Tolentino Mendonça olha para o Papa Francisco para ouvir as "lições que um pai idoso também nos dá"

13 mar 2025, 20:49
Tolentino Mendonça na Basílica de São Pedro, Vaticano (EPA)

Dentro da Cúria romana não se coloca a questão da sucessão. O cardeal português garante, em entrevista à CNN Portugal, que o líder da Igreja Católica continua a acompanhar tudo

A Igreja está a atravessar também um tempo de sofrimento com a doença do Papa Francisco. Como é que estão a ser vividos estes tempos dentro da Igreja?

É uma hora de grande esperança, porque nós olhamos para o sofrimento naturalmente com a exigência que são sempre as horas de sofrimento, mas ao mesmo tempo como uma razão mais para nos unirmos, para estarmos perto uns dos outros, para manifestarmos a nossa solidariedade com o Santo Padre e para acolher aquelas lições profundas que o sofrimento também nos transmite e que um pai idoso também nos dá, talvez não já através da força e das palavras neste momento, mas através do testemunho, através do silêncio, através do olhar que dele nos chega.

O senhor disse que a esperança tem de ser verdadeira, que essa mensagem profética da esperança de Francisco é uma mensagem verdadeira. O que quer dizer com isso?

O Papa Francisco é um grande mestre da esperança, um grande mestre contemporâneo da esperança e penso que isso é reconhecido não só pelos cristãos, mas também fora da Igreja. Vejo tantos fiéis de outras religiões, não crentes, que se manifestam dizendo o papel extraordinário que o Papa Francisco representa no mundo, a autoridade da sua voz, aquilo que ele traz a todos numa dinâmica de inclusão, de afirmação dos direitos fundamentais da pessoa humana e sobretudo um carinho muito grande pelos pobres, pelos últimos, de maneira que a esperança que o Papa Francisco transmite é uma esperança exigente, que pede de nós todos, não só o entusiasmo pela sua figura, mas também perceber que a sua mensagem de paz, de fraternidade, pede de todos nós e das nossas sociedades uma dinâmica de conversão, de transformação, de encontro.

Mas até quando é que a Igreja, a instituição, pode aguentar sem esse mestre da esperança à frente com uma voz ativa, porque pouco ouvimos nestes dias o Papa Francisco. Até quando é que esta instituição pode aguentar sem essa voz de comando?

Nós temos o Papa Francisco connosco e nós sabemos - e isso também é importante - que a fragilidade é um magistério. Eu não posso dizer que os doentes que estão nos hospitais não contam. Não, contam e como são uma grande reserva da nossa humanidade e relembram-nos o continuamento essencial. Eu penso que neste momento o Papa Francisco, na sua enfermidade, recorda à Igreja o essencial. E isso é uma energia, é um motor para a vida da Igreja e sem dúvida para todo o mundo. Mas é um tempo em que a Europa se está a rearmar, em que há tambores de guerra quase a rufar e a voz do Papa, que sempre foi uma voz transversal pela paz, neste momento tem de estar em silêncio por causa da doença.

A Igreja poderá manter-se muito mais tempo assim em silêncio?

A Igreja não está em silêncio, mesmo a Santa Sé já se manifestou sobre esta corrida ao armamento, recordando que as armas não são a solução, que nós precisamos de acreditar mais na diplomacia, no diálogo, no encontro, em tudo aquilo que possa verdadeiramente favorecer a paz. E a Igreja está viva, muitas vezes, e nós vemos isso nas famílias, a doença de um pai é uma ocasião para fortalecer a família. A Igreja não está desvitalizada, a Igreja está muito unida em torno da pessoa e ao magistério do Papa Francisco, que se não se faz ouvir por palavras, faz-se ouvir pela presença. Só o pensamento do Papa Francisco penso que acorda em todos os corações um desejo profundo de paz e de fraternidade.

O sentimento dentro da Cúria Romana perante uma possibilidade de renúncia por parte do Papa Francisco ou mesmo, infelizmente, de morte iminente?

Eu penso que é uma questão que não se coloca neste momento. Nós acompanhamos o Papa Francisco e a fidelidade que temos a este pai na fé, sucessor de Pedro, que une a Igreja inteira, é uma fidelidade de acompanhá-lo sempre, em todos os momentos, e por isso vivemos cada dia com esperança.

Apesar da questão não se colocar, a Igreja está disponível para aceitar uma nova renúncia, uma nova resignação, como Bento XVI fez?

O Papa Francisco está connosco. Essa é a mensagem forte que importa sublinhar e nós estamos com ele. A Igreja está com ele, o exemplo que a Cúria também tem dado de oração, de união ao Santo Padre e que chega do mundo inteiro. Nós estamos com o Papa Francisco.

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