É importante reconhecer os sinais de depressão nas crianças, assim como guardar os medicamentos de uma forma segura, afirmam os especialistas
Nota do Editor: Nota do editor: se você ou alguém que conhece estiver a lutar com pensamentos suicidas ou questões de saúde mental, por favor ligue para a linha de crise Voz Amiga 213 544 545 | 963 524 660, para a linha SNS24 808 24 24 24 ou para o 112, ou consulte o site prevenirsuicidio.pt. Encontrará mais contactos e apoios no final deste texto.
As crianças entre os seis e os 12 anos estão a protagonizar um aumento dramático nos casos de automutilação – e para tal usam objetos do dia-a-dia, que estão disponíveis em casa, mostra um novo estudo.
A taxa de casos relatados aos centros de controlo de intoxicações de crianças expostas a substâncias aumentou mais de 50% desde 2000, refere a coautora do estudo, Hannah Hays, que é chefe da área de toxicologia do Nationwide Children’s Hospital e diretora do Central Ohio Poison Center.
Contudo, o número de casos em que há suspeitas de suicídio ou da intenção de automutilação é até quatro vezes maior, acrescenta.
“Era muito mais provável que este tipo de casos resultasse em consequências médicas graves ou na hospitalização dessas crianças», diz Hays.
A especialista refere ter notado a existência de cada vez mais crianças e adolescentes a automutilar-se ou a apresentar tendências suicidas. Por isso, quis perceber se havia mesmo uma tendência real comprovada pelos dados. Nesta investigação foram analisados mais de 1,5 milhões de relatos de exposição a substâncias químicas recebidas por centros de controlo de intoxicações nos Estados Unidos da América.
Os registos junto do centro de controlo de intoxicações relativos a suspeitas de intenção de automutilação de crianças de 11 anos aumentaram 398% desde 2000. O aumento foi de 343% entre as crianças com 12 anos, segundo o estudo, que foi publicado pela Pediatrics, revista da Academia Americana de Pediatria.
As substâncias mencionadas nesses relatos incluíam produtos domésticos comuns, como analgésicos, anti-histamínicos, medicamentos para constipações e vitaminas, revela o estudo.
Por que é que há um aumento dos casos de automutilação?
Os investigadores analisaram dados relativos a crianças pequenas que ingeriram medicamentos de forma acidental e a adolescentes que também os tomaram com o objetivo de causar danos ou por motivos recreativos. Este estudo acaba, contudo, por fornecer dados importantes em relação às idades intermédias, aponta Jennifer Hoffmann, professora assistente de pediatria na Northwestern University e médica assistente em medicina de emergência pediátrica no Ann and Robert H. Lurie Children’s Hospital de Chicago. Esta médica não participou no referido estudo.
Embora os dados sejam mais sólidos devido ao grande número de relatos analisados pelos investigadores, os casos de ingestão que foram notificados aos centros de controlo de intoxicações serão, muito provavelmente, inferiores à realidade — uma vez que as famílias têm de pensar em fazer a notificação depois de algo mau ter acontecido, justifica Hays. Ou seja, a realidade será ainda mais preocupante.
O aumento das situações de ingestão com a intenção de causar dano é algo preocupante, mas com sentido, dados o aumento dos relatos de sentimentos suicidas em crianças mais pequenas, argumenta o psicólogo Christopher Willard, professor de psiquiatria na Harvard Medical School, que não participou no estudo referido neste artigo.
“Quando falamos de crianças mais novas, é sempre difícil saber se elas compreendem na totalidade as consequências dos seus comportamentos e quais são as suas verdadeiras intenções”, refere por email.
Outro dos problemas assenta no facto de existirem mais casas com um aceso facilitado a substâncias tóxicas do que no passado, refere Willard. Na lista incluem-se medicamentos, produtos de limpeza, suplementos e produtos recreativos à base de marijuana.
Limitar o acesso a medicamentos
Uma das lições mais importantes a retirar dos dados é esta: as famílias devem guardar os medicamentos, sejam eles sujeitos ou não a receita médica, num local seguro, bem como eliminar de forma segura esse tipo de produtos que sejam mais antigos, afirma Hoffmann.
“Com um acesso maior, aumenta o risco de exposição”, resume Hays.
A parte do cérebro responsável pela tomada de decisões e pelo planeamento só se desenvolve quando a pessoa chega aos 25 anos. Por isso, se as crianças tiverem acesso a medicamentos potencialmente perigosos, podem acabar por tomar decisões impulsivas, sem pensar bem nas consequências, acrescenta.
Os decisores políticos podem ter um papel nesta matéria, apresentado leis que limitem o tamanho das embalagens de medicamentos de alto risco e alargando o uso de embalagens que exigem que a pessoa retire um comprimido de cada vez, sugere Hays.
“O facto de levar alguns minutos para tirar os comprimidos do blister podem ser o suficiente para fazer a criança pensar no que está a fazer, parar e, portanto, salvar a vida dela”, acrescenta.
Reconhecer os sinais de alarme
Os profissionais de saúde também podem fazer a diferença, avaliando o risco de suicídio e realizando exames rotineiros relativos à saúde mental, diz Hoffmann.
E as famílias também têm de saber que sinais devem procurar, junta Hays. “As crianças nem sempre olham para nós e dizem ‘Estou a sentir-me deprimido. Estou com vontade de me magoar’”, refere. “Os pais devem procurar sinais de mudança nos filhos”.
Entre os sinais que indicam que algo pode estar errado incluem-se mudanças de humor, como o aumento da irritabilidade, desesperança ou choro. Há depois mudanças no comportamento, como recusas em ir à escola. E sinais físicos, como dores de cabeça, alterações no sono ou no apetite. São tudo pistas, refere Hays.
“Se o seu instinto lhe diz que algo está errado, o melhor a fazer é perguntar diretamente à crianças”, sugere. “Comece a partir daí, envolvendo as suas redes de segurança, a escola, o pediatra, para definir um plano com segurança e obter orientações concretas sobre os próximos passos a seguir”.
O suicídio em crianças é, com frequência, um ato impulsivo, precipitado por um evento stressante. Contudo, há muitos relatos a mostrar casos relativos a crianças que não tinham nenhuma condição de saúde mental conhecida, adverte Hoffmann. E acrescenta: isto significa que são necessários esforços de prevenção mais universais.
Contactos, informações e apoios
Para informações, ajudas, contactos consulte o site da Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio em prevenirsuicidio.pt.
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