Os miúdos não estão bem: como a pandemia levou adolescentes e jovens adultos portugueses à violência

22 jun, 07:00

Isolados, expostos a conteúdo agressivo e com vontade de copiarem o colega "cool e corajoso": a pandemia e a vontade de viverem a adolescência numa noite são algumas das causas por trás dos vários casos de violência entre jovens - que subiu 7,3% (aviso: este artigo contém imagens que podem ferir a suscetibilidade dos leitores)

A pandemia, a exposição constante e descontrolada a conteúdos violentos na internet e a necessidade de se integrarem nos seus círculos de amigos tem precipitado os adolescentes para a violência, dizem especialistas à CNN Portugal - que também alertam para um fenómeno: a organização de grupos nas redes sociais com o único objetivo de agredirem um colega ou um rival. 

“Já recebi vítimas deste tipo de agressões específicas e estes menores tiveram mesmo de ser acompanhados psicologicamente. Tem sido muito preocupante”, afirma Manuel Ferreira de Magalhães, pediatra no Hospital Lusíadas do Porto, garantindo que estas movimentações, especialmente feitas no Whatsapp e no Telegram, são “comuns”. “Estamos a falar de jovens desde os 11, 12 anos até aos 18 e é frequente organizarem grupos só para dizerem mal de um colega e organizarem ações para magoarem essa pessoa. Estes grupos têm mesmo o nome do alvo como título.”

Esta forma de planear ataques contra menores tem tido maior expressão desde a pandemia e isso tem uma explicação, sublinha a psicóloga Melanie Tavares, coordenadora do Instituto Apoio à Criança: “Em contexto de grupo acabam por agir de uma forma totalmente diferente de quando estão sozinhos”. Isto porque, garante, há a necessidade de os jovens se sentirem “aceites”. “É o fenómeno da imitação, tentam agir como os colegas que para eles são modelos, que são cool e que não têm medo de nada.”

Amareleja, 19 de junho de 2022

Manuel Ferreira Magalhães sublinha que a interação em grupo fomenta comportamentos violentos porque “uns estimulam os outros a terem comportamentos negativos”. Estes comportamentos podem variar entre uma situação de perseguição a um menor específico ou podem gerar rixas entre círculos de adolescentes, como aconteceu na Amareleja, onde na madrugada do último sábado grupos de jovens se envolveram numa situação de pancadaria na Festa da Juventude. 

Para Melanie Tavares, este tipo de festas são propícias à violência por causa do “excesso de drogas e de álcool sem supervisão”, especialmente numa altura de pandemia em que “os miúdos sentem que não tiveram adolescência” e querem vivê-la num só fim de semana. “Acham que a adrenalina é uma sensação maravilhosa e agem sobre o princípio do prazer. Como não tiveram rituais de passagem, como a primeira festa dos 18 anos, ficaram com a sensação de que não viveram a adolescência como deviam e estão mais predispostos aos excessos.”

Almada, 6 de maio de 2022

Por outro lado, o álcool também é “incendiário” nestas situações e, segundo Manuel Ferreira Magalhães, tem-se registado cada vez mais um fenómeno de binge-drinking entre os adolescentes. “Isto consiste em beber grandes quantidades de álcool num espaço extremamente curto de tempo e leva a que se aumente exponencialmente a violência entre os jovens.” Para o pediatra, este fenómeno “é potencialmente mais grave nos jovens do que o alcoolismo crónico”.

Já Pedro Monteiro, pedopsiquiatra membro da direção do Colégio de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Ordem dos Médicos, encontra outra explicação para a violência juvenil, que, segundo dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2021, subiu 7,3% em 2021. “Entre adolescentes e jovens adultos observamos uma tendência genética e evolutiva para o desenvolvimento de comportamentos de risco e para a criação de rivalidades que depois dão origem a desacatos e rixas”, explica, exemplificando que o mesmo fenómeno se desencadeia nos primatas. “Os macacos, quando atingem a sua adolescência, também registam uma maior subida nos comportamentos violentos.”.

Queluz, 23 de maio de 2022

A par disto, Pedro Monteiro e Manuel Ferreira Magalhães indicam que a exposição a conteúdos violentos na televisão e na internet são “meios facilitadores” para precipitar os jovens para a violência, especialmente durante uma pandemia vivida sobretudo através dos ecrãs. “A covid fez com que jovens se isolassem muito nos seus espaços, expostos a conteúdos desadequados na internet e aquilo que se viu foi uma grande dificuldade da parte dos pais em controlar este acesso”, garante Manuel Ferreira Magalhães, acrescentando que as mensagens relâmpago das redes sociais  ajudam a projetar “ódios desmedidos e infundamentados” e “ódio gera ódio”.

Fafe, 30 de maio de 2022

Desde uma guerra entre gangues que levou a que dois menores, um de 15 anos e outro de 17, fossem baleados em Queluz, a uma rixa de grandes dimensões em Alfama nos Santos Populares, nos últimos meses Portugal assistiu a vários casos de violência entre os jovens. É um facto que reproduz as estatísticas mais recentes do RASI, que indica que foram abertos 5.753 inquéritos tutelares educativos em 2021 (+9,2% que em 2020). 

A maior incidência de criminalidade juvenil registou-se nos distritos de Lisboa, Porto, Setúbal e Faro, sendo que na capital e arredores “encontram-se identificados grupos de jovens com um vasto historial criminoso centrado essencialmente na prática de roubo e ofensa à integridade física grave".

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