Durante a sessão, o antigo primeiro-ministro esclareceu ainda a relação com o amigo Carlos Santos Silva, afirmando desconhecer os negócios deste, e voltou a elogiar o "circunspecto" juiz Ivo Rosa
Na parte da tarde da 10.ª sessão do julgamento do Processo Marquês, José Sócrates voltou a confrontar o Ministério Público (MP) com duras críticas, rejeitando qualquer ligação às transferências bancárias em causa no processo. O antigo primeiro-ministro elevou o tom ao reagir à tese da acusação, que alegadamente associava 4,5 milhões de euros movimentados para uma conta controlada pelo amigo Carlos Santos Silva a contratos assinados na sequência de uma visita do então presidente da Venezuela Hugo Chávez a Portugal.
“Eu estou cansado, mas percebi bem. Levou o tribunal ao engano. Não, não tenho conhecimento, não faço a mínima ideia de quem fez a transferência. Esse dinheiro não me pertence. Tudo a que estamos a assistir é que estamos a virar isto ao contrário”, declarou, acusando o procurador Rómulo Mateus de andar “a tarde toda aos papéis”.
Mais tarde foi ainda mais contundente. “Isso não passa de insultos. Essa conta não é minha, não tenho nada a ver com ela. E aquilo que o Ministério Público diz extravasa o tratamento que deve haver entre o Ministério Público e um sujeito processual. Sujeito. Não objeto”, reforçou.
Já perante questões de Susana Seca, a juíza responsável pelo coletivo de juízes, Sócrates quis clarificar a sua relação “fraterna” e de longa data com Carlos Santos Silva, outro dos arguidos do processo, e afastar a tese de que ambos teriam tido conversas sobre alegados negócios. “Entre mim e Carlos Santos Silva há uma relação fraterna de quem se conhece desde os bancos do liceu. Ficámos sempre amigos. Eu sempre conheci o Carlos Santos Silva como empresário (...), mas eu nunca tive nenhuma proximidade com isso e não discutíamos os seus negócios.”
Foi aqui que entrou, mais uma vez, a questão do TGV. “Nunca discuti sobre TGV nenhum. O próprio disse que era completamente estranho ao TGV. Isso foi o que li. Ele nunca me falou disso. Nem de casas da Venezuela nenhumas”, garantiu, acrescentando que a relação entre ambos apenas se estreitou após a sua saída do Governo, em 2011.
“A partir de 2012 falámos de muita coisa, antes disso não. Em razão da minha vida. (…) Altura em que saí do Governo e tinha mais tempo para falar com ele.” Num tom exaltado, defendeu ainda que “ele [Carlos Santos Silva] é vítima disto tudo” por sua causa. “Ele é arguido por minha causa.”
Para terminar o tema Carlos Santos Silva, o antigo governante afirmou ainda que não tinha conhecimento de uma amizade entre o mesmo e Rui Pedro Soares, assim como desconhecia alegados negócios entre ambos. “Os meus amigos não se sentem obrigados a entregar reportes trimestrais ou mensais sobre os seus negócios. Nem sabia que eram amigos na altura. Estava na prisão quando soube notícias de um negócio. Depois li coisas sobre isso.”
Sócrates descreve MP como "incapaz e incompetente". Já Ivo Rosa é "circunspecto"
Se de manhã José Sócrates já tinha pedido que fosse feita “alguma justiça ao trabalho” desenvolvido por Ivo Rosa na fase de instrução, à tarde foi mais longe para descrever o magistrado. O antigo primeiro-ministro descreveu-o como “um juiz circunspecto”, sublinhando que "quando fala em fantasias e incongruências é disto que está a falar [uma referência às acusações do MP]. (…) Eu acho que isto merecia uma apreciação pior”, reforçou Sócrates em tribunal.
Em contrapartida, e bem longe dos elogios que havia feito a Ivo Rosa, o ex-governante considerou o Ministério Público como “incapaz e incompetente”, perante as acusações que foi ouvindo. "A lógica do MP é esta: há dinheiro atribuído ao Sócrates, então inventamos, pronto inventamos. Não foi aqui em Portugal foi no Brasil, não foi na alta velocidade foi na Venezuela, mas de algum sítio foi porque há uma transferência então há um crime."
Sobre a associação de milhões de euros ao projeto das casas da Venezuela, o arguido apontou “incongruências” temporais. “Não há relação entre as transferências bancárias e as casas na Venezuela quando elas ainda não existiam. Surgiram um ano depois. (...) Repito o método do MP: há dinheiro, há crime. Viram dinheiro, é das casas da Venezuela. É uma incongruência total e um absurdo. O Ministério Público acha que pode passar por cima de tudo.”
Sócrates rejeitou ainda qualquer ilegalidade no processo da OPA da PT e no uso da golden share: “Eu não fazia a mínima ideia, em 2007, do que era a Telemar. Nunca tinha ouvido falar na OI até 2010. É como a arte abstrata, não representa a realidade.”
No final da sessão, e depois de quase três horas de julgamento no qual foi-se mostrando cansado, José Sócrates acabou por ser dispensado das próximas sessões de julgamento pela juíza responsável, tendo sublinhado estar “à disposição do tribunal”, mas que terá de fazer uma viagem nas próximas semanas por “motivos académicos”. “Preciso de 10 ou 15 dias”, acrescentou.