(Foto acima: investigação sugere que o junco-comum passou por uma evolução rápida quando os campus universitários estiveram encerrados durante a pandemia de covid-19. Sierra Glassman)
Há décadas que os juncos-comuns animam o campus da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, enquanto procuram alimento.
Esta espécie, da família dos pardais, não é habitualmente encontrada em cidades. No entanto, com a crise climática a afetar os seus habitats nas florestas montanhosas, começou a colonizar áreas urbanas do sul da Califórnia, incluindo universidades como a UCLA.
As aves urbanas têm bicos mais curtos e grossos, um contraste evidente com os longos bicos que as suas congéneres das montanhas usam para se alimentarem de sementes e insetos.
No entanto, quando os investigadores da UCLA analisavam os dados sobre os pássaros que habitaram o campus nos últimos anos, notaram algo curioso: os juncos-comuns nascidos em 2021 e 2022, após o início da pandemia de covid-19, apresentavam bicos mais longos, semelhantes aos dos pássaros das montanhas. Mas, à medida que as restrições foram levantadas e os alunos regressaram às aulas, as características dos pássaros regressaram ao normal, e os bicos das aves nascidas em 2023 e 2024 encurtaram novamente, segundo relataram as investigadoras Pamela Yeh e Eleanor Diamant, em dezembro, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
“Costumamos pensar na evolução como um processo lento”, afirma Diamant, autora principal do estudo, que à data da investigação era doutoranda na UCLA e é atualmente professora assistente no Bard College, em Annandale-on-Hudson, no Estado de Nova Iorque.
"Pensávamos que este período seria provavelmente demasiado curto para observar mudanças na população… Por isso, ficámos realmente surpreendidos ao analisar os dados’, acrescenta Diamant. "Quando comparei ano a ano, ficou evidente o quão significativa era a mudança."
As autoras colocam a hipótese de que, em comparação com as aves das zonas montanhosas, de bicos mais longos, os bicos mais curtos dos pássaros do campus poderão ser mais adequados a uma dieta mais variada, composta por restos de comida humana. Contudo, em 2020, quando as aulas passaram a ser online e o refeitórios fecharam, os bicos das crias evoluíram novamente para o seu formato mais longo, mais compatível com a sua dieta natural.
O estudo evidencia os impactos que os humanos podem ter na vida selvagem e demonstra a rapidez com que a evolução pode ocorrer em animais que precisam de se adaptar ao seu ambiente, afirmam os investigadores.
Os humanos e a natureza estão "bastante interligados, e nós fazemos parte do ecossistema". "Acho que essa é a principal lição a reter", considera Yeh, coautora do estudo e professora de Ecologia e Biologia Evolutiva na UCLA. Yeh estuda os juncos há cerca de três décadas.
"Creio que a segunda lição é perceber tudo o que existe, mesmo nos nossos quintais", acrescenta Yeh. "Aposto que há muita evolução a acontecer à nossa volta, evolução rápida, bem diante dos nossos olhos, mas da qual nem nos apercebemos porque não observamos com atenção suficiente."
Evolução rápida nos pássaros canoros
Em 1835, Charles Darwin encontrou evidências que apoiavam a sua teoria da evolução, ao observar que os tentilhões das ilhas Galápagos, junto à costa do Equador, apresentavam diferentes formatos de bico, adaptados às fontes de alimento de cada ilha. Mais tarde, na década de 1970, verificou-se que os tentilhões estavam a passar por uma rápida evolução provocada pela seca. Durante períodos de seca, os pássaros com bicos maiores tinham maior sucesso na sobrevivência, pois conseguiam alimentar-se das sementes mais duras encontradas no solo seco. A seleção natural, processo pelo qual características vantajosas são transmitidas às gerações seguintes, resultou numa geração de tentilhões com bicos maiores.
Yeh e Diamant também mencionaram investigações mais recentes nas quais foram observadas alterações no formato do bico em várias espécies, como um estudo de 2017 sobre o chapim-real e uma pesquisa de 2025 sobre beija-flores. Ambos mostraram que as aves desenvolveram bicos mais longos em resposta aos comedouros.
“É emocionante e surpreendente observar mudanças tão rápidas num pássaro tão comum como o junco. Embora os biólogos evolucionistas modernos saibam que alterações rápidas podem ocorrer em populações selvagens, dificilmente se esperaria ver transformações num espaço de apenas algumas gerações", diz Ian Owens, professor do departamento de ecologia e biologia evolutiva da Universidade Cornell e diretor executivo do Cornell Lab of Ornithology.
“E é particularmente fascinante ver isso acontecer como resposta a uma mudança direta causada pelos humanos, como aconteceu com o confinamento na pandemia,” acrescenta Owens, que não esteve envolvido no estudo.
A evolução é a principal hipótese, mas os autores salientam que outras explicações precisam de ser avaliadas, como o fluxo genético, quando aves de outras populações, como os pássaros das montanhas, se juntam ao grupo. No entanto, os autores consideram este cenário pouco provável, uma vez que os pássaros não apresentaram alterações comportamentais.
Os autores estão a recolher e a analisar informações genéticas a partir do sangue dos pássaros, para determinar se as alterações nos bicos resultam de mudanças genéticas.
"Quando pensamos nos impactos humanos sobre a vida selvagem, tendemos a focar-nos nos grandes fatores, como a urbanização, a poluição, a perda de habitat, a acidificação dos oceanos ou a introdução de espécies invasoras. Mas este estudo concentra-se num efeito muito mais subtil e passageiro — se um campus universitário estava em funcionamento ou não. Quem diria?", observa Jeff Podos, ecologista comportamental e professor da Universidade de Massachusetts Amherst.
"O estudo atual é o único que conheço que documentou uma evolução adaptativa real associada à pandemia — e, mais uma vez, é realmente notável que tenham ocorrido dois períodos de evolução, tanto durante como após a pandemia, e que esses períodos tenham sido extremamente rápidos", sublinha Podos, que não esteve envolvido na investigação.
Este professor destaca a importância de dispor de conjuntos de dados de longo prazo, como os registos dos autores sobre os juncos-comuns; sem eles, alterações em características como o formato do bico poderiam passar despercebidas. Para Podos, este tipo de informação é particularmente valiosa para espécies cuja população tem vindo a diminuir, como o junco-comum, pois permite aos cientistas compreender melhor como protegê-las.
"No caso dos juncos do campus, o facto de prosperarem num ambiente urbano e de se adaptarem à presença humana, pode transmitir uma mensagem de esperança."
"Estamos a provocar muitos danos a nível global", afirma Diamant, referindo-se às interações humanas com a vida selvagem. "Embora os juncos estejam em declínio como um todo, conseguem prosperar nas cidades. Ver como as populações se adaptam, mesmo perante o que consideramos probabilidades desfavoráveis, traz alguma esperança: se eles conseguem, e ainda nos conseguem surpreender, talvez outros organismos também consigam."
*Taylor Nicioli é uma jornalista freelancer que reside em Nova Iorque