opinião

A verdade do SNS

16 jun, 07:00

Notas soltas

Durante o dia de ontem, noticiei como jornalista os bloqueios nas urgências de ginecologia e obstetrícia de alguns hospitais do país, nomeadamente no de Santa Maria. O governo tardou em reagir. António Costa foi evasivo nas palavras. Marta Temido deu uma conferência de imprensa para não dizer nada. Do ponto de vista da comunicação, foi tudo errado. Mas o que eu pretendo é falar como cidadã.

O SNS precisa de uma reforma profunda? Claro que sim. Mas é relevante sublinhar o corporativismo dos médicos, principalmente daqueles que dominam a «máquina». Há médicos que trabalham até às 13 horas nos hospitais públicos e que de seguida vão fazer o seu trabalho nos hospitais privados ou nas clínicas privadas. Nos privados, têm 10 minutos para fazer uma consulta. Nem mais. Muitos têm tantos doentes na privada que nem sequer precisam de ter protocolos com seguradoras. Paga-se 90 a 100 euros por consulta e já está. Quem quer paga; quem não quer fica sem assistência. Muitos outros fazem dois e três «bancos» por semana e auferem em horas extraordinárias mais de cinco mil euros mensais. Isto acontece precisamente com os seniores; não com os internos, que são mal pagos e não progridem nas carreiras porque os «seniores» não o permitem.

É esta a realidade em alguns hospitais públicos. António Costa e Marta Temido não o podem dizer. Mas esta é a verdade. Tal como eu, como doente, a conheço. Não como jornalista, mas como doente. Insisto.

No caso da psiquiatria, por exemplo, há casos de médicos que são assistentes na faculdade de Medicina; não dão consultas hospitalares e recebem o salário como se estivessem diariamente no serviço. Alguns dão consultas de psiquiatria online, como se tal fosse possível numa área da saúde mental cujo limite pode ser a morte.

Esta é uma parte da realidade que eu conheço. Repito: não como jornalista mas como utente. Sei do que falo.

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