"Mas eu ouvi bem? A senhora juiza vai aceitar isto?". Sócrates exalta-se ao ser questionado sobre uma transferência entre Carlos Santos Silva e Sandra Santos

10 set 2025, 13:50
Sócrates em tribunal (Filipe Amorim/Lusa)

Antigo primeiro-ministro criticou ainda a lógica do "caminho do dinheiro" e defendeu o trabalho de realizado pelo juiz Ivo Rosa na fase de instrução

José Sócrates mostrou-se visivelmente exaltado ao ser questionado pelo Ministério Público sobre uma alegada transferência bancária de Carlos Santos Silva, seu amigo e também acusado na Operação Marquês, para Sandra Santos.

Num dos muitos episódios durante a décima sessão do julgamento da Operação Marquês, Sócrates perguntou à juíza: "Mas ouvi bem? Está a perguntar-me porque é que Carlos Santos Silva fez uma transferência para a Sandra Santos? O que tenho eu a ver com isso? A senhora juíza vai aceitar isto? Já ontem me falaram de Sandra e hoje outro procurador volta a falar da mesma pessoa. Querem chegar a um sítio que não é decente." Uma intervenção que obrigou a juíza presidente do coletivo de juízes, Susana Seca, a intervir e a pedir calma.

“Bastaria um não. O facto de ficar alterado com as perguntas traz desgaste. As considerações que faz não alteram a perspetiva do tribunal, que é sempre objetiva. Isto dito, o senhor tem sempre a possibilidade de não responder à pergunta, mas não é necessário alterar-se”, declarou.

A situação ficou ainda mais tensa em seguida, com a intervenção do advogado de José Sócrates.  “A pergunta do Ministério Público [MP] é ilegal e viola a proibição de prova. Isto não pode continuar. Estamos a atrasar o processo e não traz nenhuma vantagem. (…) O MP só pode fazer perguntas se mostrar provas", declarou.

Outro dos momentos tensos aconteceu logo após a abertura dos trabalhos quando José Sócrates revelou estar "exausto" com a intensidade das audiências. “Compreenda que isto é violento. Eu defino o que digo. Vou falar dos empréstimos do meu amigo, mas dadas as perguntas do Ministério Público e dada a violência física que me é imposta, vou falar na sessão de hoje e peço, peço não, deliberei que não faço mais declarações a partir de 2005 para lá”, revelou.

Sócrates explicou ainda que pretende encerrar a exposição sobre o período em que foi primeiro-ministro até 2011, sublinhando que não quer continuar a falar “à pressão”. “Para me defender fisicamente, quero terminar hoje as minhas declarações até ao período em que fui primeiro-ministro, 2011. A minha ideia, portanto, é terminar hoje”, acrescentou, afirmando ainda que "não fujo de prestar declarações sobre nada”.

“Uma loucura tão grande”

Com o correr da sessão, o ex-governante criticou repetidamente a lógica do chamado “caminho do dinheiro”, apresentada pelo Ministério Público para justificar as acusações de corrupção e branqueamento de capitais. “O tal caminho do dinheiro é uma loucura tão grande. A vontade de acusar era tão grande que identificamos uma transferência e vamos ver o que aconteceu naquele período. (…) O que está em causa é a afirmação de que essas transferências vieram parar ao meu património. Importa-se de apresentar uma prova?”, questionou, dirigindo-se ao procurador Rómulo Mateus.

Sócrates rejeitou as alegações sobre pagamentos entre empresas e explicou que não tinha qualquer relação com a suposta contrapartida de um contrato de construção aprovado em Conselho de Ministros. “Isto, onde há dinheiro, há crime. O procurador quis perguntar-me se sabia que houve uma transferência da Lena [Grupo Lena] para a XLM para pagar corrupção. Isso não me diz respeito. Essa de chegar aos bolsos, é, desculpe Sr. procurador, de provar aquilo que me disse de me ter chegado aos bolsos”, frisou.

Segundo Sócrates, o mesmo dinheiro teria sido apontado pelo MP como destinado ao pagamento de casas na Venezuela, mostrando a incoerência da acusação.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates, principal arguido no caso de corrupção Operação Marques, chega ao Tribunal Penal Central de Lisboa, em Lisboa, a 10 de setembro de 2025. EPA/FILIPE AMORIM. LUSA

“Espero que se faça alguma justiça ao trabalho” do juiz Ivo Rosa

Ao longo das quase três horas de sessão, Sócrates aproveitou ainda para defender a importância do trabalho realizado pelo juiz Ivo Rosa durante a fase de instrução, elencando os erros da acusação.

“Quem perdeu muito tempo com isto foi o juiz Ivo Rosa, que elencou [os erros da acusação] uma a uma na decisão instrutória. Espero que se faça alguma justiça ao trabalho que desenvolveu neste processo. Não que tenha estado de acordo com a sua decisão e isso está nos recursos que apresentei, porque fez uma alteração substancial dos factos. O juiz Ivo Rosa fez um trabalho importantíssimo a elencar os erros da acusação”, sublinhou.

Mas o nome do juiz não foi o único a ser mencionado ao longo da sessão. Houve outro “elefante na sala”: Ricardo Salgado, com quem José Sócrates se mostrou sensível, tendo em conta que, segundo o próprio, “o Estado português insiste em julgar um demente”.

“Temos a divergência de este julgamento estar a decorrer sem um dos arguidos. É um elefante no meio da sala e ninguém fala dele, que é o caso de Ricardo Salgado. O Estado português julgou e condenou um demente e insiste em julgar um demente. E não suspende, continua tudo”, declarou.

A sessão retoma a partir das 14 horas desta quarta-feira, depois de uma pausa para almoço, onde se espera que Sócrates continue a responder a questões do Ministério Público.

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