O alegado jantar em casa de Ricardo Salgado voltou a marcar a sessão, mas impasse mantêm-se. MP usa geolocalização e contactos no telemóvel do ex-primeiro-ministro para dizer que sim. Sócrates continua a garantir que não e que o interrogatório a Ricardo Salgado prova isso mesmo
José Sócrates tentou durante mais uma sessão da Operação Marquês colocar uma cruz sobre aquele que parece ser o mistério mais importante da audiência desta manhã: o antigo primeiro-ministro jantou ou não jantou em casa do antigo líder do Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado? O tema marcou mesmo o arranque da audiência com o procurador Rui Real a apresentar os dados de geolocalização do telemóvel do ex-primeiro-ministro.
José Sócrates pediu, então, à juíza para fazer uso do auto de inquirição de Ricardo Salgado, mas a presidente do coletivo de juízes não acedeu ao pedido do arguido, que, ainda assim, revelou: "O dr. Ricardo Salgado diz que não jantou comigo".
Geolocalização e o RSalgado1: telemóvel contradiz Sócrates
O antigo primeiro-ministro considerou estranho que Ministério Público (MP) estivesse a reproduzir escutas onde se falava no jantar e considerou também estranho que o mesmo MP tivesse rastreado geolocalizações do seu telemóvel através de antenas telefónicas nas imediações da habitação de Ricardo Salgado. Para desvendar o mistério, José Sócrates assegurou que bastava terem ouvido o interrogatório ao antigo líder do universo Espírito Santo.
Quanto aos registos de geolocalização, os dados obtidos mostram que o primeiro registo de uma chamada telefónica feita junto à casa de Ricardo Salgado, ocorreu às 20:50, durou um minuto, tendo terminado às 20:51. A última chamada geolocalizada na mesma área foi às 00:22.
Sócrates aproveitou para questionar: "Quantas chamadas fiz? 20? Afinal, passei a noite a fazer chamadas, achei que tinha ido jantar". Indignado, o arguido perguntou. "Entre as 20:00 e as 23:00 fiz 20 chamadas?".
Perante estas questões, a juíza questionou o MP, tendo o procurador Rui Real respondido que não eram apenas chamadas, mas “chamadas e também SMS [mensagens]".
Pedindo autorização à juíza Susana Seca, o ex-primeiro-ministro questionou, então, diretamente o procurador do MP. "Quantas chamadas são?". O procurador Rui Real respondeu que teriam sido "dez ou 15, talvez".
"Portanto, passei a noite a fazer chamadas?", concluiu José Sócrates.
Num outro momento da sessão, o procurador Rui Real aproveitou ainda para apresentar a lista de contactos do telemóvel de José Sócrates. Na lista partilhada com os presentes através de um dos ecrãs suspensos nas paredes da sala de audiências leu-se "RSalgado 1" e um segundo contacto referente a Ricardo Salgado. Ambos os contactos foram criados no dia 24 de março de 2014, sendo que o alegado jantar entre Sócrates e Salgado foi em abril do mesmo ano.
Escutas levam Sócrates à exaltação
A sessão ficou ainda marcada por um momento de tensão entre José Sócrates e o procurador-geral-adjunto Rómulo Mateus, quando o MP tentou reproduzir uma escuta de um telefonema entre o arguido e Manuel Vicente, antigo vice-presidente de Angola.
José Sócrates exaltou-se com a intenção de reprodução de mais uma escuta por parte do MP e acusou o procurador de querer “pornografia”, de querer “expor as pessoas”. Sócrates lembrou que já na sessão de terça-feira tinham sido reproduzidas escutas com Fernanda Câncio e pediu para que se parasse com o que apelidou de “hipocrisia”.
"O que fizeram ontem [terça-feira] já foi uma pouca-vergonha", recordou o antigo primeiro-ministro, garantido que o objetivo do MP é apenas humilhar. Mas "se querem ouvir a gravação, oiçam a gravação", concluiu, referindo-se ao telefonema com Manuel Vicente.
A juíza Susana Seca acabou por intervir para dizer que compreendia o desconforto do ex-primeiro-ministro, que a reação que José Sócrates estava a ter é uma reação natural nos arguidos e acabou por convencer os procuradores a que aceitasse que o arguido explicasse pela sua voz o conteúdo da escuta. Mas como a explicação ficou aquém do esperado, a escuta acabou mesmo por ser reproduzida. Não sem antes Sócrates ter dito que a escuta que iria ser ouvida tinha sido “o telefonema que determinou a [sua] prisão”. O ex-primeiro-ministro lembrou que na conversa com Manuel Vicente há um momento em que diz que a Lena [Grupo Lena] é "uma empresa gerida por pessoas a quem devia atenções”. E isto bastou para que um juiz ordenasse a ordem de detenção e consequente prisão.
José Sócrates garantiu, no entanto, que a expressão que usou é uma expressão que utiliza "muitas vezes", tendo exemplificando que não seria algo que viesse a dizer no futuro sobre a juíza Susana Seca. Mas voltou a garantir que o dizia sobre muitas pessoas que, embora não lhe sendo muito próximas, seriam pessoas com quem precisava de falar esporadicamente.
"A minha tarefa neste telefonema era marcar uma audiência porque não ia estar a explicar tudo ao vice-primeiro-ministro de Angola por telefone", justificou.
O telefonema entre Sócrates e Manuel Vicente
Na escuta ao telefonema entre José Sócrates e Manuel Vicente, quando o primeiro já não era líder do Governo português, fica percetível que é Sócrates que liga a Manuel Vicente. "Tenho uma boa notícia, é que há uma vida boa à nossa espera cá fora e é melhor", disse Sócrates.
Depois surge o momento que gera dúvidas ao MP, quando Sócrates diz: "O que eu queria pedir era se me podia receber ou se podia receber umas pessoas que lhe vou recomendar. (...) São umas pessoas minhas amigas, que conheço há muitos anos e a quem devo muitas atenções".
Por fim, Sócrates e Manuel Vicente acabam por tentar conjugar agendas, até que percebem que ambos iriam estar na Assembleia das Nações Unidos, em Nova Iorque, onde acabaram por se encontrar.