"Miguel Albuquerque tem horror a pobres", disse Filipe. A história do JPP e "da poção mágica dos druidas de Gaula"

27 mai, 17:00
JPP

Dois irmãos, um deles ex-militante do PS, fundaram em 2009 um partido na Madeira para fazer frente ao jardinismo. Quinze anos depois, é o próprio Alberto João que diz que é o JPP o "grande vencedor" das eleições regionais. Pelo meio, os irmãos zangaram-se. E o adversário social-democrata é outro, Miguel Albuquerque

Élvio Sousa e Filipe Sousa, irmão da freguesia de Gaula, no município de Santa Cruz, no extremo oriental da ilha da Madeira, decidiram criar em 2009 um movimento de cidadãos “para concorrer às eleições autárquicas”. O objetivo era fazer frente ao PSD e ao jardinismo, que há quase 50 anos reinavam na ilha.

O Juntos Pelo Povo (JPP) deu entretanto origem a um partido político e tornou-se, segundo as palavras do próprio Alberto João Jardim, o “grande vencedor” das eleições regionais deste domingo na Madeira.  Consolidou-se como a terceira força política no arquipélago (atrás do PSD e do PS e à frente do Chega), foi o partido que ganhou mais deputados das últimas eleições para estas e venceu no concelho de Santa Cruz.

Élvio Sousa foi o cabeça de lista do JPP às eleições regionais deste domingo na Madeira foto HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

A politóloga Teresa Ruel, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), diz que o JPP “tem vindo a conseguir bons resultados” eleitorais através “da proximidade” que vai conseguindo com o eleitorado. “O JPP tem feito um trabalho desde 2009 a nível local. ‘Devagar e certo’, como eles próprios dizem, naquilo que é encontrar soluções para os problemas da população na Madeira. Nessa proximidade tem conseguido bons resultados. Logo em 2015 elegeu cinco deputados, depois perdeu dois em 2019 mas recuperou-os em 2023. Agora acaba por quase duplicar o seu grupo parlamentar”, analisa a especialista.

Teresa Ruel sublinha ainda que o JPP “tem sido nos últimos anos o único partido a fiscalizar o governo regional” e beneficiou da incapacidade de o PS se constituir como alternativa governamental na Madeira.

A politóloga sublinha, contudo, que “estas eleições são antecipadas e extraordinárias”: “Não é fácil analisar de ondem vêm os votos do JPP, nem temos instrumentos para isso”. “A expectativa era que o Chega assumisse a posição de terceira força política. Aquilo que esta eleição mostra é que não há nada de apelativo no Chega para o eleitorado regional. Aquilo que era a vertente de protesto com que se apresentou em setembro não aumentou captação no eleitorado”, analisa Teresa Ruel.

O "horror"

Filipe Sousa, de 59 anos, foi eleito presidente da Câmara de Santa Cruz pelo JPP em 2013. Um ano depois dos grandes incêndios de 2012, que apanharam o então presidente da Câmara de férias no Porto Santo e com os irmãos Sousa no terreno a participar nas operações de socorro e apoiar os desalojados pelos fogos. Em 2013, aliás, os irmãos Sousa venceram não só a Câmara como todas as juntas de freguesia do concelho.

Filipe foi funcionário da Empresa de Eletricidade da Madeira, foi militante do PS durante 10 anos e chegou a ser deputado socialista, mas bateu com a porta precisamente para fundar o JPP.

Élvio Sousa (esquerda) e Filipe Sousa (centro) são os fundadores do JPP foto HOMEM DE GOUVEIA/LUSA)

Élvio Sousa, 51 anos, doutorado em História, variante de Arqueologia, é o atual secretário-geral do JPP. Élvio tornou-se presidente da Junta de Freguesia de Gaula logo no ano de nascimento do JPP, em 2009. Élvio Sousa já acusou Miguel Albuquerque de ter “horror a pobres”, de “proteger os milionários” e, num debate em 2022, disse que Albuquerque não tinha “tintins” para enfrentar o seu partido.

Em 2023, os irmãos zangaram-se precisamente por causa da política. Na origem da desavença terá estado o facto de o grupo parlamentar ter proposto que o nome de Filipe estivesse em quinto lugar na lista ao Parlamento regional. Filipe Sousa demitiu-se da presidência do JPP em julho de 2023. Miguel Alves, um vogal da direção que saiu com ele, falou em “traição” e acusou o grupo parlamentar de querer tomar o partido “de assalto”.

Ainda assim, concorrem às eleições regionais em setembro de 2023, crescem quase seis pontos percentuais relativamente às eleições de 2019 e regressam aos cinco deputados que tinham elegido em 2015, recuperando os dois que tinham perdido em 2019. Agora têm nove, bem à frente dos quatro do Chega e a dois do PS.

A "poção mágica dos druidas de Gaula"

O facto de o JPP controlar o município de Santa Cruz e as suas cinco freguesias e também o próprio nome da freguesia onde nasceu – Gaula - fez surgir comparações entre os irmãos Sousa e os “irredutíveis gauleses” da aldeia de Astérix. Tal como o herói de banda desenhada que resistia - “ainda e sempre ao invasor” -, também o JPP conseguiu fazer frente ao quase cinquentenário poder do PSD na Madeira.

A comparação é alimentada pelos próprios fundadores do partido. Numa entrevista ao Expresso, em 2015, Élvio Sousa, recusou revelar a “poção mágica dos druidas de Gaula”. Orgulham-se de se terem constituído como independentes e dissidentes. Em 2023, Élvio Sousa garantia mesmo, numa entrevista à TSF, que “99 por cento dos militantes” do JPP nunca estiveram noutros partidos.

Mas o que defende mesmo o JPP? Durante a campanha para as regionais antecipadas deste domingo, o partido lançou propostas como a redução da despesa pública e da estrutura do Governo. O PCP classificou, na última noite, o discurso do JPP como “demagógico e populista”, de uma força política com demasiada “projeção mediática”.

No site do partido podemos ler que é “defensor da democracia política” e que se orienta “por uma matriz social, basista e plural”. “Segue uma orientação clara e construtiva, tendo em vista meios e ações renovadores que motivem a consciência cívica de intervenção, promovendo e valorizando, desta forma, a cidadania participativa na resolução dos problemas nacionais”, pode ler-se ainda.

“Enquanto organização política, o JPP pretende representar todos os cidadãos portugueses no território nacional e na diáspora, assumindo-se como herdeiro da participação direta e ativa de mulheres e homens na vida política, e tendo como pressuposto que o poder político pertence ao povo e é exercido constitucionalmente por ele e pelos seus legítimos representantes”, acrescenta-se.

Solução de governação?

Depois dos resultados deste domingo, a grande dúvida é se o JPP pode ou não ser uma solução de governação. Se nas primeiras reações aos resultados deixou hipóteses de coligação em aberto, as razões que levaram à sua constituição e as declarações que os seus fundadores foram fazendo foram sempre no sentido de se afirmarem sozinhos.

Em 2023, em declarações ao Observador, Élvio Sousa chegou de resto a excluir a hipótese de qualquer acordo com o PSD por causa dos seus “vícios de governação”. Agora, Paulo Cafôfo, do PS, já mostrou vontade de fazer um acordo com o JPP para tirar o PSD do poder. “Do ponto de vista teórico, enquanto hipótese, existe essa possibilidade”, analisa a politóloga Teresa Ruel.

"Do ponto de vista prático, não sabemos. Não sabemos até que ponto PS e JPP terão disponibilidade para se sentarem e conversarem. Não chega, precisam de outro partido para o fazer. Não sabemos também se essa eventual solução seria aceite pelo representante da República”, aponta Teresa Ruel.

Os partidos políticos começam a ser ouvidos esta semana pelo representante da República na Madeira, com vista à formação de governo.

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