A intimidade é uma necessidade humana fundamental, tão essencial como a comida ou a água, defende o biólogo evolucionista Justin Garcia. Nesta entrevista à CNN, o autor explica porque ansiamos por ligação emocional, como o atual panorama dos encontros digitais dificulta relações profundas e de que forma a vulnerabilidade, a intencionalidade e a novidade ajudam a manter relações saudáveis. Garcia aborda ainda o impacto crescente da inteligência artificial na vida amorosa e alerta para os limites da tecnologia na substituição da verdadeira ligação humana
*Ian Kerner é terapeuta matrimonial e familiar licenciado, escritor e colaborador da CNN sobre temas de relacionamentos. O seu livro mais recente é um guia para casais, “So Tell Me About the Last Time You Had Sex”.
Diz-se que nascemos sozinhos e morremos sozinhos, mas também é verdade que temos uma necessidade fundamental de ligação e intimidade ao longo da vida.
Na hierarquia das necessidades humanas, a intimidade está ao nível da comida e da água, defende o biólogo evolucionista e diretor executivo do Instituto Kinsey, Justin Garcia.
“Em termos abstratos, a intimidade é a sensação prazerosa e reconfortante associada a qualquer ligação próxima que cresce entre seres humanos numa enorme variedade de contextos”, escreve Garcia no seu novo livro, “The Intimate Animal: The Science of Sex, Fidelity, and Why We Live and Die for Love”.
Na prática, porém, a intimidade pode ser tão simples como “fazer contacto visual do outro lado da mesa num jantar e saber exatamente o que a outra pessoa está a pensar”, observa no livro.
Little, Brown Spark
Sentei-me com Garcia para saber mais sobre o estado atual da ligação humana, como podemos acrescentar mais intimidade às nossas vidas e porque podemos estar à beira de uma crise de intimidade.
Esta conversa foi editada e condensada para maior clareza.
CNN: A palavra intimidade significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Como a define?
Justin Garcia: Comecei por pensar na intimidade como ligação social: esta ideia de que, quando nos ligamos aos outros, nos sentimos vistos e ouvidos, e criamos um vínculo emocional. A um nível mais amplo, a intimidade é coesão e ligação social.
Quando pensamos nas nossas relações, trata-se dessa ligação emocional mais profunda que acompanha relações românticas saudáveis. “Intimidade” não é um eufemismo para comportamento sexual, apesar de muitas vezes ser usada dessa forma.
Quando pensamos no amor romântico, as pessoas incluem muitas vezes paixão, atração e desejo sexual. Mas ao ler o seu livro, parece-me possível que aquilo que realmente procuramos seja intimidade.
Sem dúvida. Temos esta tendência evolutiva de precisar profundamente de nos sentirmos ligados às pessoas. Os humanos e alguns outros animais exibem algo chamado socialidade preferencial. Isso significa que não brincamos com qualquer pessoa, não nos relacionamos sexualmente com qualquer pessoa. Pode entrar num espaço com mil pessoas e talvez haja uma com quem teria uma conversa ou iria a um encontro. Quando enquadramos a nossa vida sexual em termos de intimidade, é uma lente diferente para pensar em tudo — quem perseguimos, como mantemos uma relação, o sofrimento que sentimos quando as relações terminam.
Veja as diferentes partes das relações: há a parte do desejo ou da libido, há a parte da atração romântica e depois há a parte da amizade e da confiança. Pode ter uma relação que não tenha todas essas componentes, mas penso que existe um anseio por tentar encontrá-las todas. Esse anseio é evolutivo — este desejo de reprodução sexual e os mecanismos que existem para formar e manter um vínculo com uma pessoa.
Se a componente da atração sexual estiver ausente, acabamos numa grande amizade e não num amor romântico?
Curiosamente, os meus colegas e eu descobrimos, na nossa investigação, que mais de um terço das pessoas se apaixonou por alguém que inicialmente não pensava que poderia amar. E bem mais de 70% das pessoas sentiram-se profundamente atraídas por alguém por quem, inicialmente, não se sentiam atraídas.
Por vezes, damos como garantido que essas faíscas têm de ser instantâneas. Mas as provas sugerem que, quando existe ligação, amizade e confiança, é possível construir a componente sexual a partir daí. Especialmente num contexto em que estamos a deslizar perfis em aplicações de encontros, colocamos muita ênfase no visual e na atração sexual. E isso é um motivador poderoso, mas nem sempre é suficiente para sustentar uma relação a longo prazo.
De que forma o atual panorama dos encontros torna mais difícil alcançar verdadeira ligação e intimidade?
As pessoas tendem a ter uma lista de coisas que querem que os seus parceiros façam em termos de ligação romântica e sexual. O desafio é que essa lista pode muitas vezes ser irrealista. Esperamos que os nossos parceiros sejam tudo para nós, o tempo todo: queremos que se sintam atraídos por nós, mas também que cuidem de nós quando estamos doentes, e que continuem atraídos depois de termos passado a noite inteira com uma intoxicação alimentar.
Quando olhamos para os encontros com tantas expectativas — numa era digital com acesso a aplicações e sites de encontros — começamos a desvalorizar as parcerias.
Por exemplo: “Fui a um encontro maravilhoso com aquela pessoa, mas porque é que ela segurava o garfo daquela maneira? Posso pegar no telemóvel e encontrar alguém que não segure o garfo assim.”
Focamo-nos nas coisas de que não gostamos porque temos a perceção de que vamos encontrar pessoas sem essas características. Isso pode ser verdade. Pode encontrar alguém que segure o garfo de forma diferente numa aplicação de encontros, mas essa pessoa vai fazer outras coisas de que não gosta e que até apreciava na pessoa que estava sentada à sua frente dois minutos antes.
Temos estes conceitos de parceiros ideais e, como temos tantas opções, acreditamos que, se continuarmos a procurar, vamos encontrar a pessoa que consiga corresponder a tudo. Penso que este é um dos grandes problemas com que as pessoas estão a debater-se nos encontros hoje em dia. Há demasiadas pessoas à procura de tudo numa só pessoa e que não imaginam um mundo de negociação de diferentes aspetos ou de aprendizagem a partir de uma parceria.
Parece-me que a intimidade também implica um certo risco de vulnerabilidade e a possibilidade de rejeição, algo de que as aplicações de encontros nos podem proteger. O que fazemos?
O núcleo da vulnerabilidade é dar a alguém informação confiando que essa pessoa não a vai usar para nos magoar, seja essa informação sobre os nossos desejos íntimos, necessidades ou medos. De certa forma, dormir ao lado de alguém é um ato vulnerável.
Tendemos a ser cautelosos em relação a sermos demasiado vulneráveis, e por uma boa razão evolutiva: devemos ser cautelosos ao dar demasiado de nós, demasiados segredos, demasiadas coisas que nos possam magoar. Mas, na verdade, quando encontra a sua pessoa, com quem está disposto a ser vulnerável, é aí que se cultiva um sentido mais profundo de confiança.
Para alguém que já está numa relação saudável, como se mantém esse sentido mais profundo de confiança, especialmente num mundo stressante?
Uma das formas de os casais ultrapassarem isso é cultivar uma ligação mais próxima e, ao mesmo tempo, ganhar um sentido de novidade fazendo coisas novas juntos. Não tem de ser algo grande, basta fazer coisas em que se concentrem realmente um no outro e, sobretudo, se introduzir novidade, ajuda o cérebro a sentir-se estimulado por algo novo.
Tentem encontrar novidade, seja no quarto, seja num passeio pelo parque, seja a viajar, seja a ler livros e a ver filmes. Sejam curiosos um sobre o outro e curiosos sobre o mundo em conjunto.
A intencionalidade também é importante. Nos nossos estudos com casais heterossexuais, gays e lésbicos em relações de longa duração, uma das coisas que descobrimos foi que eram mais intencionais. Tínhamos uma lista de coisas; uma delas era acender velas antes de um encontro sexual. Mas não era realmente sobre a vela ou a iluminação ambiente. Era sobre fazer um esforço consciente para se concentrar na relação. A minha conclusão a partir dos nossos estudos é: sejam intencionais em relação à vossa relação.
Numa era em que a inteligência artificial está cada vez mais presente nas nossas vidas, como vê o futuro da intimidade?
Sou cauteloso. Por um lado, penso que pode ser útil para pessoas que procuram recursos. Pode ajudar a dar alguns sinais iniciais para saber quando é altura de procurar um terapeuta ou de entrar numa aplicação de encontros. Também pode ser útil se estiver a tentar escolher boas fotografias para o seu perfil ou se estiver nervoso sobre como iniciar uma conversa.
Descobrimos que cerca de 25% dos solteiros usaram IA em algum aspeto da sua vida amorosa no ano passado. Normalmente são coisas como escolher fotografias e sugestões de conversa. Isso é apenas usar a IA como uma ferramenta.
Mas existe a questão das pessoas usarem “namorados” e “namoradas” chatbot. Quando usamos a IA como uma ferramenta, como objetos de treino para nos ajudar a iniciar interações humanas reais, isso pode ser útil. Mas quando começamos a pensar nela como substituta dessas interações, fico preocupado.
Há muita coisa que acontece nas relações humanas que não penso que, pelo menos ainda, consigamos substituir. Parte disso é a vulnerabilidade. Parte disso é a dinâmica relacional. Numa relação, quer alguém que o ajude, mas também quer ajudar essa pessoa. Quer tornar a vida dela melhor. É por isso que acordamos de manhã, fazemos o pequeno-almoço aos nossos parceiros ou os aconchegamos à noite.
Quando está a interagir com um bot, acha realmente que está a tornar a vida dele melhor de alguma forma significativa? Confia nele? A confiança é fundamental nas nossas interações.
Pelo menos neste momento, imaginar verdadeira intimidade com estes chatbots — não vejo isso como um fenómeno que vá dominar o panorama. Mas isso é agora, e esta tecnologia está a evoluir tão rapidamente.
O animal íntimo tem sobrevivido durante milhões de anos.
Exatamente. Vai ser preciso mais do que um chatbot para desfazer 4 milhões de anos de evolução.