a jogar», contou o irmão Kellan ao The Athletic.

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«Quando tinha seis ou sete anos, foi jogar para uma equipa da cidade que se chamava St. George. Marcava 12 golos por jogo. Dava para ver que ele era especial. Era muito melhor do que qualquer outra criança. As pessoas ficavam tipo: ‘Quem diabo é este miúdo?’»

Não demorou muito tempo a mudar-se para o histórico Derby County, de onde saltou para o gigante Liverpool. No dia em que assinou contrato em Anfield Road, tirou uma fotografia com a família toda de sorriso estampado no rosto: os três irmãos, a irmã mais nova e a mãe.

«Temos a foto em casa da minha mãe. Somos uma família muito unida. Toda a gente vai aos jogos de toda a gente. Somos todos muito, muito próximos. Falo com Kaide todos os dias, sem falta. Ele conta-me tudo o que está a acontecer na vida dele», refere o irmão Kellan.

Por isso dá para imaginar a alegria em casa da família Gordon hoje...

«Mas ele não leva nada muito a sério. Mesmo quando o Liverpool veio atrás dele, eu dizia: ‘Meu Deus’. E ele: ‘Sim, ok’. Não pensa de mais nas coisas, só quer jogar porque gosta. Podia estar em qualquer outra equipa e jogava exatamente da mesma forma.»

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No fundo é isso que distingue os talentos.

Por isso memorizem este nome: Kaide Gordon. Um diamante polido por mãos portuguesas.

 

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