Fizeram tudo bem, mas mesmo assim não chega. Portugal bate recordes de emprego, mas milhares de jovens continuam de fora do mercado de trabalho

13 nov, 07:00
Emprego (Adobe Stock)

Portugal nunca teve tanta gente a trabalhar. São 5,3 milhões de pessoas empregadas, o número mais alto desde que há registos. A taxa de desemprego está em 5,8%. Os gráficos descem, os comunicados celebram, os decisores sorriem. Mas os números, como quase sempre, contam apenas uma parte da história. Entre os que estão fora das estatísticas do desemprego - porque já desistiram de procurar ou porque sobrevivem com trabalhos ocasionais - estão os que mais acreditaram na promessa de um país diferente: os jovens qualificados

O mercado de trabalho português está a crescer. Mas há quem, mesmo depois de anos de estudo, formação e estágios, continue de fora, como se a porta se tivesse fechado um instante antes de conseguirem entrar.

Os números, à primeira vista, parecem animadores: no terceiro trimestre de 2025, a taxa de desemprego fixou-se nos 5,8%, o que deverá permitir chegar ao fim de 2025 com a taxa de desemprego anual mais baixa em 20 anos. No entanto, entre os jovens, a realidade é bem diferente - a taxa de desemprego jovem atingiu os 18,8% no terceiro trimestre, ou seja, há cerca de 75 mil pessoas entre os 16 e os 24 anos sem trabalho.

Tomás Moreira e Mariana Moniz têm idades próximas, percursos diferentes e a mesma sensação de impasse: fizeram tudo o que lhes disseram que deviam fazer - estudar, especializar-se, trabalhar - e, mesmo assim, não chega.

"Ter um curso cria uma expectativa falsa em nós"

Tomás Moreira tem 21 anos e fala de forma calma, com a segurança de quem aprendeu a resolver problemas em palco. Cresceu na Murtosa, uma pequena vila de Aveiro, estudou Engenharia e Produção de Som e, ainda em idade de secundário, já montava cabos e microfones em festivais locais.

“Fiz o Boom Festival duas vezes, trabalhei em casas de espetáculo por todo o distrito, com equipas incríveis”, conta, orgulhoso. “Ninguém dava nada por mim e acabei por conseguir imensas coisas. Tive um percurso académico brutal.”

O Boom Festival, realizado de dois em dois anos em Idanha-a-Nova, é frequentemente considerado um dos melhores festivais de música eletrónica do mundo. Para o Tomás, foi o primeiro grande teste à vida profissional. (Cortesia Tomás Moreira)

O entusiasmo muda de tom quando fala do presente. “Agora estou à procura de emprego. Procuro um emprego qualquer, para ser honesto. Sinto que isto de ter um curso nos cria uma expectativa falsa. Achamos que vamos sair e ter uma vida só dedicada àquilo e isso não acontece.”

Depois de terminar o curso, foi aceite numa universidade em Londres, mas o sonho ficou por cumprir: os custos, perto dos 40 mil euros, tornavam-no impossível. “Neste momento estou a tentar aumentar o dinheiro que tenho, as minhas poupanças. Acho que o melhor a fazer é ir para o estrangeiro, ganhar estabilidade e depois investir em mais formação na minha área. Só assim posso dedicar-me realmente a esta vida.”

O economista João Cerejeira reconhece que a história de Tomás não é exceção. O crescimento do emprego, explica, “tem sido impulsionado por setores de baixo valor acrescentado, como o turismo, a restauração ou o comércio”. O país está a criar postos de trabalho, sim, “mas nem sempre nas áreas que exigem mais qualificação”.

Para os jovens formados, isso traduz-se em portas que abrem - mas para outros. Em áreas mais técnicas ou criativas, como a de Tomás, as oportunidades são mais escassas. Apesar de ter havido sinais de crescimento em setores mais inovadores, ainda não têm um "peso muito significativo”.

“A principal dificuldade é continuarmos a ter um perfil de especialização ainda muito assente em trabalhos e profissões de baixo valor acrescentado. Há aqui um problema com que lidamos recorrentemente - os desencontros, ou mismatch, entre aquilo que o jovem é capaz de fazer, o que tem gosto em fazer e o que o mercado realmente oferece.”

No caso de Tomás, essa instabilidade junta-se a um outro obstáculo: as oportunidades estão longe de casa. A maioria dos trabalhos na área do som ao vivo concentra-se entre Lisboa e Porto, cidades onde o custo de vida, diz, é impossível de acompanhar. “Não nasci num berço de ouro. Não tenho um bom carro, e as rendas são ridículas. Mesmo que fosse trabalhar na minha área, os salários não chegavam para cobrir as despesas.”

“Isso limita muito a aceitação de empregos fora da zona de residência habitual dos jovens”, explica o economista ouvido pela CNN Portugal. “Um jovem que mora no norte do país pode encontrar uma vaga em Lisboa, mas não a aceita porque os custos de transporte e de habitação são demasiado elevados. Essa limitação de mobilidade geográfica e setorial é má não só para o trabalhador, mas para a economia como um todo, porque a torna menos eficiente.”

O que resta é um impasse: trabalhar fora da área ou emigrar. “Estou a pensar ir para a Holanda. Lá fora, a formação é mais valorizada e arranjas oportunidades mais específicas. Aqui pedem-te cinco anos de experiência para ganhares uma miséria. Estudas gestão e acabas numa caixa de supermercado.”

Tomás ri-se, mas é um riso que tenta disfarçar a frustração. Fala do país como quem o ama, mas sente que está a ser expulso dele aos poucos.

Formado em Engenharia e Produção de Som, Tomás chegou a ser aceite numa universidade em Londres, mas não tinha forma de suportar os custos. (Cortesia Tomás Moreira)

“É muito frustrante. Passo o dia a mandar currículos e recebo poucas respostas. Quando aparecem propostas, são fábricas, armazéns, coisas assim. Em último caso vou aceitar - claro, não posso estar muito mais tempo sem trabalhar - mas é triste. Nós queremos trabalhar, só que parece que o país não quer que seja naquilo que estudámos.”

Os dados mostram , no entanto, que o ensino superior continua a ser uma proteção importante contra o desemprego: entre os licenciados, a taxa desce para 4,7%, abaixo da média nacional.

Ainda assim, Tomás recusa-se a desistir da área que escolheu. “Nunca pensei em mudar, nem acho que vá pensar um dia nisso. Quando te apaixonas verdadeiramente por uma coisa, isso tem muita força. É o cliché do ‘escolhe um trabalho de que gostes e não terás de trabalhar nem um dia na tua vida’, mas é mesmo assim.”

Tomás reconhece, no entanto, que o problema não é só dele. É o reflexo de uma geração que enfrenta as mesmas dificuldades. “O Governo e o estado atual do país tiram-nos logo esse sorriso no início, mesmo que gostemos do sítio. Tiram-nos o sorriso com os salários, com a precariedade que se vive. E os patrões também não conseguem dar mais quando o país está assim. Os jovens encontram a felicidade lá fora por causa dos salários, ponto final. Isso prova que muitos preferem fazer o que não gostam e viver fora, do que ficar cá a tentar uma carreira nas cinzas.”

Às vezes, admite, sente-se a falhar consigo próprio e com os outros. “É muito chato. Passo o dia sem fazer nada, só a mandar currículos. Isso faz mal à cabeça, afeta a autoestima, o humor, tudo. Chega a um ponto em que já nem te sentes bem em casa, porque passas demasiado tempo sozinho. Torna-se um ciclo péssimo, emocionalmente, e é muito desmotivante.”

E depois há o lado simbólico, aquele que o salário não mede. 

Tomás sonha criar a sua própria empresa de som ao vivo, um projeto que, diz, só será possível com estabilidade financeira. (Cortesia Tomás Moreira)

“Não é só o dinheiro. É o sentimento de estares a fazer o que gostas e de estares orgulhoso disso. Por mais que o emprego corresponda às tuas expectativas, se o salário não corresponder, a motivação nunca será a mesma. Se recebêssemos o que achamos que merecemos, fazíamos o trabalho com mais qualidade e mais afinco. Quando gostamos do que fazemos, não queremos só entregar o trabalho feito, queremos entregá-lo bem feito, e chegar a casa orgulhosos. Não é só fazê-lo por fazer, porque para isso as zonas industriais estão cheias de emprego. Há uma expectativa de fazermos da nossa vida aquilo que realmente gostamos.”

Tomás faz uma pausa. “Ninguém estuda para receber o ordenado mínimo.”

"Agarro-me a isto com força", mas "é cansativo recomeçar do zero tantas vezes"

Mariana Moniz tem 24 anos e vive em Odivelas, Lisboa. Licenciada em Estudos de Cultura e Comunicação, sempre sonhou em contar histórias - as dos outros, as do país, as que fazem pensar. Durante a faculdade, acreditou que o talento e o esforço seriam suficientes para abrir portas. Hoje, diz, percebeu que o mercado de trabalho funciona com outras regras e que, muitas vezes, a sorte e as relações contam mais do que o mérito.

Começou a trabalhar na área em 2021, num contexto ainda marcado pela instabilidade da pandemia. Conciliava o trabalho nas redações com part-times em lojas de roupa. Trabalhava muito, ganhava pouco e raramente tinha horários definidos. “Nunca seria o possível para ter uma vida digna”, recorda.

Licenciada em Estudos de Cultura e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Mariana passou por várias redações desde que terminou o curso, mas nunca teve estabilidade. (Cortesia Mariana Moniz)

Os contratos foram surgindo - um de nove meses, outro de um ano - mas nenhum chegou a ser renovado. As justificações eram quase sempre as mesmas: “reestruturações dentro da empresa”. Com o fim de cada vínculo, Mariana voltava ao LinkedIn, aos sites de emprego, às candidaturas por e-mail. “É cansativo recomeçar do zero tantas vezes”, admite.

Ser jovem, diz, é tanto uma vantagem como uma fragilidade no mercado de trabalho. “O facto de sermos jovens é visto como algo bom porque somos mais camaleónicos, mais adaptáveis e mais abertos à novidade. Mas, ao mesmo tempo, somos os mais descartáveis. Se me for embora, no dia seguinte há outra pessoa pronta a ocupar o lugar. Somos muito substituíveis.”

O economista João Cerejeira explica que esta precariedade é também consequência de um mercado dividido em dois blocos: “Temos um mercado de trabalho relativamente rígido para quem tem um contrato sem termo e bastante flexível para quem tem contrato a prazo. Os mais jovens acabam por ser a variável de ajustamento às variações da conjuntura: quando a economia está favorável, o emprego cresce, mas quando há desaceleração, são os primeiros a ser despedidos. Isso cria carreiras muito interrompidas e segmentadas.”

A instabilidade dos contratos levou Mariana a procurar alternativas. Durante algum tempo, tentou reinventar-se como freelancer. A liberdade de gerir o próprio trabalho soava bem, mas depressa percebeu que a autonomia tinha um preço. Por cada reportagem, recebia entre 200 e 250 euros, valores que raramente cobriam o tempo e o esforço investidos. “Fazer jornalismo assim exige coragem”, afirma. “E obviamente que deixa uma pessoa desmotivada porque, quer dizer, então eu faço uma reportagem e na melhor das hipóteses vou receber 300 euros por mês? Isto se eu conseguir fazer a reportagem num mês, isto se eu conseguir fazer uma reportagem diferente todos os meses".

A precariedade acabou por deixar marcas. Foi diagnosticada com burnout há poucos meses e confessa que o último despedimento, mesmo depois de achar que estava a fazer um bom trabalho, a fez duvidar de si própria. “Fez-me pensar se o problema era meu”, admite.

“As empresas ainda não veem os problemas de saúde mental como doenças reais. Só reparam quando é algo físico, quando partes uma perna, por exemplo. Mas a ansiedade ou a depressão impedem mesmo de trabalhar”, desabafa. “E não é por estarmos a prestar um serviço que uma empresa nos pode explorar. Somos seres humanos com emoções, com problemas sérios. Tudo isto tem implicações. Se o nosso chefe grita connosco, nós depois vamos gritar para casa. Isto acontece mesmo.”

A ideia de emigrar começou a ganhar espaço. Já enviou candidaturas para o estrangeiro, embora ainda sem resposta. Pondera voltar a estudar, talvez fora de Portugal, mas hesita: depois de cinco anos de trabalho, custa-lhe pensar em recomeçar dos bancos da faculdade. "A minha licenciatura não me preparou nada para o mercado de trabalho, nem o atual, nem o antigo, nem o futuro. Ajudou-me apenas a escrever melhor, mas não me deu as ferramentas práticas que o mercado exige”, reconhece. 

Ainda assim, continua a investir em si própria. “Sou uma pessoa que gosta muito de aprender. Qualquer formação que apareça e que eu sinta que é valiosa para o meu trabalho futuro, eu faço. O conhecimento não ocupa espaço.”

“Mas acho que essa mentalidade de que estudamos, trabalhamos e tudo corre bem já não existe”, acrescenta. “E é difícil aceitar isso".

(Cortesia Mariana Moniz)
Cinco anos depois de se licenciar, Mariana continua à procura do seu espaço no jornalismo. (Cortesia Mariana Moniz)

Apesar do desencanto, Mariana continua a agarrar-se ao jornalismo. Não quer aceitar empregos fora da área - pelo menos, não ainda. “Agarro-me a isto com força. Só o vou largar quando perceber que já não vale a pena, quando perceber que o jornalismo está a trazer mais desvantagens do que vantagens para a minha vida.”

João Cerejeira vê nas histórias de jovens como Mariana um reflexo do bloqueio estrutural português: “Há uma dimensão burocrática e administrativa que não favorece a captação de investimento. Só a nível fiscal, por exemplo, uma empresa que ultrapasse determinado tamanho paga, além do IRC, uma derrama estadual, o que desincentiva o crescimento. Empresas com mais de 250 trabalhadores enfrentam um conjunto de obrigações muito superior às pequenas. Há um emaranhado de regulamentos, normas e licenciamentos que colocam barreiras ao crescimento.”

Essa estrutura, acrescenta, tem consequências diretas no emprego qualificado: “É preciso trazer para o país investimento estrangeiro e fazer crescer as médias empresas portuguesas, de forma a atingir um patamar de complexidade produtiva que crie valor e absorva o talento jovem.” O economista reconhece que alguns programas recentes, como as agendas mobilizadoras do PRR, são passos na direção certa, mas “ainda estamos na fase de implantação”.

Mariana fala com convicção, mas o cansaço é visível. O mundo, diz, parece estar “virado ao contrário”: os empregos que exigem menos formação são os que mais contratam, e os que pedem anos de estudo e dedicação são os que mais fecham portas. “É injusto porque matámo-nos a estudar, passámos noites acordados, tirámos formações x e y e z, para quê?”, desabafa.

Para ela, o equilíbrio tem de vir dos dois lados. Os jovens, acredita, estão a aprender a valorizar-se e a dizer que não, mas as empresas também precisam de empatia. “Não podem esperar trabalhadores felizes se os tratam como números. Passamos oito ou nove horas por dia a trabalhar. Se não formos valorizados, isso reflete-se em tudo o resto - em casa, na família, nas relações".

(Cortesia Mariana Moniz)
Mariana foi diagnosticada com burnout durante o último emprego. Hoje defende mais respeito pela saúde mental dentro das empresas. (Cortesia Mariana Moniz)

Nos dias mais difíceis, é a mãe e a terapia que a seguram. “A minha mãe tem sido o meu maior apoio. E a terapia ajuda-me a não ir tanto abaixo.”

Tomás e Mariana não se conhecem, mas podiam cruzar-se em qualquer fila de espera - para uma entrevista de emprego, um voo para outro país ou mais um recomeço. Cresceram com a promessa de que o estudo e o esforço seriam suficientes para construir uma vida estável. Ele sonha com palcos e mesas de som, ela com redações e histórias para contar. Cumpriram o plano, linha por linha, mas mesmo assim não chega.

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