Sócrates garante que não jantou com Salgado. Depois ouviu-se a escuta do motorista: "Fui levá-lo a jantar a casa do Salgado. Aquele gajo é mesmo à magnata"

9 jul 2025, 19:37
José Sócrates no Campus de Justiça (António Cotrim/Lusa)

No terceiro dia de julgamento, José Sócrates voltou a garantir que nunca jantou em casa de Ricardo Salgado. Confrontado com uma escuta do seu motorista a queixar-se por ter "de servir de vela" enquanto esperava que o ex-primeiro-ministro terminasse de jantar na casa do antigo dono do BES, Sócrates garantiu que apenas foi lá entregar um livro. E depois? "Fui a uma outra casa do Estoril, e não pergunte qual é a casa, porque eu não tenho de dizer"

Tem sido uma máxima constante de José Sócrates ao longo das três sessões de julgamento. Quando confrontado sobre que tipo de relação tinha com Ricardo Salgado, o antigo primeiro-ministro tem vindo a repetir que não era “amigo” do dono do BES, que não frequentava os “mesmos círculos sociais” do ex-banqueiro e que “nunca jantou” em casa dele, na Boca do Inferno, em Cascais. Há, no entanto, um evento na vida do ex-governante que tem sido central para o Ministério Público: a noite de 22 de abril de 2014. 

Neste terceiro dia de julgamento do processo Marquês, o procurador Rui Real pediu para exibir uma mensagem telefónica recebida por Sócrates e detetada durante a investigação. Nela surge o seguinte texto, acompanhado da morada do antigo dono do BES: “Amanhã jantar às 20:30 na casa de Ricardo Salgado. Também vai Henrique Granadeiro”. Perante a menção desta mensagem, o antigo primeiro-ministro tem desenvolvido a tese de que sim, foi ao palacete da Boca do Inferno, mas apenas para entregar uma cópia do seu livro ‘A Confiança no Mundo’ a Ricardo Salgado, não ficando para jantar com ele e com o antigo chairman da PT, também arguido neste caso. 

Após vincar esta tese novamente, o procurador Rui Real pediu para ser reproduzida uma escuta telefónica, que intercetou o motorista do antigo governante, João Perna, naquela noite de abril de 2014. Em silêncio, a sala de audiências ouve o motorista de Sócrates ao telefone por volta das 21:00 horas. “Acabei de chegar aqui à Boca do Inferno, aquele gajo é mesmo à magnata. Sabes quem é o Ricardo Salgado? Foi ali comer... Aqui nas vivendas em frente à Boca do Inferno, em Cascais… É o presidente do BES. Já fui hoje a Trás-os-Montes, já voltei, agora ficou ali… Vou servir de vela até à meia noite oh c**”.

A escuta termina e o procurador pede que seja transmitida ao tribunal uma segunda interceção telefónica ao mesmo alvo.“Ontem foi das 20:00 até às duas e tal da manhã. Ainda fui levá-lo a jantar a casa do Ricardo Salgado. Chegar a casa e não sei quê já eram duas da manhã”. O som termina e o procurador Rui Real aborda José Sócrates: “É verdade que tenha lá estado em casa de Ricardo Salgado?”. 

Sócrates levanta-se, aproxima-se do microfone, e ironiza. “Essa investigação policial parece muito interessante, mas, lamento, vou desiludi-lo. Fui a casa de Ricardo Salgado às 21:30 e saí por volta das 22:00”. E depois? “Fui a uma outra casa do Estoril, e não pergunte qual é a casa, porque eu não tenho de dar”, conta, antes de acusar o Ministério Público de preferir um “vaudeville”, que é como quem diz um espetáculo de variedades, a “perguntar”. 

Logo a seguir, a juíza adverte-o novamente para não usar adjetivos na sua avaliação ao Ministério Público. “Apenas mencionei que se tratou de um vaudeville e, olhe, acredite que me contive”, retribui. Em resposta, o procurador queixa-se à juíza pela forma de tratamento usada, no sentido de impedir um "bate-boca" no tribunal e "desrespeito" perante os procuradores e o tribunal. E José Sócrates, que horas antes tinha condenado o uso do Ministério Público de uma escuta em que é mencionado um jantar íntimo, retorque desta forma: “Se o Ministério Público achou que me dirigi em termos desrespeitosos, tem toda a razão. Depois do que aconteceu esta manhã, não tenho qualquer respeito pelo Ministério Público”. 

José Sócrates viria a tocar neste ponto à saída do julgamento, no Campus de Justiça, em Lisboa, referindo que “não houve nenhuma contradição". "Só estive entre as 21:30 e as 22:00 horas”, recusando-se a esclarecer sobre para onde se dirigiu após o breve encontro com Salgado, mencionando apenas a zona do Estoril. "Não gosto de partilhar a minha vida privada com estranhos."

Ligação direta a Ricardo Salgado? 

José Sócrates à entrada do terceiro dia de julgamento do processo Marquês / LUSA

Um dos temas centrais deste terceiro dia de julgamento foi precisamente o grau de relação e acesso que Salgado tinha a Sócrates e vice-versa. Também neste assunto, o ex-primeiro-ministro tem mantido que nunca teve o número de telefone do antigo banqueiro, utilizando esse argumento para exprimir que os dois apenas tinham uma relação institucional. Para o confrontar com essa premissa, o Ministério Público decidiu expor uma outra interceção telefónica ao antigo chefe do Executivo ocorrida em novembro de 2013, dois anos após ter saído do cargo.

Nela, Sócrates é ouvido a telefonar à sua assistente, Maria João, a pedir se seria possível entrar em contacto com a secretária de Ricardo Salgado. “Mas eu tenho o número dele, que ele deu e que é só para o senhor primeiro-ministro utilizar”. Sócrates reage: “A Maria João era a minha antiga secretária, e isso confirma que eu não tinha o número de Ricardo Salgado. Ela tinha o número de telefone de muita gente, incluindo o de Ricardo Salgado e o que ela diz é que a secretária de Salgado lhe deu um número para eu ligar se precisasse - só para o primeiro-ministro utilizar.”

A juíza Susana Seca intervém, sublinhando que esse “facto não se pode retirar (…)”, o facto de o primeiro-ministro ter um telefone dedicado a esse contacto. “Não é isso que está escrito”, responde o antigo primeiro-ministro. “O que está escrito é que a minha secretária tinha um telefone para, se quiser, que seja só o primeiro-ministro a utilizar. O Ricardo Salgado dava o número de telefone e pedia ‘use só você’.” 

Antes, foi igualmente emitida uma escuta a José Sócrates em que é possível ouvir, do outro lado, José Maria Ricciardi, primo de Salgado que o antigo primeiro-ministro tem acusado de mentir e de querer prejudicar a sua própria família. A chamada, de dezembro de 2011, revela o antigo primeiro-ministro a desejar boas festas ao elemento do clã Espírito Santo. “Quero dar-lhe um abraço de boas festas, de memória, para que os meus amigos não me esqueçam. Sou muito vosso amigo, sou muito amigo do Ricardo.” 

Como na sessão de terça-feira, José Sócrates reagiu às escutas, sublinhando novamente que não era amigo de Ricardo Salgado. “Quando uso o termo amigo, é um termo que eu uso coloquialmente no convívio social, mas que não deve ser interpretado na condição de amigo. O Ricardo Salgado não é meu amigo, ele não me ligava nas festas.” No dia anterior, tinham já sido emitidas escutas que mostravam Sócrates e o ex-líder do Grupo Espírito Santo a tratarem-se com afinidade e por “meu caro amigo”

A sessão da tarde acabou por terminar mais cedo e foi interrompida durante cerca de uma hora enquanto os magistrados tentavam localizar um documento relativo à OPA da Sonae à PT a pedido do Ministério Público. Nessa altura, Sócrates manifesta-se irritado com o silêncio, soltando um "Parem lá com isso!”. Sem sucesso, sentou-se impaciente. Nessa hora em que os trabalhos estavam suspensos, o ex-primeiro-ministro suspirou, levantou-se novamente, inclinou-se na barra, meteu as mãos nos bolsos, voltou a sentar-se, cruzou os braços, levantou-se e questionou o advogado sobre o que se estava a passar. 

Quando retomou, Sócrates, que se confessou “cansado” diz que tentou acelerar este processo, mas sem sucesso. "Estava a ouvir este debate tão interessante… e parece que o citius [a plataforma eletrónica dos tribunais] é do tempo do José Sócrates [foi criado em 2007]”. “E, portanto, é tudo culpa do Sócrates, que é responsável por tudo o que de mal acontece. Estivemos aqui um dia inteiro e o Ministério Público não apresentou provas", afirma já quando a sessão termina.

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