Kenneth Branagh à CNN Portugal: “Mostrar ‘Belfast’ à minha família foi uma experiência muito emotiva para todos”

24 fev, 10:54

Quis o acaso que a infância de Kenneth Branagh coincidisse com o início do conflito entre unionistas e nacionalistas na Irlanda do Norte. ‘Belfast’ é o filme que recupera essa memória do final dos anos 60, mas num tom quase autobiográfico. O pequeno Buddy, de 9 anos, é o alter-ego do cineasta no retrato de uma família que tenta manter a normalidade quando tudo se complica nas ruas. Podia ser uma história triste, mas não é. Da Academia de Hollywood, vieram sete nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realização para Kenneth Branagh e Melhor Atriz Secundária para Judi Dench.

Quanto de si e da sua história pessoal existe no personagem Buddy e em todo o argumento?

Kenneth Branagh: Algumas coisas, na realidade. Uma delas é o motim que transformou, no bairro onde vivia, um parque infantil numa espécie de fortaleza. Depois, o ponto de viragem que foi a confusão em que nos vimos envolvidos e que passou pelo saque de uma loja; algo muito lamentável para todos. Entre esses dois momentos, as tentativas de uma família para encontrar humor, canções, música, dança e tudo o que a pudesse ajudar numa situação que era muito difícil. Por isso, é um filme inspirado por coisas que vivi e que se expandem ou são exageradas na imaginação do rapaz de 9 anos pelos olhos do qual assistimos a esses acontecimentos.

É verdade que aceitou o papel da Avó sem conhecimento específico sobre o que este filme iria ser?

Judi Dench: Disse que sim, porque o Ken telefonou-me… Conhecemo-nos muito bem, já trabalhamos um com o outro há muitos anos… Ele disse-me que queria ler algo. Pensei que nos iríamos sentar, ler e falar, mas não foi nada assim. Ele chegou, leu o argumento e foi uma experiência muito intensa, realmente. Penso que nem fizemos uma pausa para tomar café nem nada. Foi tudo muito realista, porque era o Ken a ler e porque se tratava da infância dele. Embora o conheça há muito tempo, desconhecia os detalhes da infância ou as particularidades da família em que cresceu.

O que é mais importante aqui, para si: o drama familiar, a guerra civil, o louvor da sua cidade natal?

Kenneth Branagh: Foi tentar ser autêntico na forma como as pessoas falavam, nos momentos de leveza que tinham, no espírito dos irlandeses enquanto lidavam com aqueles períodos mais negros da vida, nas políticas que os afetavam ao entrar e sair das suas ruas e ao passar pelas barricadas. A busca de alguma coisa, mesmo que estivesse por detrás de arame farpado, podia ser uma desculpa para dançar e para ligar as pessoas. Esse espírito de resiliência e bondade no meio de tudo o resto (a guerra civil, a luta política) foi a visão macro para muita gente e também uma visão que afirmava a vida e eu quis mostrar isso.

Não só como atriz, mas também como amiga do Kenneth Branagh com quem, de resto, contracena com regularidade, o que mais a marcou neste filme?

Judi Dench: Compreendi muito bem a experiência que o Ken teve, na medida em que os meus pais foram criados em Dublin, muitos anos antes, mas passaram por situações similares. Embora conheça o Ken há muito tempo, não conhecia os detalhes da infância dele, mas conhecia Belfast, tinha relações lá. Por isso, compreendi o ambiente do que se passou. Inesperadamente, esta era uma visão muito pessoal do Ken que eu conheço desde 1985, creio.

Qual foi a reação do seu irmão e irmã, quando lhes mostrou o filme?

Kenneth Branagh: Foi uma experiência muito emotiva para todos nós. Penso que o meu irmão achou muito terapêutico ver compreendido e reconhecido um período que foi muito difícil para ele e para todos nós. Penso que esse reconhecimento foi importante. Para a minha irmã, que só nasceu sete ou oito meses depois, foi uma revelação. Ela disse-me: “Ken, para alguém que é muito reservado e calado na maior parte do tempo na tua própria vida, expuseste-te bastante, não foi?”

“Belfast” é uma das estreias da semana nos cinemas.

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