Inventou uma organização criminosa, atuou como agente duplo: como um jovem português acusado de espionagem enganou as autoridades durante um ano

20 fev, 07:00

Esteve detido na Ucrânia em agosto de 2023 por suspeitas de espionagem e foi alvo de 33 processos de crimes contra o património no Luxemburgo. Ministério Público português admite que esta investigação foi "muito complexa", tendo sido "afastada toda uma organização que o arguido fantasiou" com o objetivo de ludibriar as autoridades

Miguel Rodrigues, um jovem português de 23 anos, enganou as autoridades portuguesas durante um ano, inventando uma associação criminosa fictícia e atuando como agente duplo para a Polícia Judiciária (PJ).

O caso remonta a fevereiro do ano passado, quando Miguel Rodrigues foi detido por suspeitas de ter roubado um portátil e um tablet a um militar sueco com ligações à NATO, que estava num hotel na Costa da Caparica para participar numa conferência internacional de robótica.

O jovem, de uma localidade da margem sul do Tejo, soube do evento, ficou hospedado naquele mesmo hotel onde estavam militares da NATO, roubou a uma das trabalhadoras de limpeza do hotel o cartão que abria as portas dos quartos e conseguiu roubar os aparelhos, que continham informações classificadas como secretas - e que o jovem planearia entregar a agentes ou colaboradores da Federação Russa.

Quando começou a ser interrogado pelas autoridades, contou uma história mirabolante, que lançou os investigadores numa verdadeira caça às bruxas. Miguel Rodrigues disse fazer parte de uma organização criminal internacional que praticava atos de espionagem para a Federação Russa.

Nas primeiras declarações à polícia, o jovem implicou uma série de pessoas que alegadamente pertenciam à mesma organização criminosa e explicou como operavam: "Eu recebia o pedido, recebia as informações necessárias e a partir daí organizava-me. Eram-me dados todos os meios financeiros, entre outros, para concretizar as operações (...). Isto, basicamente, é uma prestação de serviço que a gente creio que faz, só que eu já começo a ser da casa, mais ou menos devido ao alto sucesso que tenho."

E teria sido assim no caso do roubo ao militar sueco, conforme contou à PJ: "As indicações foram: tudo o que houver de eletrónico, papéis, tudo o que houver ao vosso alcance é para trazer. É sempre assim que a gente opera. A gente não quer material que não seja classificado, creio eu."

Arguido prometeu colaborar com a PJ como um agente duplo, mas...

Depois de roubar os aparelhos dos militares da NATO, Miguel Rodrigues dirigiu-se à embaixada da Rússia, em Lisboa, onde disse a um dos seguranças que estava a ser perseguido e que tinha “documentos secretos para entregar”.

Sem sucesso na embaixada, e já sabendo que a PJ estava a investigar o caso, prontificou-se a colaborar com as autoridades. “Alegou pretender, com essa atuação, mostrar o seu arrependimento e reparar, até onde lhe fosse possível, os prejuízos por si causados”, escreveu o Ministério Público, no despacho da acusação a que a CNN Portugal teve acesso.

A PJ acreditou e acabou mesmo por montar uma operação encoberta em que Miguel Rodrigues atuaria como uma espécie de agente duplo, para expor os colaboradores do regime russo. Em vez de entregar os aparelhos ao agente russo, comprometera-se a entregar outros e os verdadeiros ficariam com as autoridades.

Só que em vez de fazer o que estava combinado, o jovem trocou as voltas às autoridades e entregou uma pen a um diplomata russo. 

Até hoje, as autoridades não sabem o que estava nesse dispositivo, "uma vez que a NATO não forneceu o código de desencriptação”, lê-se na acusação. “Continuamos sem conhecer, em concreto, os contactos que o arguido teve anteriores aos factos conhecidos com agentes ou colaboradores da Federação Russa”, lê-se no despacho.

Interrogado novamente, Miguel Rodrigues explicou quem era o russo e o que tinha acontecido. “É um colaborador da embaixada Russa. Ele viu-me, saiu do carro, trocámos umas palavras, entreguei-lhe o que estava estabelecido e segui.”

Este agente russo terá saído do carro, falado com o alegado espião e recebido uma ‘pen’ "sem qualquer gesto de hesitação ou surpresa”, descreveu o MP.

Arguido admitiu que usou pessoas "para esconder" o seu rasto

Foi só no interrogatório final, confrontado com as mentiras em que foi apanhado, que admitiu que não havia nenhuma organização e que as pessoas implicadas não tinham nada que ver com o caso - trata-se de pessoas com quem teve algumas desavenças ao longo da vida.

“Pronto, querem que eu diga a verdade? Eu quis mandar as culpas. Tirar a culpa do capote e mandar a culpa para os campónios, para os pacóvios todos. O que eu quero realmente dizer é que eu usei estas pessoas para benefício próprio, para esconder o meu rasto e ponto", disse à PJ, citado pelo despacho da acusação.

O Ministério Público diz que esta investigação "foi muito complexa", apresentando "contornos muito singulares". "Foi afastada toda uma organização que o arguido fantasiou com o intuito de tirar o foco da investigação de si e provavelmente de terceiros não identificados”, pode ler-se no despacho.

Apesar de estar desempregado e sem morada certa, o arguido apresentava-se com objetos e equipamentos caros e roupas de marca. Vivia em hotéis e alojamentos locais e viajava muito, sobretudo para o Luxemburgo, onde chegou a candidatar-se a uma vaga de segurança no Parlamento Europeu, falsificando o seu currículo, que foi "recebido, analisado e reencaminhado internamente pelo Coordenador de Segurança do Parlamento Europeu", lê-se na acusação.

Também no Luxemburgo, o jovem é suspeito de crimes contra o património em cerca de 33 processos.

De acordo com a investigação, o arguido furtava telemóveis, computadores e carteiras, entre outros bens, quer entrando em casa ou nos quartos de hotel das vítimas, quer arrombando cacifos ou até mesmo apoderando-se de malas que não eram suas nos aeroportos. Para isso chegava a comprar bilhetes de avião para viagens que nem sempre fazia, com o objetivo de ter acesso aos tapetes das bagagens. 

“Para facilitar a passagem pelos controles de segurança do aeroporto, o arguido pedia, por vezes, apoio de locomoção, passando a circular de cadeira de rodas, empurrada por um funcionário do aeroporto, caminhando normalmente logo de seguida”, lê-se no despacho.

Em várias ocasiões, o jovem, que se encontra agora detido na prisão de Monsanto, usou as identificações das vítimas fazendo-se passar por elas. Muitos bens dados como roubados no Luxemburgo e em Portugal estavam na posse do arguido no hotel da Caparica, onde foi apanhado, ou numa unidade de armazenamento por ele arrendada.

Durante a investigação, as autoridades descobriram ainda que Miguel Rodrigues esteve preso na Ucrânia em agosto de 2023 por suspeitas de espionagem. Segundo informações do Serviço de Informações de Segurança, foi detido, “uma vez que na entrada naquele país, numa deslocação enquanto combatente voluntário, levava consigo armas de fogo e não tinha passaporte” - e alegou ainda que trabalhava para o SIS.

Relacionados

Crime e Justiça

Mais Crime e Justiça