Sócrates emocionou-se ao contar como a mãe lhe deu 450.000€ para Paris: "Não devia ser obrigado a falar disto"

15 jul 2025, 18:54

Primeiro fez piadas sobre o teor das perguntas do Ministério Público, no fim terminou com a voz embargada ao falar sobre o dinheiro que a mãe lhe deu para conseguir viver em Paris: houve montanha-russa de emoções na última sessão do julgamento da Operação Marquês antes das férias judiciais. Em setembro há mais

Foi José Sócrates quem sugeriu a pergunta. Eram 15:00 e o principal arguido do Processo Marquês acabava de regressar de um intervalo que ele próprio pediu após anunciar à juíza Susana Seca que falar “três horas de manhã e três horas à tarde” era “demasiado” porque “realmente” fica “cansado”. Mas perante a sugestão da magistrada para que se sentasse, o antigo primeiro-ministro foi contundente. “Eu não gosto de falar sentado: não só acho que fico melhor de pé como o faço, podem não acreditar, por respeito às pessoas que me estão a ouvir. E porque fico com melhor ideia de mim próprio.” E foi de pé que o ex-governante, que passou as horas anteriores a negar qualquer intervenção para beneficiar a empresa Lena ligada ao amigo Carlos Santos Silva, aconselhou o procurador Rómulo Mateus a interrogá-lo sobre o seu património. “Eu gostaria que o Ministério Público fizesse perguntas relativamente ao meu dinheiro”. 

O ex-primeiro-ministro acabava de contar a sua versão dos factos com ainda cerca de uma hora para o final da sessão. Tempo que, tentou, fosse diminuído em 15 minutos após a juíza lhe ter perguntado se se sentia “animosamente disponível” para ser interrogado pelo Ministério Público. “Sra. Juíza, não sei… Se calhar, podemos prosseguir”, interrompe Rómulo Mateus. “A que horas vamos terminar?”, insiste o principal arguido do processo - que ouve de Susana Seca a meta para encerrar a sessão às 17:00. Sócrates: “Enfim, estou cá um dia e meio a apresentar o dossiê Lena, temos de pensar nisso melhor. Mas enfim, a sra. Juíza me dirá. Faça favor, senhor procurador”.

Nesta altura em que o ex-primeiro-ministro estava a contar ser interrogado sobre a matéria de facto que consta na acusação, nomeadamente sobre os indícios de ter beneficiado o grupo Lena em contratos relacionados com o TGV e na construção de casas sociais na Venezuela, o procurador surpreende-o. A intenção do Ministério Público seria, por agora, fazer questões “gerais” sobre as relações de Sócrates com outros intervenientes. É a gota de água para o advogado de Sócrates, Pedro Delille, que até àquele momento estava imóvel a ouvir o seu cliente com a mão presa na testa. "Eu aconselho o sr. José Sócrates a não responder até os procuradores demonstrarem minimamente os crimes que o acusem. Não têm o direito. Não há a mínima de prova exibida." 

A impulsão do seu protesto solta um riso discreto de Susana Seca, riso esse que não passa despercebido à defesa do ex-primeiro-ministro. "Não acho que tenha graça aquilo que estou a dizer”, reclama Pedro Delille. Sócrates, que decide não acatar a recomendação do seu advogado, começa a responder às perguntas do Ministério Público. Explica a sua relação de amizade com Carlos Santos Silva, que diz só ter tido conhecimento de que trabalhava no grupo Lena posteriormente a exercer funções governativas, mas mostra-se perturbado quando o interrogam se “a relação de amizade se estendia aos respetivos cônjuges”. 

“Isso é uma grande pergunta”, ironiza o antigo governante, acusado de vários crimes de corrupção. “Essa relação era estendida… de facto, sr. procurador, isso é uma grande pergunta... Hesitei a responder porque há momentos em que só o silêncio deve ser dito.” Sócrates viria a manter a estratégia de hostilizar as questões dirigidas a si já testada nas últimas sessões, mas tentou uma abordagem diferente, recorrendo ao humor quando interrogado sobre o momento em que, após ter cessado funções como primeiro-ministro, voltou a ter um salário regular. 

O ex-primeiro-ministro respondeu que foi quando foi convidado a ingressar na Octopharma, de Lalanda Castro, quando passou a receber um salário de 12.500 euros por mês - que mais tarde se fixou nos 25 mil. “Um vencimento que nunca tive na vida e muito superior ao de primeiro-ministro.” No entanto, enquanto respondia a esta questão, ia interrompendo para perguntar que horas são e se o julgamento podia terminar um quarto de hora mais cedo. O tribunal, respondeu-lhe Susana Seca, tem “compreensão” relativamente ao “cansaço” de José Sócrates, mas a ordem é “rentabilizar o tempo”. “Há mais arguidos que pretendem exercer a sua defesa” e as perguntas que lhe têm sido dirigidas são de “enquadramento geral, pelo que não custam assim tanto”. 

Sócrates volta a falar em 'espetáculo'

“O melhor é calar-me”, disse José Sócrates de justificar o seu pedido para o julgamento acabar mais cedo. “É que estou a olhar para as pessoas e parece que o Governo vai cair…de sono  com as perguntas do procurador.” Sócrates retomou a sua exposição, afirmando que, quando saiu do Governo, pediu um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos para se poder sustentar a si e ao filho mais velho em Paris durante um ano, para onde ambos foram estudar. Ao fim desse ano, sublinha, ficou sem rendimentos e foi nesse momento que surgiu o momento de maior irritação de José Sócrates. 

A pergunta do procurador Rómulo Mateus seguiu estes moldes: “Na sequência do divórcio que foi tornado público (com Sofia Fava, também arguida neste processo), pagou pensão de alimentos?” “Sim, não me furtava a isso, paguei a educação do meu filho mais velho.” O procurador insiste na questão da pensão que seria obrigatoriamente paga num momento em que não tinha rendimentos certos. “Todos entendemos bem o que quer perguntar”, responde rispidamente Sócrates e fala na “fortuna da mãe”, que tinha uma “herança superior a um milhão de contos” e que decidiu investir esse valor “nos seus filhos”.

“Quando estava em Paris”, explicou José Sócrates sobre o final do ano letivo de 2012, a mãe decidiu ir viver para Cascais numa outra casa e sair do prédio da Heron Castilho, no Marquês de Pombal, Lisboa. “Vendeu a casa e quis dar-me imediatamente o dinheiro”. Ao dizer isto, a sua voz começa a estremecer. “No fundo, é este voyeurismo que querem. O meu irmão morreu a seguir e o meu pai. A minha mãe, um ano depois disse-me que iria vender a casa a Carlos Santos Silva e que me iria dar o dinheiro, que eram 600 mil euros. Ela sabia que eu precisava desse dinheiro porque estava sem vencimentos. E eu recordo-me de consultar um advogado e de lhe ter perguntado se a minha mãe podia fazer essa doação. E o advogado disse que não, porque isso seria frustrar as expectativas de heranças futuras.” 

Então, conta já visivelmente emocionado, “a minha mãe deu-me 450 mil euros”. E esse foi “o dinheiro que tive nesse período entre junho de 2011 e os primeiros rendimentos da Octapharma”, que começaram em 2013. “Vivi disso, paguei o empréstimo e o ensino secundário dos meus filhos. Isto faz parte da minha vida privada e não devo ser obrigado a falar disto…”, afirmou já com a voz embargada.

Foram essas as últimas palavras que Sócrates deu à juíza, que o fitava com os óculos negros na mão. Agora, o ex-primeiro-ministro só regressará ao Campus de Justiça em setembro, onde continuará a responder às perguntas do Ministério Público sobre a acusação de ter agido em prol dos interesses do grupo Lena a troco de cerca de 3 milhões de euros pagos através de um complexo esquema de contas bancárias e offshores, segundo a acusação. 

Ainda antes de se ir embora, Sócrates, que não falou com os jornalistas à entrada - pela primeira vez desde o início do julgamento -, dirigiu-se a eles à saída para criticar o Ministério Público por “fazer um espetáculo com recurso à vida privada”. É a segunda vez que o antigo governante usa a palavra ‘espetáculo’ no decurso das sessões depois de, na primeira, ter sugerido que o Tribunal devia permitir a emissão do seu julgamento nas televisões.

Crime e Justiça

Mais Crime e Justiça