Julgamento de Johnny Depp e Amber Heard mostra a importância de falar com adolescentes sobre violência no namoro. Eis 5 conselhos

CNN , Katie Hurley
5 jun, 21:00
Johnny Depp e Amber Heard (AP Photo)

Processo judicial das duas estrelas de Hollywood teve muita visibilidade. E embora o caso fosse sobre difamação, o que ganhou mais notoriedade foi a toxicidade da relação.

Katie Hurley é autora do livro "No More Mean Girls: The Secret to Raising Strong, Confident and Compassionate Girls," [tradução livre: “Não Queremos Mais Raparigas Más: o Segredo para Educar Raparigas Fortes, Confiantes e com Compaixão”] e psicoterapeuta de crianças e adolescentes. É especializada em trabalhar com pré-adolescentes, adolescentes e jovens adolescentes.

 

Como terapeuta que trabalha com pré-adolescentes, adolescentes e jovens adolescentes, o meu objetivo é ajudá-los a compreender que o amor é um ingrediente essencial para uma relação a dois saudável e íntima. Mas também o são aspectos como a segurança na relação, empatia, confiança e, mais importante, o respeito mútuo. Relações saudáveis crescem a partir de uma semente de respeito mútuo.

Essa não é necessariamente a mensagem que os jovens tiram do julgamento por difamação Johnny Depp-Amber Heard, ou de outros casos judiciais de grande visibilidade. A terapeuta de casais que testemunhou no julgamento Depp-Heard partilhou observações sobre uma relação que incluía altercações físicas e verbais.

Mesmo assim, muita gente na Internet declarara que Depp fora um claro “vencedor” mesmo antes de o júri sequer começar a sua deliberação, mas os detalhes que emergiram, combinados com a natureza pública do caso, resultaram em mensagens para adolescentes e jovens adultos, à medida que eles assistiam ao desenrolar do caso nas redes sociais.

Uma rapariga de liceu com quem falei comentou que a maioria dos seus colegas rapazes pareciam estar a comemorar, ao fazer publicações “Justiça para o Johnny” nas suas histórias no Instagram. Outra pediu clarificação sobre o termo “abuso mútuo”. A minha própria filha adolescente passou-me o telefone e pediu-me para ajudá-la a percorrê-lo, uma vez que ela não tinha prestado grande atenção ao julgamento, mas muitos dos seus amigos tinha-no claramente feito.

 

Adolescentes e jovens adultos precisam de saber como obter ajuda se uma relação se tornar agressiva ou violenta.

Preocupo-me com as mensagens internalizadas que podem resultar de um caso que revelou comportamentos tóxicos e violência normalizada dentro de uma relação. Enquanto o caso se centrou à volta de processos de difamação, o conteúdo partilhado (e partilhado e partilhado) focou-se numa relação volátil que foi amplamente sensacionalizada nas redes sociais. As nuances de vitimização são difíceis de avaliar a partir de pequenos vídeos com músicas de ouvido.

A violência no namoro entre Adolescentes e jovens adultos não é incomum. As estatísticas compiladas pelo Children's Hospital of Philadelphia mostram que 1 em cada 3 adolescentes nos Estados Unidos é vítima de abuso físico, sexual, emocional ou verbal por parte de um parceiro de namoro. Um estudo conduzido pelo Children's Hospital sobre a violência do parceiro íntimo mostrou que a vitimização começou a aumentar aos 13 anos de idade, mostrou um aumento acentuado entre os 15 e os 17 anos, e continuou a aumentar entre os 18 e os 22.

[Nota: em Portugal, um estudo de 2020 da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta com o apoio do governo e de três faculdades portuguesas, revelou que “58% de jovens que namoram ou já namoraram reportam já ter sofrido pelo menos uma forma de violência por parte de atual ou ex-companheiro/a; e 67% de jovens consideram como natural algum dos comportamentos de violência. O estudo aponta para a elevada prevalência e legitimação de formas específicas de violência como a violência psicológica, aquela exercida através das redes sociais ou as atitudes de controlo (sobre vestuário e hábitos de convívio, entre outros)”.]

Os adolescentes e os jovens adultos precisam de informações rigorosas sobre o desenvolvimento de relações íntimas saudáveis, e sobre como obter ajuda se uma relação se tornar agressiva ou violenta. Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA caracterizam a violência no namoro entre adolescentes como uma experiência adversa que pode ter consequências a curto e longo prazo, incluindo depressão e ansiedade, abuso de substâncias, idealizações suicidas e risco de problemas futuros de relacionamento.

Como terapeuta, ouço muita normalização de linguagem que retira poder aos jovens mulheres e LGBTQIA, piadas que ultrapassam os limites e tornam os jovens desconfortáveis, pressão dos pares em torno do sexo e relações íntimas, e agressão relacional que não é verificada nem resolvida.

Os jovens não sabem como lidar com relações complicadas sem apoios postos em prática e educação em torno da definição de fronteiras saudáveis. Os pais podem aproveitar esta oportunidade para falar com pré-adolescentes e adolescentes sobre violência no namoro e como desenvolver relações de namoro saudáveis.

Criar um espaço seguro

Criar um espaço seguro para falar com os adolescentes é útil para compreender a dinâmica do que se passa na sua vida quotidiana fora de casa. Na verdade, os adolescentes dizem-me que anseiam por conversas com os adultos, mas preocupam-se com o julgamento e com as respostas.

"Validar as suas emoções é importante porque as relações entre jovens podem ser incrivelmente carregadas emocionalmente ", disse Alison Trenk, uma assistente social clínica e terapeuta de relações, que trabalha com adolescentes e jovens adultos. "Eles estão a experimentar namoros tendo apenas alguns anos de experiência de vida".

Mas não comece a tentar resolver os seus problemas logo à primeira - Trenk avisa que se se entrar imediatamente em modo de resposta, a conversa será acabada.

Os pais tornam-se uma fonte de confiança para os seus filhos quando abrandam e dedicam tempo a ouvir, a validar emoções, a empatizar com sentimentos complexos e a partilhar informações precisas e recursos para ajudar os seus filhos adolescentes a resolverem as coisas. "Valide primeiro os sentimentos fortes, para que possa falar das nuances nas relações íntimas", aconselhou Trenk.

Fale de relações saudáveis

É um erro presumir que os adolescentes sabem tudo o que precisam de saber sobre o desenvolvimento de relações saudáveis a partir da observação de modelos a seguir. Eles precisam de orientação específica.

Trenk sugere encorajar os adolescentes a explorar os seus valores e a forma como se relacionam com as relações. "Uma pergunta que pode fazer é: como podes avançar para uma ligação saudável que esteja de acordo com os teus valores?"

As relações saudáveis são construídas em cima de confiança, honestidade e respeito. Comece com estes valores, mas peça ao seu filho para acrescentar mais à lista. Juntos, podem fazer uma “nuvem de palavras” com valores que, quando utilizados em relações íntimas, constroem fortes ligações.

Conheça os sinais de aviso

As relações entre os adolescentes podem parecer simultaneamente excitantes e esmagadoras. É fácil eles perderem-se nos momentos altos, mas falharem alguns sinais precoces de alerta de stress numa relação.

Ciúmes e discussões intensas, comportamento controlador, monitorização constante através de aplicações de rastreio ou de mapas, comunicação excessiva, críticas indevidas e pedidos para que um parceiro mantenha segredos sobre o comportamento dentro da relação, são sinais de uma relação pouco saudável.

Examine questões em torno do poder

“Se os adolescentes estiverem a tentar conseguir uma ligação, a exploração do poder não é útil", disse Trenk. "A distribuição desigual da poder conduz à desconexão".

Fale com os seus filhos adolescentes sobre as diferenças de poder que podem ocorrer no contexto das relações. Numa relação saudável, o poder é distribuído uniformemente. Cada pessoa preserva a sua individualidade e sente-se livre para se expressar, porque a sua relação é construída com base no respeito mútuo. Este é um exemplo de poder positivo.

Diferenças de poder, por outro lado, podem ocorrer quando um parceiro usa a manipulação ou a força para desestabilizar o outro e ganhar o controlo da relação. Este desenvolvimento pode ocorrer gradualmente nas relações entre adolescentes.

Ensine competências de assertividade

Todos os adolescentes precisam de aprender a estabelecer limites saudáveis e a afirmar os seus sentimentos e necessidades numa relação. Uma fronteira é uma linha clara que o seu filho adolescente desenha para manter uma relação saudável, e pode incluir limites físicos, emocionais, sexuais, financeiros e temporais. Ajude o seu adolescente a definir limites saudáveis e como comunicá-los a um parceiro.

A definição de limites pode ser difícil para os adolescentes, que muitas vezes enfrentam a pressão de uma variedade de fontes. Pratique em casa, envolvendo-se em encenações com o seu filho adolescente ou encorajando-o a praticar ao espelho.

 

Obter ajuda

Se notar mudanças de comportamento no seu filho, incluindo mudanças de humor, hábitos alimentares e de sono, lutas académicas, perda de interesse em atividades diárias habituais, evitar amigos, irritabilidade ou comportamentos altamente reativos, procure ajuda para ele. Embora uma comunicação aberta e honesta, expressa em linguagem de apoio, seja um ótimo princípio, não tem de passar por isto sozinho. Um profissional de saúde mental pode ajudar o seu filho adolescente, e a si, a navegar neste momento difícil.

Se está a passar ou conhece alguém que esteja a passar por uma relação abusiva, a ajuda está disponível no site da APAV – Apoio à Vítima, onde pode ler o manual crianças e jovens vítimas de violência: compreender, intervir e prevenir, ou ligue pelos telefones 116 006 (linha gratuita) ou 800 219 090 (Linha Internet Segura). Para casos de violência doméstica, a linha de apoio é 800 202 148.

 

 

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